A impotência da Europa diante da guerra na Ucrânia

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26 Fevereiro 2022

 

“Penso que se opor à guerra – com tudo o que isso quer dizer: defender o direito internacional, condenar toda violação de direitos humanos e atender às necessidades daqueles que a sofrem, promover vias de mediação e desescalada, construir uma arquitetura viável para a paz e a segurança no continente [europeu] – continua sendo a única posição possível para o nosso país [Espanha] e para qualquer democrata. Não é só uma questão de princípios éticos. É também a única maneira de evitar que essa impotência se torne um inferno”, escreve Pablo Bustinduy, professor adjunto no City College of New York e na School of Professional Studies da New York University, em artigo publicado por Público, 24-02-2022. A tradução é do Cepat.


Eis o artigo.

 

A guerra na Europa já é uma realidade. Não cabem meias medidas, nem se deve enganar: a situação é muito grave e sua evolução imprevisível. A ofensiva russa parece de uma grande envergadura, o que torna quase impossível imaginar saídas viáveis ao conflito no curto prazo. O discurso de Putin também não abre espaços para uma intervenção diplomática urgente, nem reconhece interlocutores para isso entre a comunidade internacional. Os esforços de mediação que foram tentados, nas últimas semanas, entraram em curto-circuito.

Por que Putin se lançou em uma operação dessa magnitude? Há uma resposta simples: fez isso porque pode. Nas últimas semanas, havia ficado evidente uma flagrante realidade: nem os Estados Unidos e nem os países europeus podem intervir militarmente na Ucrânia sem que ocorra uma conflagração mundial entre potências nucleares de consequências devastadoras para todos. Há tempo que o custo das sanções, das condenações políticas e do isolamento internacional entra nos cálculos do governo russo e, sem dúvida, deve ter sido medido por seus planos militares.

Além disso, Putin sabe que as consequências econômicas desta guerra serão muito nocivas para a Europa, especialmente no campo energético, industrial e comercial. A dependência energética e o encarecimento das matérias-primas diminuem as margens de intervenção europeia e reforçam a posição da Rússia no conflito. A escala é muito maior, mas o cálculo é provavelmente parecido ao dos episódios da Geórgia, Crimeia e Síria. Putin sabe que a União Europeia tem pouco mais a fazer do que endurecer as sanções, trafegar suas tensões internas e, em última instância, encaixar-se no que acontece pela força dos fatos.

Essa situação coloca a Europa em uma posição de enorme impotência, que seus dirigentes buscarão atenuar com registros retóricos duríssimos. É um terreno especialmente perigoso, sobretudo quando se leva em conta que as razões dessa impotência são essencialmente de ordem interna.

Nas últimas semanas, falou-se muito das demandas da Rússia em matéria de segurança frente à expansão da OTAN em suas fronteiras. Mas essa operação, que foi desenvolvida com virulência durante a fase de ascensão da globalização, está congelada ao menos desde 2014, quando Putin já interveio na Ucrânia por via militar, e na prática, desde 2008, quando agiu na Geórgia e a União Europeia abandonou o projeto de adesão da Turquia.

Após o colapso financeiro de 2008, a atenção europeia voltou-se para si mesma e para uma sucessão de gravíssimas crises – o euro, os refugiados, o Brexit, a pandemia – que multiplicou suas contradições internas. Enquanto Bruxelas se ocupava delas, acumulando fracasso após fracasso, tanto o leste da União Europeia quanto seu vizinho sul entraram em uma fase de enorme instabilidade.

A presidência de Trump acrescentou a esse cenário uma grave crise da OTAN, que na prática perdeu qualquer impulso estratégico (Macron fez referência a isso quando disse que a organização estava “em morte cerebral”). Então, especulou-se muito como seria um mundo pós-atlântico. A Conferência de Segurança de Munique inclusive dedicou uma de suas convocações para imaginar “um mundo sem o ocidente”.

A realidade, no entanto, é que durante esses anos não se avançou na construção de uma nova arquitetura de segurança europeia, nem na projeção de sua autonomia estratégica, nem na coordenação de suas capacidades de defesa. A sequência histórica é mais ou menos a seguinte: a União Europeia lançou um ambicioso processo de expansão ao leste, multiplicou seus acordos comerciais no espaço pós-soviético, e na continuação se envergou sobre si, gravemente fragilizada, sem dispor de ferramentas e nem capacidade para gerir os efeitos dessas transformações geopolíticas. Isso é parte do que volta sob forma de impotência com a guerra na Ucrânia.

Durante esses dias, explicou-se que a invasão da Ucrânia conferirá uma nova força à OTAN, inclusive a Finlândia e a Suécia colocaram em marcha manobras de aproximação. Sem dúvida, esse reforço será significativo a curto prazo, mas isso não dissipa as dúvidas sobre o futuro da segurança europeia. Biden, cujos índices de aprovação estão baixíssimos, tem clareza de que o destino geopolítico dos Estados Unidos será dirimido no confronto com a China. Trump já se manifestou inequivocamente em apoio à operação de Putin. O problema voltará a ser abordado.

Com a ausência de outras capacidades de mediação ou dissuasão, a Europa confiará plenamente nas sanções e em que a guerra durará pouco, gerará oposição interna e rachará o bloco do poder na Rússia. Não são bases especialmente fortes, sobretudo levando em conta que o custo econômico para os países europeus será agravado com o tempo. Em especial, a questão energética, hoje, gera uma contradição insolúvel na Alemanha e dificulta enormemente os planos de transição industrial no continente.

Cada um dos líderes chamados a enfrentar a crise também é afetado pelos seus próprios problemas: um Macron em plena campanha eleitoral, cujos esforços de mediação claramente fracassaram, um Scholz com a alma fendida entre o atlantismo e o interesse comercial do país (tudo é herança de Merkel: os acordos de Minsk, a dependência do gás da Rússia, o modelo de internacionalização comercial), um Boris Johnson desprestigiado politicamente e disposto a quase qualquer coisa para ressuscitar. Já será muito caso consigam manter uma posição unida.

O que pode ser feito diante desse panorama desolador? Nesses dias, debateu-se muito sobre outra forma de impotência: a daqueles que, diante da dimensão do desastre, reagiram manifestando abertamente sua oposição à guerra. É evidente que essa situação não guarda paralelismo algum com a guerra do Iraque: não são os mesmos atores, nem as mesmas lógicas, nem se aplicam as mesmas interpretações.

Mas penso que se opor à guerra – com tudo o que isso quer dizer: defender o direito internacional, condenar toda violação de direitos humanos e atender às necessidades daqueles que a sofrem, promover vias de mediação e desescalada, construir uma arquitetura viável para a paz e a segurança no continente – continua sendo a única posição possível para o nosso país e para qualquer democrata. Não é só uma questão de princípios éticos. É também a única maneira de evitar que essa impotência se torne um inferno.

 

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