Bolsonarismo inventou “Amazônia paralela”, diz estudo

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24 Março 2022

 

Pesquisa detalha estratégia de grupos de extrema direita para defender o desmatamento gerando excesso de dados para confundir o público.

 

A reportagem é de Jaqueline Sordi, publicada por Observatório do Clima, 22-03-2022.

 

O processo de destruição da fauna e flora brasileiras durante o governo Bolsonaro não se dá apenas por meio do enfraquecimento de legislações e desmantelamento dos órgãos ambientais, mas também pela implementação de um discurso alternativo sobre a Amazônia, que vem sendo construído ao longo dos últimos anos por grupos de extrema direita.

Em um estudo publicado na última semana na revista Earth System Governance, uma dupla de pesquisadores do IASS (Instituto de Estudos Avançados em Sustentabilidade), na Alemanha, e da Unimes (Universidade Metropolitana de Santos) detalhou como grupos de apoiadores do atual governo vêm reproduzindo discursos que contestam e descreditam sistemas de monitoramento por satélite, com o utilizado pelo Inpe, que há décadas geram dados confiáveis sobre o avanço do desmatamento e outras mudanças no uso da terra, para impor uma “verdade alternativa” sobre o bioma, na qual o desmatamento seria um preço aceitável a pagar pelo desenvolvimento econômico.

“Ao chegarem ao poder, os grupos de extrema-direita se deram conta que para desmatar mais não adianta negar que há desmatamento. Perceberam que, além de desqualificar o que dizem boa parte dos cientistas, é preciso construir uma verdade segundo a qual ainda há muita árvore para ser derrubada. Aprenderam também que para sustentar essa verdade palavras não bastam e dados são imprescindíveis”, afirma o pesquisador Leandro Siqueira, um dos autores do estudo.

Os pesquisadores explicam que esses grupos trabalham não somente pela disputa do que seria falso e verdadeiro, dentro da lógica das fake news, mas sim por meio de uma lógica de “hipertransparência”, caracterizada pelo excesso de informação, que confunde ao invés de explicar. De acordo com Cecília Oliveira, principal autora da pesquisa, ações como o desmantelamento do Inpe, o corte de investimentos em pesquisa, auditoria sobre a veracidade dos dados sobre desmatamento, em especial após as fortes queimadas de 2019, a compra de satélite privado e controle estatal dos dados são iniciativas que, ao serem propagadas, vão produzindo um “outro processo de manifestação da verdade da floresta que legitima as subjetividades dos grupos envolvidos. É o discurso de uma Amazônia apta a ser explorada economicamente, adversa às regras de proteção ambiental”.

As conclusões da pesquisa são resultado de estudos que vêm sendo realizados pelos autores desde 2018 sobre o uso dos satélites e sobre a governança das políticas de mudanças climáticas. Eles realizaram um estudo genealógico da digitalização da floresta e cartografaram como esses processos estão sendo incorporados pelo Estado brasileiro desde o governo Lula (2003). Destacam que, com a abertura dos dados de satélite para uso da sociedade civil, quando Marina Silva foi ministra do Meio Ambiente, iniciou-se a formação de um regime de transparência ligado ao investimento no ativismo.

“Os grupos que participaram desse processo foram, em sua maioria, ONGs, movimentos sociais, think tanks de tecnologia, entre outros”, afirma Oliveira. Ao continuar esse estudo genealógico, os autores identificaram uma ruptura no processo após o início do governo Bolsonaro, com a emergência do regime de hipertransparência, “que insiste em um processo de auditoria constante e superprodução de informação por vias alternativas, composto por diferentes grupos econômicos e políticos”, diz o estudo. De acordo com Siqueira, enquanto os ativismos sempre agiram no sentido de ampliar o acesso às imagens de satélite e a participação de outros grupos (populações indígenas, ribeirinhos, quilombolas, seringueiros etc.) na governança da floresta, o governo investe em contra-ativismos: mais informação e menos escrutínio público.

“O estudo mostra que a articulação negativa do governo contra dados do desmatamento se faz no nível de um discurso agressivo que viola os preceitos tradicionais do argumento científico. A conclusão do estudo é que o negacionismo pode funcionar, uma vez que existe a ciência e também o discurso sobre a ciência. Esse discurso tem um peso tão grande quanto a ciência em si, pois é como a sociedade se relaciona com ela. E esse discurso não precisa ser baseado em fatos reais, mas sim em factoides. O Inpe, por exemplo, contribui há anos para o debate público, e o que o atual governo faz é contestar esses dados com base em um outro discurso sobre eles”, comenta o ex-diretor do Inpe Gilberto Câmara.

De acordo com Siqueira, o estudo serve como um alerta de que é urgente avançar no entendimento desse instrumento utilizado pelos grupos de extrema-direita e autoritários. “Percebemos que o negacionismo não se reduz à rejeição da realidade, ou de uma verdade científica, mas que o projeto desses grupos autoritários é mais amplo, buscando produzir uma nova verdade ou realidade. Neste sentido, fica mais do que claro como a ciência e a produção de conhecimento científico estão no alvo das disputas que vemos hoje e se acirrarão cada vez mais”, conclui.

O Observatório do Clima entrou em contato com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), mas não obteve retorno até o fechamento da matéria.

Para acessar o estudo, clique aqui.

 

 

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