Guerra e paz: a confusão no ocidente anticristão

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23 Junho 2022

 

"As religiões, tanto cristãs quanto as mais difundidas no Oriente e na África, não parecem ser caminhos de paz, pelo contrário, guerras sangrentas são justificadas em seu nome. Não é preciso ir muito longe no tempo para lembrar como o cristianismo tenha se manchado de crimes sangrentos: a conquista das Américas no século XVI, a Guerra dos Trinta Anos do século XVII até as recentes guerras dos Balcãs e do Golfo. Tampouco essas responsabilidades podem ser diluídas invocando a instrumentalização da religião pela política para se distanciar das agressões atrozes das guerras. Só recentemente o Papa Francisco, superando inclusive algumas distinções presentes na moral católica sobre a justificação da violência, afirmou claramente que a guerra é uma loucura, as armas nunca trazem a paz", escreve Maurizio Portaluri, em artigo publicado por Quotidiano di Puglia, 22-06-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Os momentos de crise individual ou coletiva às vezes trazem contradições adormecidas. A guerra na Ucrânia o fez em vários setores, inclusive naquele das religiões. Nos últimos anos, as religiões adquiriram uma nova e imprevisível importância no espaço público, ainda que de forma variegada e contraditória. Assim desaparece o paradigma da secularização, segundo o qual as religiões desapareceriam com o avanço do crescimento econômico e da globalização.

 

É verdade que os templos estão semivazios, as vocações em crise, a ética e a teologia personalizadas, mas há uma forte demanda de espiritualidade, a irrupção do islamismo político e dos fundamentalismos não só islâmicos, a ação social das comunidades de fé subsidiárias ou que substitui o Estado em muitas áreas de bem-estar.

 

A guerra na Ucrânia destacou as contraposições entre cristãos católicos e ortodoxos e entre as igrejas ortodoxas. O Patriarca de Moscou Kirill justificou a invasão russa com motivações religiosas. Em seu sermão de domingo, 6 de março, ele disse que na Ucrânia a repressão e o extermínio de pessoas no Donbass já duram oito anos porque naquela região há uma rejeição fundamental dos chamados valores que hoje são oferecidos por aqueles que reivindicam o poder mundial. A guerra de Putin para ele é o último baluarte contra uma espécie de passagem para aquele mundo feliz, o mundo do consumo excessivo, o mundo da liberdade visível reconhecível pelas paradas do Orgulho Gay.

 

Donbass (Fofo: Goran_tek-en | Wikimedia Commons)

 

O Patriarca de Kiev protestou contra a decisão do Papa Francisco de fazer duas enfermeiras, uma ucraniana e outra russa, carregar a cruz em uma estação da Via Sacra na última Sexta-feira Santa, porque colocava no mesmo plano, segundo ele, dois povos, um agressor e outro agredido. Há poucos dias, o próprio Patriarcado de Kiev se separou da Igreja Ortodoxa Russa.

 

As religiões, tanto cristãs quanto as mais difundidas no Oriente e na África, não parecem ser caminhos de paz, pelo contrário, guerras sangrentas são justificadas em seu nome. Não é preciso ir muito longe no tempo para lembrar como o cristianismo tenha se manchado de crimes sangrentos: a conquista das Américas no século XVI, a Guerra dos Trinta Anos do século XVII até as recentes guerras dos Balcãs e do Golfo. Tampouco essas responsabilidades podem ser diluídas invocando a instrumentalização da religião pela política para se distanciar das agressões atrozes das guerras. Só recentemente o Papa Francisco, superando inclusive algumas distinções presentes na moral católica sobre a justificação da violência, afirmou claramente que a guerra é uma loucura, as armas nunca trazem a paz.

 

Ernesto Balducci dizia há trinta anos que o homem de hoje não busca a salvação da alma, mas a salvação total pela qual as religiões deveriam se empenhar a mobilizar todas as energias do espírito para que o homem inicie o novo capítulo de sua história, ou seja, aquele da paz, riscando da história a lei da força como instrumento do direito e da verdade, um novo capítulo para as religiões monoteístas. O novo tempo é a superação das religiões e do cristianismo como é hoje, que se concretizará não em uma conversão mundial ao cristianismo assim mudado, mas pela presença de comunidades de fé que sejam fermento de salvação para todos, mesmo para aqueles que não se convertem.

 

O Ocidente como inimigo das religiões é um argumento que une setores católicos italianos e ortodoxos russos em uma visão nostálgica de sociedade aderente, até a Revolução Francesa, até mesmo em suas leis à moral cristã hegemônica, inimiga da laicidade da política e da liberdade de consciência. Daí a aversão e a acusação de niilismo pelos comportamentos sexuais não conformes àquela moral e em particular àqueles homo ou transafetivos que, libertados da classificação da patologia psiquiátrica, são considerados legítimos em muitos países ocidentais e dignos de tutela legal.

 

Em outras palavras, a aversão ao Ocidente é uma ideologia na base da reivindicação de um poder de controle considerado perdido. Na verdade, os regimes de concordata e as assimetrias entre as várias confissões religiosas presentes na Itália (basta pensar no ensino da religião e nas várias capelanias hospitalares e militares), bem como a prementes ingerências políticas desmentem esta suposta marginalização das igrejas cristãs no Ocidente. Por outro lado, vige um complexo de inferioridade da política que não consegue trazer ordem à questão da liberdade religiosa e manter distintos os interesses das instituições religiosas daqueles da sociedade multicultural e multirreligiosa que vai se delineando.

 

Mas há um Ocidente que não agrada nem mesmo àqueles setores do cristianismo majoritariamente marginais nas mesmas igrejas de pertença e sem o poder dos precedentes. Em seu testamento espiritual, Arturo Paoli escreveu: 'nunca esqueçamos que nossa terra natal se professa cristão-católica, mas atualmente fazemos parte de um sistema político que é o mais antievangélico que se possa imaginar'.

 

Para eles, como recordava Michele Di Schiena em 2007 – são expressões do niilismo os proponentes daquela religião liberal que tem o lucro como seu deus, as leis do mercado e a competição como sua moral, como templos as sedes das bolsas de valores e os grandes bancos, como instrumentos de conversão a lábia das vendas e da guerra e como sacerdotes os tecnocratas das multinacionais e os operadores de alta finança. E não se deve dizer que a Igreja, ainda recentemente, condenou o capitalismo, junto com o comunismo, porque os defensores desse hiperniilismo, que acreditam apenas no que lhes interessa, nunca são claramente indicados com seu nome e seus grupos e são muitas vezes gratificados com amizade e apoio. 

 

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