O Papa descreve o Concílio Vaticano II como a "estrela polar do caminho da Igreja" e apela ao progresso na "reforma eclesial"

Foto: Vatican Media

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08 Janeiro 2026

Leão XIV nos convida a "redescobrir o Concílio" e dedica um novo ciclo de catequese à releitura de seus documentos.

A reportagem é de José Lorenzo, publicada por Religión Digital, 07-01-2026. 

"Redescobrindo o Concílio." Foi a isso que Leão XIV nos convidou esta manhã em sua primeira catequese do novo ano, aproveitando o início do novo ciclo de catequese que será dedicado ao Vaticano II e à releitura de seus documentos, "uma valiosa oportunidade para redescobrir a beleza e a importância deste evento eclesial", cujo ensinamento, afirmou ele, "ainda hoje constitui a estrela-guia do caminho da Igreja".

"Sentimo-nos chamados a não extinguir a profecia e a continuar a procurar meios e formas de implementar as intuições. Será importante conhecê-lo novamente de perto, e fazê-lo não por meio de boatos ou interpretações que foram dadas, mas relendo os seus Documentos e refletindo sobre o seu conteúdo", comentou o Papa sobre este marco eclesial, cujo 60º aniversário de encerramento foi comemorado em 2025.

"O Concílio Vaticano II redescobriu a face de Deus como Pai", observou ele, "olhou para a Igreja à luz de Cristo" e "iniciou uma importante reforma litúrgica, colocando no centro o mistério da salvação e a participação ativa e consciente de todo o Povo de Deus", enquanto, ao mesmo tempo, acrescentou, "nos ajudou a nos abrirmos ao mundo e a abraçarmos as mudanças e os desafios da era moderna em diálogo e corresponsabilidade, como uma Igreja que deseja abrir os braços para a humanidade, ecoar as esperanças e as angústias dos povos e colaborar na construção de uma sociedade mais justa e fraterna".

Citando Paulo VI, o Papa Prevost indicou que, graças ao Concílio Vaticano II, a Igreja se comprometeu "a buscar a verdade pelo caminho do ecumenismo, do diálogo inter-religioso e do diálogo com pessoas de boa vontade", e que "esse espírito, essa atitude interior, deve caracterizar nossa vida espiritual e a ação pastoral da Igreja, porque ainda temos que realizar a reforma eclesial de forma mais plena, em uma chave ministerial, e, diante dos desafios atuais, somos chamados a continuar sendo intérpretes atentos dos sinais dos tempos, proclamadores alegres do Evangelho, testemunhas corajosas da justiça e da paz".

"Redescobrindo o Concílio"

Nesse sentido, Leão XIV nos convidou a "redescobrir o Concílio" porque, citando o falecido Papa Francisco, "ele nos ajuda a 'devolver a primazia a Deus, ao que é essencial, a uma Igreja que é louca de amor por seu Senhor e por todos os homens que Ele ama'".

Finalmente, citando novamente o Papa Montini (houve também alusões a João XXIII, João Paulo II, Bento XVI e até mesmo Albino Luciani, antes de se tornar o Papa João Paulo I), ele recordou o que disse aos Padres Conciliares no final daquelas sessões, e que "permanece para nós, hoje, um princípio orientador ; ele afirmou que havia chegado a hora de partir, de deixar a assembleia conciliar para ir ao encontro da humanidade e levar-lhe a boa nova do Evangelho, na consciência de ter vivido um tempo de graça em que passado, presente e futuro se condensaram".

Por fim, em sua saudação aos milhares de peregrinos presentes na Sala Paulo VI, Leão XIV exortou que "olhássemos para o futuro com um apelo urgente por mais justiça, amor e paz".

Eis o texto.

Catequese. O Concílio Vaticano II através dos seus Documentos. Catequese introdutória

Irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!

Após o Ano jubilar, durante o qual pudemos meditar sobre os mistérios da vida de Jesus, iniciamos um novo ciclo de catequeses que será dedicado ao Concílio Vaticano II e à releitura dos seus Documentos. Trata-se de uma ocasião preciosa para redescobrir a beleza e a importância deste evento eclesial. São João Paulo II, no final do Jubileu do Ano 2000, afirmava assim: «Sinto ainda mais intensamente o dever de indicar o Concílio como a grande graça de que beneficiou a Igreja no século XX» (Carta apostólica Novo millennio ineunte, 57).

Com o aniversário do Concílio de Niceia, em 2025 pudemos recordar os 60 anos do Concílio Vaticano II. Embora o tempo que nos separa daquele evento não seja tão longo, é igualmente verdade que a geração de Bispos, teólogos e crentes do Vaticano II já não existe. Portanto, enquanto sentimos o apelo a não anular a sua profecia e a continuar a procurar formas e meios para pôr em prática as suas intuições, será importante conhecê-lo novamente de perto, e fazê-lo não através do “ouvir dizer”, nem das interpretações que lhe foram dadas, mas relendo os seus Documentos e refletindo sobre o seu conteúdo. Com efeito, trata-se do Magistério que ainda hoje constitui a estrela polar do caminho da Igreja. Como ensinava Bento XVI, «com o passar dos anos, os Documentos conciliares não perderam atualidade; os seus ensinamentos revelam-se particularmente pertinentes em relação às novas instâncias da Igreja e da atual sociedade globalizada» (Primeira mensagem no final da Missa com os Cardeais eleitores, 20 de abril de 2005).

Quando o Papa São João XXIII inaugurou a assembleia conciliar, em 11 de outubro de 1962, falou dele como da aurora de um dia de luz para toda a Igreja. O trabalho dos numerosos Padres convocados, provenientes das Igrejas de todos os continentes, abriu efetivamente o caminho para uma nova era eclesial. Depois de uma rica reflexão bíblica, teológica e litúrgica, que atravessou o século XX, o Concílio Vaticano II redescobriu o rosto de Deus como Pai que, em Cristo, nos chama a ser seus filhos; olhou para a Igreja à luz de Cristo, luz das nações, como mistério de comunhão e sacramento de unidade entre Deus e o seu povo; iniciou uma importante reforma litúrgica, colocando no centro o mistério da salvação e a participação ativa e consciente de todo o Povo de Deus. Ao mesmo tempo, ajudou-nos a abrir-nos ao mundo e a enfrentar as mudanças e os desafios da época moderna no diálogo e na corresponsabilidade, como uma Igreja que deseja abrir os braços à humanidade, fazendo ressoar as esperanças e as angústias dos povos e colaborando na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

Graças ao Concílio Vaticano II, «a Igreja torna-se palavra; a Igreja faz-se mensagem; a Igreja torna-se diálogo» (São Paulo VI, Carta enc. Ecclesiam suam, 67), comprometendo-se a procurar a verdade através do caminho do ecumenismo, do diálogo inter-religioso e do diálogo com as pessoas de boa vontade.

Este espírito, esta atitude interior, deve caracterizar a nossa vida espiritual e a ação pastoral da Igreja, porque ainda devemos realizar mais plenamente a reforma eclesial em chave ministerial e, diante dos desafios atuais, somos chamados a permanecer atentos intérpretes dos sinais dos tempos, alegres anunciadores do Evangelho, corajosas testemunhas de justiça e paz. D. Albino Luciani, futuro Papa João Paulo I, então Bispo de Vittorio Veneto, no início do Concílio escreveu profeticamente: «Existe, como sempre, a necessidade de realizar não tanto organismos ou métodos e estruturas, mas uma santidade mais profunda e vasta. [...] Pode ser que os frutos ótimos e abundantes de um Concílio se vejam após séculos e amadureçam superando com dificuldade contrastes e situações adversas». [1] Assim, redescobrir o Concílio como afirmou o Papa Francisco, ajuda-nos a «devolver a primazia a Deus, a uma Igreja que seja louca de amor pelo seu Senhor e por todos os homens, por Ele amados» (Homilia no 60º aniversário do início do Concílio Vaticano II, 11 de outubro de 2022).

Irmãos e irmãs, o que São Paulo VI disse aos Padres conciliares no final dos trabalhos continua a ser também para nós, hoje, um critério de orientação; ele afirmou que tinha chegado a hora da partida, de deixar a assembleia conciliar para ir ao encontro da humanidade, levando-lhe a boa nova do Evangelho, na consciência de ter vivido um tempo de graça em que se condensavam passado, presente e futuro: «O passado, porque aqui está congregada a Igreja de Cristo, com a sua tradição, a sua história, os seus Concílios, os seus Doutores, os seus Santos. [...] O presente, porque nos despedimos para ir ao encontro do mundo de hoje, com as suas misérias, as suas dores, os seus pecados, mas também com as suas conquistas prodigiosas, os seus valores, as suas virtudes. [...] Depois, o futuro está lá, no apelo imperioso dos povos por uma maior justiça, na sua vontade de paz, na sua sede consciente ou inconsciente de uma vida mais elevada: precisamente aquela que a Igreja de Cristo pode e quer oferecer-lhes» (São Paulo VI, Mensagem aos Padres conciliares, 8 de dezembro de 1965).

Também para nós é assim. Aproximando-nos dos Documentos do Concílio Vaticano II e redescobrindo a sua profecia e atualidade, acolhamos a rica tradição da vida da Igreja e, ao mesmo tempo, interroguemo-nos sobre o presente e renovemos a alegria de correr ao encontro do mundo, para lhe levar o Evangelho do reino de Deus, reino de amor, justiça e paz.

Nota:

[1] A. Luciani – Giovanni Paolo I, Note sul Concilio, em Opera omnia, vol. II, Vittorio Veneto 1959-1962. Discorsi, scritti, articoli, Padova 1988, 451-453.

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Saudações

Dirijo uma saudação cordial a todos os peregrinos de língua portuguesa, especialmente aos provedores das Santas Casas de Misericórdia da Diocese de Bragança-Miranda, em Portugal. Queridos irmãos e irmãs, rezemos ao Senhor para que os frutos espirituais do Jubileu recentemente concluído sustentem o testemunho dos cristãos, chamados a ser promotores da justiça e da paz na santidade. Deus vos abençoe!

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Resumo da catequese do Santo Padre

Iniciamos hoje um novo ciclo de catequeses dedicado ao Concílio Vaticano II, que completou 60 anos no ano passado. Verdadeira aurora para a Igreja, foi ali que os aprofundamentos teológicos do século anterior retomaram uma visão profunda da fé, mais aberta ao diálogo com Deus, os irmãos e o mundo. Por isso, sem silenciar o Espírito que guiou o Concílio, somos convidados a conhecer melhor os seus documentos. Atentos à tradição, agindo sobre o presente e olhando ao futuro, os textos propõem uma Igreja que é reflexo de Cristo, a verdadeira Luz dos povos, e convocam todos à participação e corresponsabilidade. São os traços que definem a espiritualidade pastoral dos cristãos: intérpretes dos sinais dos tempos, anunciam o Evangelho como mensageiros de esperança e reconciliação.

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