Por que chegamos à perigosa situação atual? Artigo de Leonardo Boff

Derretimento da geleira Thwaites, do juízo final, coloca mundo em alerta pelo aquecimento global / Foto: Anna Wåhlin/University of Gothenburg

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

22 Novembro 2024

"Só o fato de 1% possuir a riqueza de mais da metade da humanidade demonstra quão perverso, profundamente desigual e injusto é o cenário social mundial. Acresce ainda a emergência ecológica com a insustentabilidade do planeta Terra, velho e com recursos limitados que, em si, não suporta um projeto de crescimento ilimitado, obsessão das políticas sociais dos países. Esse processo extenuou, pela superexploração, os biomas terrestres e está pondo em risco as bases naturais que sustentam nossa vida e a vida da natureza (Earth Overshoot)", escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.

Eis o artigo.

É lugar comum afirmar que estamos no coração de uma grande crise de civilização. Ela não é regional, mas global. Na verdade, esta crise global encerra uma infinidade de outras crises, no econômico, no político, no ideológico, no educacional, no religioso e até no espiritual. Não sabemos o que nos espera. Temos mais e mais a consciência coletiva de que assim como o mundo está, não pode continuar. O caminho atual nos está levando à beira de um precipício. Temos que mudar. É atribuída a Einstein a frase: o pensamento que criou a crise atual não pode ser o mesmo que nos vai tirar dela. Temos que definir um novo caminho. Como construí-lo para que seja realmente outro tipo de mundo?

O fato irrecusável é que há demasiado caos destrutivo sem previsão de ser generativo. Há formas de desumanidade que ultrapassam tudo o que temos vivido e sofrido na história até o presente momento. Basta assistir ao genocídio que ocorre a céu aberto na Faixa de Gaza perpetrado por um Primeiro Ministro israelense, cruel e sem piedade, Benjamin Netanyahu, apoiado por um Presidente católico norte-americano e pela Comunidade Europeia que trai seus ideais históricos de direitos humanos, de liberdade e de democracia. Todos estes se fazem cúmplices do crime hediondo contra a humanidade. Vigora uma enorme onda de ódio, de desprezo da solidariedade, da ciência, da negação da verdade e do domínio da ignorância. Esse antifenômeno se dá mormente no Ocidente.

Só o fato de 1% possuir a riqueza de mais da metade da humanidade demonstra quão perverso, profundamente desigual e injusto é o cenário social mundial. Acresce ainda a emergência ecológica com a insustentabilidade do planeta Terra, velho e com recursos limitados que, em si, não suporta um projeto de crescimento ilimitado, obsessão das políticas sociais dos países. Esse processo extenuou, pela superexploração, os biomas terrestres e está pondo em risco as bases naturais que sustentam nossa vida e a vida da natureza (Earth Overshoot). A continuidade da aventura humana neste planeta não está assegurada. Bem escreveu o Papa Francisco em sua encíclica Fratelli tutti (2020): “Estamos todos no mesmo barco; ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. Tudo vem resumido pelo aquecimento global crescente, inaugurando, o que parece, uma nova fase mais aquecida e perigosa da história da Terra e da humanidade.

Por que chegamos à atual situação ameaçadora que pode pôr em risco o futuro da vida humana e da natureza?

Há várias leituras da situação crítica da atualidade. Não tenho a pretensão de ter uma resposta suficiente. Mas lanço uma hipótese, fruto de toda uma vida de estudo e reflexão. Estimo que nossa situação remonta lá atrás, há mais de dois milhões de anos, quando surgiu o homo habilis, o ser humano que inventou instrumentos de intervenção nos ciclos da natureza. Até aí sua relação era de interação, sintonizando-se com os ritmos naturais e tomando o que sua mão alcançava. Agora, com o homo habilis ou faber começa a intervenção na natureza: a caça de animais e a derrubada sistemática de árvores. Depois de milhares de anos, levou avante a intervenção até chegar há 10-12 mil anos, no neolítico, com a agressão da natureza. Interferiu no curso dos rios, inaugurando a agricultura de irrigação e o manejo de inteiras regiões que implicava mudanças nas relações com a natureza e já depredando-a. Por fim, a partir da era do industrialismo e do modo moderno e contemporâneo de produção pela técnica, pela automoção e pela inteligência artificial, desembocou na destruição da natureza. Projetamos uma nova era geológica, a do antropoceno, do necroceno e do piroceno, pela qual o ser humano comparece como o Satã da Terra. Transformou o jardim do Éden num matadouro, como denunciou o biólogo E. Wilson. Não se comportou como o anjo cuidador de seu habitat, a Mãe Terra.

Esse processo histórico-social ganhou sua justificação teórica pelos pais fundadores da modernidade com Galileo Galilei, Descartes, Newton, Francis Bacon e outros. Para eles, o ser humano é “mestre e dono” da natureza. Não se sente parte dela, mas está fora e acima dela. A Terra até então tida como Magna Mater que tudo nos dá, passou a ser considerada como uma coisa inerte (res extensa), sem propósito, no máximo, um baú de recursos entregues ao uso e a bel prazer do ser humano. O eixo orientador deste modo de ver o mundo é a vontade de poder, como dominação do outro, dos povos, de suas terras (colonização a partir da Europa), da classe trabalhadora, da natureza, da vida até o último gene, da matéria até o mínimo topquark. A serviço da dominação foi projetada a ciência, não apenas como conhecimento teórico de como as coisas funcionam, mas foi logo apropriada pela vontade de poder, convertendo-a numa operação técnica para a transformação da realidade. Com ela se moveu uma verdadeira guerra contra a Terra, sem chance de vencê-la, arrancando tudo dela em função do sonho de um crescimento ilimitado de bens materiais. Atacou-se a Terra no solo, no ar, nas águas, nas florestas em todos os níveis, tendo como consequência a devastação de praticamente os principais biomas, sem medir os efeitos colaterais. É o império da razão instrumental-analítica e tecnocrática. Não podemos deixar de apreciar os imensos benefícios que trouxe para a vida humana. Mas ao mesmo tempo criou o princípio de autodestruição com armas letais que podem liquidar toda a vida. A razão ficou irracional e enlouquecida.

Hoje chegamos ao ponto-limite de a Terra se mostrar gravemente enferma. Como é um Superorganismo vivo, reage mandando-nos eventos extremos: secas severas e nevascas rigorosas, uma vasta gama de vírus e bactérias, algumas letais, além de tufões, tornados, enchentes e terremotos. Não estamos indo ao encontro do aquecimento global. Estamos já dentro dele. A ciência chegou atrasada, apenas pode alertar para sua chegada e minorar seus efeitos danosos. Efetivamente esta mudança climática ameaça a biodiversidade e põe sob grave risco o futuro do sistema-vida.

Acresce um dado não desprezível. O despotismo da razão – o racionalismo – recalcou o que há de mais humano em nós: nossa capacidade de sentir, de amar, de cuidar, de viver a dimensão dos valores como a amizade, a empatia, a compaixão e capacidade de renúncia e de perdão, enfim, o mundo das excelências. Tudo isso era visto como empecilho ao olhar objetivo das ciências. Separamos mente e coração, a razão intelectual e a razão sensível. Tal ruptura ocasionou profunda distorção dos comportamentos, ocasionando insensibilidade face ao drama dos milhões e milhões de pobres e miseráveis e a falta de cuidado para com a natureza e seus bens e serviços.

Se quiséssemos resumir numa pequena fórmula a crise civilizacional, diria: ela perdeu a justa medida, valor, presente em todas as tradições éticas da humanidade. Tudo é desmedido, o assalto à natureza, o uso da violência nas relações pessoais e sociais, as guerras sem qualquer medida de contenção, o predomínio desmedido da competição ao preço da cooperação, o consumo desmedido ao lado da fome canina de milhões, sem qualquer senso de solidariedade e de humanidade.

A seguir este projeto de civilização, calcado sobre o poder-dominação, hoje mundializado, iremos fatalmente ao encontro de uma tragédia ecológico-social a ponto de fazer o planeta Terra inabitável para nós e para os organismos vivos. Seria o nosso fim depois de milhões de anos sobre esse belo e ridente planeta. Não soubemos cuidá-lo para ser a Casa Comum de todos os humanos, a natureza incluída.

Mas como o processo cosmogênico e terrenal não é linear, capaz de dar saltos para cima e para frente, pode ocorrer o inesperado, tornando-o provável através de um grande impacto. Isso transformaria a consciência coletiva da humanidade. Como disse o poeta alemão Hölderlin (+1843): “Ai onde mora o perigo, cresce também o que o salva”. Esse salvamento significaria a mudança necessária de paradigma e assim garantindo o nosso futuro. Isso representaria a utopia possível e viável para a atual situação da Terra e da humanidade.

Leia mais