Crescimento econômico da África Subsaariana e déficit social e ambiental. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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23 Junho 2022

 

"A África Subsaariana apresentou um crescimento do PIB um pouco acima do crescimento global, mas isto se deve ao alto crescimento demográfico. Na prática, a renda per capita está estagnada e não é capaz de reduzir a pobreza", escreve José Eustáquio Diniz Alves, demógrafo e pesquisador em meio ambiente, em artigo publicado por EcoDebate, 20-06-2022.

 

Eis o artigo. 

 

A África Subsaariana corresponde à parte do continente africano situada ao sul do deserto do Saara e engloba 48 países. É a região mais pobre do mundo e tem apresentado momentos de crescimento econômico maior e menor do que a média mundial.

 

 (Mapa: Reprodução)

 

O gráfico abaixo, com dados do FMI, mostra o crescimento anual do mundo e da África Subsaariana entre 1991 e 2021, com projeções até 2027. A média móvel trienal indica que o continente africano apresentou taxas mais elevadas que a média global de 2000 a 2014. Na média do período o mundo apresenta crescimento de 3,5% ao ano e a África Subsaariana de 4% ao ano.

 

 

O Produto Interno Bruto (PIB) da África Subsaariana representava cerca de 2,5% do PIB mundial na década de 1980, época que o PIB brasileiro representava quase 4% do PIB global. Portanto, a economia brasileira era bem maior do que todo o continente subsaariano. Mas nas décadas seguintes a economia brasileira cresceu menos do que o PIB mundial e passou a representar cerca de 2,5% do PIB mundial, enquanto a África Subsaariana passou para 3,3% do PIB global.

 

 

 

O gráfico abaixo, com dados da Divisão de População da ONU, mostra que, em 1950, a população da África Subsaariana era 179 milhões de habitantes e chegou a 1,2 bilhão de habitantes em 2022. Ou seja, aumentou em 1 bilhão de pessoas em 70 anos. A população deve continuar crescendo em ritmo acelerado e pode chegar a 4 bilhões de habitantes em 2100.

 

 

O PIB da África Subsaariana cresce mais do que o PIB mundial, mas a população também cresce bem mais do que a população global, em consequência a renda per capita cresce em ritmo lento. O gráfico abaixo, com dados do FMI, mostra que a renda per capita, em termos constantes em poder de paridade de compra (ppp), passou de cerca de US$ 3 mil na década de 1980 para cerca de US$ 4 mil na atual década. Isto significa um crescimento da renda per capita de somente 0,6% ao ano entre 1980 e 2027. No ritmo de crescimento do PIB per capita desse período a África Subsaariana gastaria 120 anos para dobrar de tamanho.

 

A renda per capita da África Subsaariana representa cerca de 20% da renda média global. Desta forma os indicadores sociais são mais precários, com alta proporção da população vivendo em situação de pobreza, insegurança alimentar e baixa expectativa de vida ao nascer.

 

 

 

Do ponto de vista ambiental a situação é preocupante para o continente africano, como mostra o gráfico abaixo da Global Footprint Network. Em 1961 havia um grande superávit ambiental, pois a Biocapacidade per capita era de 4,18 hectares globais (gha) e a Pegada Ecológica era de 1,45 gha. Mas o quadro muda nas décadas seguintes.

 

A Pegada Ecológica per capita ficou praticamente estabilizada e estava em 1,35 gha em 2018. Porém, a Biocapacidade per capita caiu para 1,15 gha. Portanto, o grande superávit ambiental se transformou em déficit ambiental.

 

 

 

Em síntese, a África Subsaariana apresentou um crescimento do PIB um pouco acima do crescimento global, mas isto se deve ao alto crescimento demográfico. Na prática, a renda per capita está estagnada e não é capaz de reduzir a pobreza. A perspectiva para as próximas décadas é sombria, pois o alto grau de degradação ambiental dificulta o aumento da qualidade de vida. O impacto da pandemia da covid-19 e as consequências inflacionárias da guerra da Ucrânia prejudicam muito todo o continente africano e aumentaram a fome na região.

 

A África Subsaariana terá grande quantidade de jovens ao longo do século XXI. Este fato poderia ser bom para a dinâmica econômica no continente. Mas se a renda per capita ficar estagnada o resultado poderá ser catastrófico, com uma “bolha de jovens” sem esperança. O aprofundamento da transição demográfica e da transição energética são condições necessárias para o avanço dos indicadores de desenvolvimento humano e ecológico.

 

Referências

 

ALVES, JED. O crescimento demoeconômico da África, degradação do solo e insegurança alimentar, Ecodebate, 17/07/2015

FMI. World Economic Outlook (WEO), War Sets Back the Global Recovery. International Monetary Fund, APR 2022

 

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