27 Fevereiro 2026
"Em nossas vidas, também temos momentos de certeza, quando nossas escolhas se fortalecem e nos impulsionam para um maior comprometimento e radicalismo. Devemos manter esses momentos em mente para que nos sustentem em tempos de dúvida e incerteza. Jesus é o Filho de Deus, e o seu reino é a vontade de Deus para a humanidade. Acreditemos na sua mensagem, apesar das dificuldades, com a firme esperança de que Deus tem a palavra final, e essa palavra é de vida e salvação".
O comentário é de Consuelo Vélez, teóloga colombiana, publicado por Religión Digital, 24-02-2026.
Eis o artigo.
Seis dias depois, Jesus chamou Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago, e os levou para um alto monte, onde estavam sozinhos. Ali, ele foi transfigurado diante deles. Seu rosto brilhou como o sol, e suas roupas tornaram-se brancas como a luz. De repente, Moisés e Elias apareceram diante deles, conversando com Jesus. Pedro disse a Jesus: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se quiseres, construirei três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias”. Enquanto ele ainda falava, uma nuvem brilhante os envolveu, e dela saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Ouçam-no!”. Ao ouvirem isso, os discípulos prostraram-se com o rosto em terra, tremendo de medo. Mas Jesus aproximou-se, tocou-os e disse: “Levantem-se! Não tenham medo”. Quando olharam para cima, viram apenas Jesus. Enquanto desciam da montanha, Jesus os instruiu: “Não contem a ninguém o que vocês viram, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos” (Mateus 17,1-9).
Este relato da Transfiguração ocorre depois que Jesus fez sua primeira predição da Paixão aos seus discípulos (Mt 16,21). Pedro o repreende por dizer tais coisas, e Jesus o repreende severamente, chamando-o de "Satanás", porque ele parece não compreendê-lo e, além disso, quer impedir que Jesus sofra esse destino. Nesse contexto, o relato da Transfiguração prenuncia, de certa forma, que a morte não tem a palavra final, pois a glória virá, a qual envolverá Jesus e aqueles que estão com ele. Por essa razão, Jesus leva Pedro, Tiago e João consigo, e eles sobem ao monte onde a Transfiguração ocorrerá.
No Evangelho de Mateus, a imagem da montanha aparece diversas vezes. Ela é usada nas tentações, quando o diabo o leva a uma montanha muito alta (Mt 4,8-10), e é também em uma montanha que Jesus profere seu sermão inaugural (capítulos 5-7). É também em uma montanha que ele se despede de seus discípulos (Mt 28,18-20). Para Mateus, a montanha é o lugar onde Deus se manifesta, como fez com Moisés, entregando-lhe as tábuas da Lei (Êx 31,18), ou com Elias, quando o profeta está em crise e sobe o Monte Horebe em busca de Deus (1 Reis 19,1-18).
Nesta passagem, Jesus vai com seus discípulos à montanha, e ali ocorre o mistério da Transfiguração, onde os apóstolos veem Jesus brilhando como o sol e vestindo roupas brancas; ele também é visto conversando com Moisés e Elias. Nesse momento, Pedro se pronuncia e sugere a construção de três tendas. Sem dúvida, todos queremos nos deter nos momentos de glória e fugir das dificuldades. Mas a experiência continua, e uma voz do céu confirma que Jesus é o Filho amado, o escolhido a quem eles devem ouvir. É então que os discípulos sentem medo. Esse medo é mais uma “reverência reverencial” diante do divino, ou seja, o reconhecimento daquela realidade transcendente que eles são capazes de perceber. Jesus lhes diz para não terem medo e os adverte para não contarem a ninguém até depois da ressurreição.
Se interpretarmos essa passagem literalmente, poderíamos pensar que os discípulos já sabiam tudo o que iria acontecer a Jesus: sua morte e sua futura ressurreição. Portanto, não faria sentido Pedro negá-lo mais tarde e todos os discípulos fugirem no momento de sua morte. Por isso, é necessário lembrar que todos os Evangelhos foram escritos no contexto da Páscoa; ou seja, todos os eventos já haviam ocorrido, e foi então que as diferentes comunidades começaram a registrar suas experiências vividas por escrito. Nesse sentido, o que na vida histórica dos discípulos era talvez uma intuição, uma certa certeza — e por isso seguiam Jesus — na escrita dos Evangelhos já aparece como um fato consumado, como um momento em que, contrariamente à perseguição que Jesus logo sofreria, eles se convenciam de que esse era o caminho que Deus queria, porque, de fato, Jesus era o Filho amado de Deus.
Em nossas vidas, também temos momentos de certeza, quando nossas escolhas se fortalecem e nos impulsionam para um maior comprometimento e radicalismo. Devemos manter esses momentos em mente para que nos sustentem em tempos de dúvida e incerteza. Jesus é o Filho de Deus, e o seu reino é a vontade de Deus para a humanidade. Acreditemos na sua mensagem, apesar das dificuldades, com a firme esperança de que Deus tem a palavra final, e essa palavra é de vida e salvação.
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