Comunidades, movimentos, prelazia: tempo de verificações. Artigo de Lorenzo Prezzi

Foto: Karl Raymund Catabas | Unsplash

05 Agosto 2022

 

"O exercício do governo dos bispos e dos dicastérios romanos é um importante sinal de responsabilidade, orientação e apoio para garantir o caminho do Povo de Deus e dar futuro às forças mais confiáveis e corajosas no testemunho do Evangelho hoje", escreve Lorenzo Prezzi, teólogo italiano e padre dehoniano, em artigo publicado por Settimana News, 03-08-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Nos últimos meses, mais de uma dezena de intervenções foram lançadas por bispos ou dicastérios romanos para corrigir, realimentar ou censurar várias novas fundações comunitárias, movimentos eclesiais e a Prelazia Opus Dei. Um sinal importante a ser visto não tanto pelo lado disciplinar, mas sim pela verificação, após 60 anos, de um dos frutos importantes do Vaticano II.

 

Carisma, governança, abusos e censura

 

O fenômeno das novas fundações e movimentos eclesiais foi particularmente ativo e luxuriante no imediato pós-conciliar, mas sua recepção no conjunto do povo de Deus sofre os normais ajustes de percursos cheios de novidades, mas também expostos a erros ou incertezas. É indicativo que nas centenas de novas famílias eclesiais há cerca de quinze fundadores em exame e cerca de 80 institutos "sob intervenção". As intervenções magistrais podem ser analisadas segundo quatro direções: carisma, governança, abusos e censuras teológico-litúrgicas.

 

Cada fundadora ou fundadora tem sua própria e original compreensão do Evangelho ou de uma parte dele. E é esta raiz evangélica e espiritual que dá forma institucional e estilo de vida a uma fundação. Justamente por ser um patrimônio espiritual, não tem a rigidez de uma definição jurídica e é confiada à implementação e renovação das gerações posteriores àquelas do fundador. Há também um critério essencial para o reconhecimento de um carisma: "a capacidade de uma comunidade, de um instituto de se integrar na vida do povo santo de Deus para o bem de todos" (Francisco, 11 de dezembro de 2021).

 

Do lado do governança, pode-se citar a carta apostólica de 1º de novembro de 2021 (Authenticum charismatis) que exige que os bispos consultem o ministério dos religiosos por escrito antes de uma nova fundação religiosa. Um passo semelhante foi realizado pelo dicastério dos leigos para o reconhecimento diocesano das associações laicais.

 

De particular importância o decreto geral que o dicastério para os leigos publicou em 11 de junho de 2021. Prevê uma disciplina comum quanto à escolha do moderador ou presidente e de seu conselho: a escolha requer a participação direta ou indireta de cada membro; o mandato é de cinco anos (renovável uma única vez); o fundador pode permanecer por mais tempo, mas com a permissão do dicastério.

 

A questão dos abusos é uma ferida que atravessa as novas realidades eclesiais e que afeta toda a Igreja. Não nos limitamos à denúncia dos abusos sexuais, mas ao conjunto de atos indevidos relativos ao poder interno e à influência sobre as consciências. As intervenções que visam posições teologicamente incorretas ou liturgicamente não toleráveis são mais raras.

 

Comunhão e libertação

 

Após a intervenção nos Memores Domini, a renúncia do presidente Julian Carrón, a nomeação pontifícia de um interino (Davide Prosperi), o prefeito do departamento de leigos, card. Kevin Farrel escreveu uma severa carta ao movimento (10 de junho de 2022) para facilitar a transição de um "sistema hereditário" do carisma para um modelo "colegiado ou sinodal" do mesmo. Parecem ser três os pontos em discussão: uma concepção do carisma como propriedade do grupo originário e dos colaboradores mais próximos do fundador (L. Giussani); a exposição política e civil que produziu uma série de graves escândalos nas décadas passadas (Formigoni, principalmente); o perigo de que a nova gestão seja deslegitimada a priori (escrevemos mais extensamente em SettimanaNews).

 

Opus Dei

 

A intervenção na Opus Dei (motu proprio 22 de julho) é justificada pela harmonização com a constituição apostólica que regula a cúria romana (Praedicate Evangelium, 19 de março de 2022), mas toca em alguns pontos relevantes da constituição apostólica Ut sit com a qual João Paulo II erigiu a prelazia (1982). Em especial: a estrutura hierárquica, a qualidade episcopal do prelado e os estatutos consequentes.

 

O motu proprio deixa claro que a prelazia não pertence à estrutura hierárquica da Igreja e não tem um povo próprio. É uma estrutura clerical, semelhante às congregações e ordens masculinas, e não pode ser equiparada a uma diocese. Sua autoridade é exercida sobre os cerca de 2.000 padres que fazem parte dela, mas apenas no sentido pactício com os 90.000 leigos e leigas que a ela se reportam. Consequentemente, nenhum leigo pode ser retirado da autoridade de seu próprio bispo diocesano.

 

Quanto ao prelado que supervisiona a prelazia, não será mais um bispo. O atual prelado, Fernando Ocariz Brana, argumentava em 1991: a natureza teológica da jurisdição do prelado "só pode ser uma jurisdição de natureza episcopal: de fato não há outra possibilidade teológica", mas logo após o motu proprio disse: "A ordenação episcopal do prelado não era e não é necessária para a liderança da Opus Dei". Consequentemente, os estatutos internos serão alterados.

 

Como G. Rocca escreveu nestas páginas: "Os leigos não são mais incorporados à prelazia, mas têm uma relação pactícia que deve ser regulamentada nos estatutos a serem revistos pela Opus Dei, que deverá submetê-los à autoridade competente para a aprovação" (o dicastério do clero). Para aprofundar cf. o artigo de Rocca em SettimanaNews.

 

Schönstatt

 

No dia 3 de maio, o bispo de Trier (Alemanha), Stephan Ackermann, suspendeu o processo diocesano de canonização do fundador do movimento de Schönstatt (Das Werk), pe. Joseph Kentenich, no aguardo que as acusações contra ele de abusos de freiras sejam totalmente esclarecidas. Não é um juízo final, muito menos um juízo sobre a obra, mas uma decisão prudencial após recente pesquisa histórica sobre o fundador. A obra de Schönstatt é uma confederação de uma dúzia de distintas comunidades e associações (padres, leigos, famílias). Tem 140.000 membros e está difundida em 42 países ao redor do mundo.

 

Verbe de Vie

 

Em 25 de junho, o card. Jozef De Kesel de Bruxelas ordenou o fechamento da comunidade Verbe de Vie (Palavras de vida), estendida ao âmbito francófono. A centena de participantes encontrará soluções individuais até 1º de julho de 2023. A dramática decisão se deve a graves disfunções internas que incluem abusos espirituais, espiritualizações excessivas, falta de realismo, abusos de poder, até traição do segredo da confissão. Em geral, notou-se que não houve distinção entre foro interno (consciência pessoal) e foro externo (comportamentos). “Todas as tentativas feitas para esclarecer o carisma, construir uma regra de vida estável, garantir um governo crível e garantir respeito e confiança a cada um, falharam” (De Kesel).

 

Fundada em 1986, a comunidade que inclui religiosos/as, famílias e padres viu a saída de 230 pessoas nas últimas décadas. Atualmente existem cerca de quarenta membros residenciais, 27 irmãs, 8 irmãos, além daqueles que vivem suspensões mais ou menos longas. Liderada por muito tempo por um casal polêmico, Marie-Josette e George Bonneval (que mais tarde se mudaram para o Brasil), tinha um sistema de governo centralizado, confuso e absoluto. Uma primeira visita canônica em 2003 já havia dado as indicações a seguir. Sem resultado. Uma segunda, solicitada em 2011, revelou-se inconsistente devido à falta de convicção do então arcebispo de Bruxelas, Mons. Leonardo. Por fim, o atual (2022), deu as indicações de fechamento.

 

O bispo F. Touvet, administrador apostólico nestes últimos meses de encerramento, reconhece “que a Igreja não foi suficientemente vigilante. Por um lado, registra-se uma ausência da instituição eclesial e, por outro, uma debilidade de governo na comunidade, incapaz de acolher as palavras de sofrimento generalizado e de interpretar as numerosas saídas. A soma das duas fragilidades deu fôlego ao sistema”. “Certamente houve pessoas convertidas ao Evangelho, que encontraram Jesus, que descobriram o louvor, a adoração e o sentido da missão. Tudo isso é formidável e devemos agradecer o empenho dos membros do Verbe de Vie pelo testemunho, o ardor e a capacidade de divulgação. Mas infelizmente também havia frutos menos bons”.

 

Eucharistein

 

Fundada na Suíça em 1996, propõe aos seus membros uma vida comunitária baseada na adoração eucarística e no acolhimento aos jovens em dificuldade. Hoje tem cerca de quarenta membros. Após uma visita canônica em 2021, foram levantadas questões sobre o sistema de governo ("piramidal, abusivo, infantilizante") que respeita pouco as pessoas e seu equilíbrio psíquico. Oito dos membros estão atualmente sob cuidados psicológicos.

 

Também neste caso lastima-se uma certa distração do bispo de referência Mons. Rei de Frejus-Toulon. O próximo ano será dedicado à revisão do governo e do sistema de vida. O noviciado será fechado. Mas uma possível retomada é esperada no próximo ano. "Graças à visita canónica, temos agora um diagnóstico preciso do nosso estado de saúde", destaca o atual moderador C. Jacquot.

 

Totus tuus

 

O bispo de Münster, D. Felix Genn, em novembro passado, fechou a associação laical "Totus tuus", ativa desde 2004, que conta com 135 membros na Alemanha e que se responsabiliza pelas peregrinações a Medjugorje, cursos para crisma e encontros de oração para jovens. Os dirigentes da associação se dirigiram a Roma e em 13 de julho o dicastério para os leigos confirmou a dissolução da associação.

 

As razões para a providência são os abusos espirituais em vários membros que a direção não foi capaz de reconhecer. A centralização do governo gerou desconfiança diante de qualquer crítica interna e não favoreceu o amadurecimento humano e espiritual. Neste caso não se registram comportamentos de caráter criminoso, mas formas de violação das consciências que hoje não são mais toleráveis na comunidade eclesial. A revogação do reconhecimento eclesial tem também o objetivo de prevenir maiores danos para o futuro.

 

Fraternidade de Jerusalém e Irmãs Apostólicas de São João

 

Os dois institutos estão empenhados em uma corajosa renovação, mas ambos sentem as repercussões do sofrido reconhecimento de abusos por parte de seus respectivos fundadores, Pierre-Marie Delfieux (Fraternidade de Jerusalém) e Marie-Dominique Philippe (Irmãs Apostólicas).

 

A Fraternidade, composta hoje por cerca de cinquenta irmãos e duzentas religiosas, é instada pelos que saíram e pelas vítimas a fazer reformas mais corajosas e claras. Não gostaram de uma carta do prior geral, J.-C. Calmon que, embora reconhecendo o sofrimento, a injustiça e a responsabilidade coletiva, não chega às conclusões esperadas nas reformas internas. O dicastério dos religiosos, desde maio passado, tomou providência para colocar ao lado do prior e da prioresa (R. Bulzaga) dois assistentes apostólicos para acompanhar o processo de discernimento e de reforma.

 

Do lado das Irmãs Apostólicas de São João (cerca de 200), uma das quatro fundações que se reportam ao fundador, percebe-se a urgente necessidade de revisitar o carisma, as constituições internas e o governo. "É um período muito difícil - admite a responsável pela formação, Irmã Domenica - mas há recursos e as irmãs estão impacientes para trabalhar com aqueles que serão nomeados por Roma para construir um relatório final de acordo com o pedido do capítulo general".

 

Mission Thérésienne

 

O bispo de Bayeux-Lisieux, Mons. J. Habert, decretou a extinção da associação “Mission Thérésienne” que desde 1975 organizava uma oração especial pelas vocações. Sua rede se expandiu da França para a Bélgica, Itália e Polônia. A decisão sobre o fechamento é de 30 de maio passado. "Existem disfunções importantes na vida da associação", disse o bispo. Fala-se de problemas de governança e orientação pastoral. Não se registram abusos sexuais, mas sim a escassa distinção entre fórum interno e externo. Trabalha-se para a renovação e relançamento da associação.

 

Os casos italianos

 

O que foi registrado refere-se principalmente aos contextos territoriais de língua francesa e alemã. Mas a tendência à revisão das novas formas de consagração da vida é muito mais difundida. O caso mais conhecido na Itália (além de Comunhão e Libertação, já discutido) é a comunidade monástica de Bose. O decreto do Vaticano que afastou três irmãos e uma irmã da comunidade, entre os quais o fundador Enzo Bianchi, causou um enorme alvoroço.

 

Mas também há casos de supressão dos Discípulos da Anunciação (Prato), do Movimento Apostólico (Catanzaro), da associação Fraternidade de Nazaré (Ragusa), da associação Innamorati di Gesù (Cesena), da fraternidade sacerdotal Familia Christi (Ferrara) etc.

 

O exercício do governo dos bispos e dos dicastérios romanos é um importante sinal de responsabilidade, orientação e apoio para garantir o caminho do Povo de Deus e dar futuro às forças mais confiáveis e corajosas no testemunho do Evangelho hoje.

 

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