05 Março 2026
O ataque de Donald Trump pode ser irracional, injustificado e ilegal. Mas isso não impede a imprensa de aumentar o volume da propaganda.
O artigo é de Chris Lehmann publicado por The Nation, e reproduzido por CTXT, 03-04-2026.
Chris Lehmann é o chefe da sucursal de Washington, D.C., da revista The Nation e editor colaborador da revista The Baffler. Foi editor da The Baffler e da The New Republic, e é autor de The Money Cult: Capitalism, Christianity, and the Unmaking of the American Dream (Melville House, 2016).
Eis o artigo.
Nossos veículos de comunicação tradicionais [nos EUA] costumam ser pegos de surpresa pelas numerosas e rápidas convulsões na política americana e na economia em geral, seja o otimismo frenético por trás da bolha da inteligência artificial ou o colapso da outrora imponente coalizão que apoiou Trump em 2024. No entanto, com a guerra surreal, injustificada e ilegal de Donald Trump contra o Irã, nossos magnatas da imprensa recuperaram sua bússola cognitiva com renovada intensidade.
Tal como os seus antecessores da imprensa sensacionalista que apoiaram os primeiros conflitos do império americano moderno há mais de um século, hoje a imprensa do establishment volta a construir uma narrativa de impunidade intervencionista, utilizando os mesmos materiais rançosos. Agora, como em 1898, os líderes americanos apresentam-se globalmente como os guardiões desinteressados do autogoverno; agora, como então, o país professa que devolverá sem hesitar a soberania — que ele próprio profanou — às mãos do povo agradecido e oprimido que se encontra do outro lado da linha de frente. Agora, como então, esta nova missão imperial parece destinada a causar estragos ainda maiores em toda a região afetada. E quando isso ocorrer, o governo [dos Estados Unidos] passará para a sua próxima aventura destrutiva, deixando um contingente de retaguarda de piratas e capitalistas comparsas para cuidar dos trabalhos de limpeza (por assim dizer). E hoje, como então, a imprensa não se farta da guerra.
O "reset" patriótico
O conhecido "reset" midiático em tom patriótico é tão radical que até os críticos mais proeminentes da presidência imperial de Trump — ou os que se supõem críticos — disputam o posto na primeira fila de animadores de torcida. No jornal da minha cidade [The Washington Post], estraçalhado por um bilionário, o colunista conservador George F. Will, normalmente confiável em suas críticas a Trump, publicou um louvor digno de William Randolph Hearst sobre a ação errática do presidente.
Seu título é um testemunho eloquente do alívio palpável que Will sente ao retornar ao seu papel de colunista beligerante: “Finalmente se restaura a credibilidade do poder de dissuasão americano”. A alucinação em prosa que se segue regozija-se com o fato de que “o regime do Irã, cujo mantra desde a sua criação em 1979 tem sido ‘Morte à América’, está prestes a morrer nas mãos de Israel e dos Estados Unidos”.
E essa é apenas a segunda frase. A partir daí, Will avança com agilidade, tachando os críticos da surpreendente aposta monárquica de Trump por uma mudança de regime no Irã de "quinta-colunas" desprovidos de civilização: “Os manifestantes iranianos sublinharam dramaticamente a barbárie do regime, pelo que aqueles que hoje lamentam o desaparecimento do mesmo revelam a sua própria barbárie”.
E embora Will costume se apresentar como defensor da estrita obediência à Constituição, aqui ele descarta a ideia de que a intervenção seja uma “guerra de escolha”; trata-se, antes, de um ato heroico de autoconservação nacional comparável à recusa de Lincoln em permitir que os estados do sul se separassem silenciosamente. (Sim, ele realmente faz essa comparação, por mais difícil que seja imaginar o nosso primeiro presidente assassinado como o maior admirador de um atentado orquestrado pelo Estado contra um líder estrangeiro.) Ao matar o chefe de Estado do Irã e centenas de seus cidadãos, Trump transformou-se de repente, aos olhos de Will, de um César americano frustrado no herdeiro de Lincoln, o Grande Emancipador.
A máquina de propaganda
Enquanto o belicismo de Will posa de respeitável e solene, o resto da nossa esfera midiática deleita-se no trabalho sujo de criar alguma aparência de apoio popular a esta aventura mais recente de Trump como "homem forte".
Passando para a cobertura informativa do jornal The Washington Post, há um relato apaixonante de como a resposta brutal de Israel aos massacres do Hamas de 7 de outubro colocou o Irã em sua mira: “O Irã abandonou o status quo”, diz com entusiasmo um subtítulo, como se uma campanha genocida de terrorismo de Estado não passasse da obra de uma ousada startup tecnológica. Para ler uma reportagem igualmente crédula sobre a incursão que acabou com a morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, veja o elogio quádruplo do The New York Times aos velhos serviços secretos americanos: “A CIA ajudou a localizar uma reunião de líderes iranianos. Então Israel atacou”.
Naturalmente, o próprio Trump lamentou desde então que esta operação “precisa” também tenha eliminado os principais candidatos para liderar o país após o assassinato de Khamenei. E estudiosos sérios da política iraniana observaram que matar o líder supremo de um regime que cortejava abertamente o martírio não é o golpe estratégico definitivo que a Casa Branca de Trump espera desesperadamente que seja.
A fantasia monárquica na CBS
No entanto, as narrativas imperiais americanas raramente são abaladas por meros detalhes empíricos. Em vez disso, as fantasias de um golpe de Estado remoto e indolor orquestrado pelos EUA já florescem. O exemplo mais descarado vem da CBS News, que sob a supervisão do novo proprietário, David Ellison, tornou-se uma réplica da Fox News.
A editora-chefe da CBS News, Bari Weiss, regozijava-se nas redes sociais pela invasão do Irã e não tardou a traduzir esses sentimentos em cobertura de destaque. No domingo, 28 de fevereiro, o programa 60 Minutes começou com uma extensa e elogiosa entrevista com Reza Pahlavi, filho do falecido Xá do Irã no exílio, apresentado como candidato a líder do país após a invasão.
Isso foi um exagero em vários sentidos: Pahlavi não vive no Irã há quase 50 anos, e seu suposto apoio popular baseia-se em grande parte em fazendas de bots estrangeiros. No entanto, o correspondente Scott Pelley fez o papel de patriota oportunista, lançando perguntas fáceis a Pahlavi em sua luxuosa sede em Paris.
“Os iranianos confiam em mim como líder de transição”, disse um homem que não passou um único momento de sua vida adulta vivendo com iranianos. “Para mim, seria o suficiente para poder dizer ‘missão cumprida’”.
Que qualquer aspirante a líder no Oriente Médio cite com total seriedade a infame e prematura declaração de vitória de George W. Bush após a invasão ilegal do Iraque deveria desencadear uma enxurrada de perguntas céticas. Mas tratava-se de Scott Pelley no programa de Bari Weiss. Ele permitiu que o príncipe exilado lavasse o relato histórico: “Meu pai deixou o Irã voluntariamente para evitar um derramamento de sangue”, disse Pahlavi, sem mencionar, claro, que o sangue em questão seria o do próprio Xá.
Conclusão
Para qualquer pessoa que não seja Scott Pelley, as contradições seriam óbvias. Mas o porta-voz de guerra designado optou por nos servir gentilezas. Pahlavi prometeu uma "reconciliação" que soa muito como a repressão contra dissidentes que já conhecemos. Sem dúvida, ao vê-lo, George Will e dezenas de produtores de TV da nossa decadente república imperial choravam em uníssono, aliviados por terem recuperado suas verdadeiras vocações.
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