Igrejas locais não acompanham a posição moderada do Vaticano sobre invasão russa da Ucrânia

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09 Março 2022

 

O presidente da Conferência dos Bispos da Polônia fez o que o Papa Francisco evita fazer: condenou publicamente a invasão da Ucrânia pela Rússia e cobrou do líder da Igreja Ortodoxa Russa para usar sua influência perante a Vladimir Putin e peça-lhe para encerrar a guerra e que os soldados russos recuem.

“O tempo acertará a conta desses crimes, incluindo as cortes internacionais”, alertou o arcebispo Stanislaw Gadecki, em uma carta ao Patriarca Kirill, datada de 02 de março. “No entanto, mesmo se alguém evitar a justiça humana, haverá um tribunal que não poderá ser evitado”.

 

A reportagem é de Nicole Winfield, publicada por National Catholic Reporter, 08-03-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

O tom de Gądecki, em comparação, contrastava fortemente com a neutralidade do Vaticano e de Francisco até hoje. A Santa Sé pediu paz, corredores humanitários, um cessar-fogo e um retorno às negociações, e até se ofereceu como mediadora. Mas Francisco ainda não condenou publicamente a Rússia pelo nome por sua invasão ou apelou publicamente a Kirill, e o Vaticano não fez comentários sobre o ataque russo à maior usina nuclear da Europa que provocou um incêndio na sexta-feira.

Para um papa que declarou imoral a mera posse de armas nucleares e advertiu contra o uso de energia atômica pela ameaça ambiental representada pelos vazamentos de radiação, o silêncio foi ainda mais notável.

O Vaticano tem uma tradição de diplomacia silenciosa, acreditando que pode facilitar melhor o diálogo se não tomar partido ou chamar publicamente os agressores. Há muito tempo usa esse argumento para defender o Papa Pio XII, o papa da época da Segunda Guerra Mundial criticado por alguns grupos judeus por não se manifestar o suficiente contra o Holocausto. O Vaticano diz que a diplomacia silenciosa ajudou a salvar vidas na época, e continuou essa tradição da Ostpolitik da Guerra Fria em sua diplomacia dos bastidores.

Francisco deu um passo sem precedentes na semana passada, quando foi à Embaixada da Rússia na Santa Sé para se encontrar com o embaixador. Mas a única coisa que o Vaticano disse sobre a reunião foi que Francisco foi “expressar sua preocupação com a guerra”. Ele também falou por telefone com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.

O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, deu um passo igualmente incomum nesta semana quando, em entrevista a quatro jornais italianos, ele realmente citou a Rússia ao dizer que a guerra havia sido “desencadeada pela Rússia contra a Ucrânia”.

No caso da Ucrânia, que conta com alguns milhões de católicos entre sua população majoritariamente ortodoxa, Francisco não tem vergonha de suas esperanças de melhorar as relações com a Igreja Ortodoxa Russa e seu influente líder, Kirill. Ainda em dezembro, quando os temores de uma invasão russa já eram tangíveis, Francisco expressou a esperança de um segundo encontro com Kirill após seu encontro histórico em 2016, o primeiro entre um papa e um patriarca russo em um milênio.

“Um encontro com o patriarca Kirill não está longe do horizonte”, disse Francisco a repórteres a caminho de casa da Grécia. “Estou sempre disponível, também estou disposto a ir a Moscou: para falar com um irmão, não há necessidade de protocolos. Um irmão é um irmão antes de todos os protocolos.”

O embaixador de Francisco na Rússia, o arcebispo Giovanni D'Agnello, se encontrou na quinta-feira com Kirill na residência do patriarca no Mosteiro Danilov em Moscou. O gabinete de Kirill disse que o patriarca lembrou a “nova página na história” aberta pela reunião de 2016, agradeceu a “posição moderada e sábia” da Santa Sé em resistir a ser arrastada para o conflito e insistiu que as igrejas só podem ser pacificadoras.

O Vaticano não relatou a reunião e seu porta-voz não respondeu quando solicitado a comentar.

Um dos principais conselheiros de comunicação de Francisco, o padre jesuíta Antonio Spadaro, no entanto, observou que Kirill está “enfrentando um grande desafio” de avaliar a crescente lista de padres ortodoxos, metropolitas e fiéis ucranianos comuns que estão implorando que ele levante sua voz contra Putin e mudar de posição. Em um ensaio publicado pela agência de notícias italiana Adnkronos, Spadaro não incluiu Francisco entre eles, embora tenha citado o papa dizendo recentemente que era “muito triste” que os cristãos estivessem fazendo guerra.

Esse tom moderado ecoou nesta semana quando o embaixador da Santa Sé nas Nações Unidas enfatizou a necessidade de corredores humanitários na Ucrânia para permitir a saída de refugiados e a entrada de ajuda humanitária. Ele não identificou a Rússia como a causadora dessas necessidades, conforme o documento informativo do Vaticano.

O ministro das Relações Exteriores da Santa Sé, arcebispo Paul Gallagher, reuniu-se quarta-feira com seu homólogo italiano, Luigi Di Maio. O Ministério das Relações Exteriores da Itália disse que Di Maio “repetiu a firme condenação da Itália à agressão russa contra a Ucrânia e o compromisso de continuar no caminho de sanções efetivas e incisivas contra o governo da Federação Russa”, enquanto ajuda a Ucrânia nas áreas “humanitárias, econômicas e de defesa”.

O Vaticano, que está enviando suprimentos médicos à Ucrânia, não se manifestou após a reunião.

Tal silêncio não foi compartilhado pelo chefe da Igreja Católica ucraniana, que tem sido enfático em suas denúncias diárias sobre a invasão russa. Tampouco foi compartilhada pelos bispos poloneses, que agora estão ajudando a mobilizar a recepção de dezenas de milhares de refugiados ucranianos que cruzaram a fronteira.

“Peço a você, irmão, que apele a Vladimir Putin pelo fim da guerra sem sentido contra o povo ucraniano”, disse o bispo polonês Gądecki em sua carta a Kirill. “Peço-lhe da maneira mais humilde para pedir a retirada das tropas russas do estado soberano que é a Ucrânia”.

“Peço também que apelem aos soldados russos para que não participem desta guerra injusta, que se recusem a cumprir ordens que, como já vimos, levam a muitos crimes de guerra”, acrescentou. “Recusar-se a seguir ordens em tal situação é uma obrigação moral”.

 

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