O silêncio de Moscou após a captura de Maduro

Nicolás Maduro e Vladimir Putin | Foto: Пресс-служба Президента Российской Федерации/Wikimedia Commons

Mais Lidos

  • O Papa descreve o Concílio Vaticano II como a "estrela polar do caminho da Igreja" e apela ao progresso na "reforma eclesial"

    LER MAIS
  • “A memória sem cérebro desafia a associação quase automática entre memória e sistema nervoso central”, exemplifica o pesquisador

    Os mistérios mais atraentes da neurobiologia vegetal são os que questionam as categorias do pensamento moderno. Entrevista especial com Guilherme Soares

    LER MAIS
  • No capitalismo mafioso Nicolás Maduro veste Nike. Artigo de Ivana Bentes

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

08 Janeiro 2026

Não faz muito tempo, a Rússia enviou bombardeiros à Venezuela para apoiar Maduro. Agora, está sem reação diante da captura do contestado líder pelos EUA. O que o ataque significa para a guerra na Ucrânia?

A reportagem é de Roman GoncharenkoDaria Nynko, publicada por DW, 07-01-2026.

Nicolas Maduro elogiou Vladimir Putin em maio de 2025, durante sua visita a Moscou no Dia da Vitória – data que celebra a vitória soviética sobre a Alemanha Nazista na Segunda Guerra Mundial. O líder venezuelano descreveu a Rússia como "uma potência fundamental da humanidade" e os dois chefes de Estado assinaram um acordo de cooperação. Poucos meses depois, a Rússia assistiu impassível aos EUA levarem Maduro e sua esposa à força para Nova York para serem julgados por envolvimento com o narcotráfico.

Defesas aéreas russas foram incapazes de proteger Maduro

O governo russo, por meio do Ministério das Relações Exteriores, expressou preocupação e pediu a libertação de Maduro e negociações entre os EUA e a Venezuela. Mas Putin permanece em silêncio desde a invasão, ocorrida em 3 de janeiro.

A relação entre os dois líderes é relativamente próxima. De acordo com relatos oficiais, após um telefonema no início de dezembro, Maduro recebeu um cartão de Ano Novo do presidente russo.

Maduro foi um dos poucos chefes de Estado que apoiaram a Rússia em fevereiro de 2022, quando Moscou declarou as regiões de Donetsk e Lugansk como repúblicas autoproclamadas, dias antes de iniciar o grande ataque à Ucrânia.

Em dezembro de 2018, a Rússia enviou dois bombardeiros estratégicos Tu-160 à Venezuela para exercícios, o que especialistas interpretaram como um sinal de apoio a Maduro. Eles pousaram no aeroporto de Caracas. As defesas aéreas russas, porém, não foram capazes de proteger Maduro. Como isso pôde acontecer?

Por que Putin está mantendo silêncio sobre Trump?

"O apoio russo à Venezuela foi mais simbólico do que prático", definiu Neil Melvin, especialista do think tank inglês Royal United Services Institute (Rusi), à DW. Para ele, a Rússia não está em condições de questionar a intervenção das forças armadas americanas na região vizinha.

A postura de Putin tampouco surpreendeu o cientista político alemão e autor de um livro sobre a política externa russa Felix Riefer. Depois que o retorno de Donald Trump à Casa Branca levou a uma aproximação entre Moscou e Washington, a Rússia reagiu às "insinuações americanas em relação à Venezuela com relativa cautela", disse Riefer. "Na verdade, a Rússia já havia abandonado Maduro antes disso."

Uma das razões seria a guerra contra a Ucrânia e a mudança dos EUA de parceiro ocidental de Kiev para mediador, avaliam os dois especialistas. A Rússia evita críticas severas a Washington porque não quer "afastá-lo", diz Melvin. Ele destaca que, sem a guerra contra a Ucrânia, a retórica de Moscou sobre os eventos na Venezuela provavelmente seria "significativamente mais severa".

O especialista britânico não vê consequências imediatas da invasão a Caracas para a guerra na Ucrânia. Isso pode mudar se Trump for além e tentar, por exemplo, "incorporar" a Groenlândia, que pertence à Dinamarca – algo que o presidente dos EUA voltou a defender.

Melvin acredita que a Otan provavelmente não sobreviveria a uma tentativa de anexação da ilha ártica pelos EUA – em sintonia com o que disse a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen.

Otimismo cauteloso na Ucrânia

Autoridades em Kiev estão atentas aos eventos na Venezuela, com cautela. "Se ditadores podem ser tratados dessa forma, então os Estados Unidos sabem o que fazer a seguir", afirmou o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski. O Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia reiterou que não reconhece Maduro como presidente.

Analistas de mercado esperam que as relações entre os EUA e a Venezuela se normalizem num futuro próximo, o que abrirá o país sul-americano para a produção de petróleo, com impacto significativo na economia global e nos preços do petróleo, observa o cientista político Petro Oleshchuk, da Universidade Nacional de Kiev.

"Qualquer coisa que reduza os preços do petróleo é benéfica para a Ucrânia e pode ter um impacto positivo nas negociações. Quanto mais barato for o petróleo, menos dinheiro a Rússia terá a sua disposição, tornando cada vez menos crível a ideia de que a Rússia está preparada para uma guerra sem fim", disse Oleschtschuk.

Alguns meios de comunicação sugeriram que os EUA poderiam enfraquecer seu papel como parceiro democrático nas negociações ao prender Maduro. No entanto, os especialistas entrevistados pela DW mostram-se céticos. De acordo com Oleschtschuk, a intervenção militar dos EUA está em consonância com a doutrina dos EUA de que o Hemisfério Ocidental é uma esfera de interesse.

Para o especialista, é impossível traçar paralelos entre a prisão de Maduro e a agressão da Rússia contra a Ucrânia. "No caso da Venezuela, os EUA não estão anexando território e não estão alegando que a Venezuela é um Estado fictício."

Especialistas duvidam da estabilidade da posição da Rússia

O cientista político Felix Riefer tem a mesma opinião. A Rússia poderia tentar usar o caso da Venezuela para justificar sua agressão contra a Ucrânia. Mas, embora isso seja possível, "uma comparação direta é falha", disse ele.

Riefer está convencido de que a reputação de Moscou no mundo foi enfraquecida. "Aqueles que confiam na Rússia não podem esperar ser protegidos."

"A Rússia perdeu a Armênia, a Síria e agora a Venezuela", destaca Neil Melvin. "A posição internacional da Rússia está enfraquecendo visivelmente à medida que intensifica sua guerra contra a Ucrânia e não tem mais recursos para manter tais relações."

Mesmo no caso de Cuba, o parceiro mais importante da Rússia na América Latina e um dos aliados mais próximos da Venezuela, os protestos de Moscou podem ser mais contundentes, mas as opções da Rússia são "muito limitadas", diz o especialista. Cuba está entre os países recentemente ameaçados por Trump.

Leia mais