Repreendendo os que “escolhem pets, mas não crianças” o Papa Francisco particulariza e não entende a totalidade da questão

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14 Janeiro 2022

 

“Com todo o respeito ao papa, em tempos de crise climática, pressão econômica, guerra, pobreza e outras violências antropogênicas, alguns de nós não perdem nada escolhendo não ter filhos. Em vez disso, estamos ganhando algo: verdadeiro respeito e reverência pela bagunça de viver em um mundo interespécies onde as necessidades de animais humanos e animais não humanos estão frequentemente em conflito e sempre emaranhadas”, escreve a reverenda Sarah A. Bowen, ministra interespécies, capelã dos animais e defensora de todas as criaturas, em artigo publicado por Religion Dispatches, 12-01-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Não ter crianças – e ainda assim viver com gatos e cachorros – é egoísmo? Isso é precisamente o que o Papa Francisco sugeriu na última semana quando ele falou em uma audiência geral:

 

E muitos casais não têm filhos porque não querem, ou têm só um porque não querem outros, mas têm dois cães, dois gatos… Pois é, cães e gatos ocupam o lugar dos filhos. Sim, faz rir, entendo, mas é a realidade. E esta negação da paternidade e da maternidade diminui-nos, cancela a nossa humanidade. E assim a civilização torna-se mais velha e sem humanidade, porque se perde a riqueza da paternidade e da maternidade. E a Pátria que não tem filhos sofre e – como dizia alguém um pouco humoristicamente – ‘e agora quem pagará os impostos para a minha reforma, que não há filhos? Quem se ocupará de mim?’: ria, mas é a verdade. Peço a São José a graça de despertar as consciências e pensar nisto: em ter filhos. A paternidade e a maternidade são a plenitude da vida de uma pessoa. Pensai nisto”.

 

Ele tocou um acorde, e as pessoas pensaram sobre isso. Muitos, como Mia Mercado, do The Cut, destacaram a ironia de um homem sem filhos repreendendo aqueles sem filhos. Meu telefone enlouqueceu com ligações de amantes de animais, amigos gays e casais católicos sem filhos também. Estima-se que 1,1 bilhão de pessoas pertencem à Igreja Católica Romana. Mas mesmo muitos daqueles que não são católicos consideram as palavras do papa influentes ou têm preocupações sobre como suas palavras podem afetar culturas, leis e políticas.

Eu entendi por que eles estavam desanimados. Como ministra interespécies, capelã dos animais, identificada como bissexual, não tenho filhos, moro com o marido e alguns gatos, fiquei em conflito. Responder às perguntas das pessoas não era simples. De fato, por meio de suas observações, o Papa Francisco nos ofereceu uma chance de reflexão sobre o tema altamente complexo da vida interespécies.

Eu pensei sobre essas preocupações longamente. E com todo o respeito ao papa, em tempos de crise climática, pressão econômica, guerra, pobreza e outras violências antropogênicas, alguns de nós não perdem nada escolhendo não ter filhos. Em vez disso, estamos ganhando algo: verdadeiro respeito e reverência pela bagunça de viver em um mundo interespécies onde as necessidades de animais humanos e animais não humanos estão frequentemente em conflito e sempre emaranhadas.

Os seres humanos representam apenas 0,01% da vida na Terra. A implicação do papa de que todos os casais deveriam se reproduzir (se puderem) só sobrecarregaria ainda mais o planeta para necessidades humanas. Nossa demanda por recursos ecológicos já excede anualmente o que a Terra pode regenerar.

O Papa Francisco também não considera o custo de criar um filho, o que pode não ser realista para alguns casais que estão apenas tentando sobreviver. O custo médio de criar uma criança nos EUA até os 17 anos é estimado em mais de 200 mil dólares. Isso está bem fora do alcance de muitos casais. Assim como os recursos ou fundos para passar pelo complexo processo de adoção. Além disso, muitos casais são rejeitados ao tentar adotar.

A sugestão do Papa de que, se um casal não pode ter um filho, deve adotá-lo ignora as políticas que os proíbem de fazê-lo dentro das organizações católicas romanas. Embora a preocupação com o bem-estar dos órfãos seja admirável e eu não queira diminuir os problemas enfrentados pelas crianças em todo o mundo, a Igreja não pode ter as duas coisas. O Papa Francisco sugere que os humanos que não podem ter filhos devem adotar um – enquanto as organizações católicas continuam a negar aos casais do mesmo sexo o direito de adotar.

Além disso, viver com animais pode ser mais autocuidado do que egoísmo em muitos casos. Pesquisas nos dizem que viver com cães e gatos pode diminuir a depressão, diminuir o estresse e a ansiedade e melhorar a saúde cardiovascular. Os lares interespécies também podem ajudar as crianças humanas a aprenderem empatia ou ajudar os idosos com demência a conter a solidão. Também aprendemos que cultivar a compaixão pelos animais em nossas casas pode aumentar a empatia pela vida selvagem e pela Terra.

Por outro lado, há algum egoísmo potencial em viver com animais. “A criação de animais de estimação” nem sempre beneficia os animais, e é um tema complicado e controverso. Os desejos humanos de viver com outras espécies minimizam seus direitos de viver vidas independentes. Animais de estimação nem sempre são bem tratados, com muitos deixados do lado de fora acorrentados a estacas ou abusados fisicamente.

De mãos dadas com o negócio de animais de estimação, vem a criação forçada, fábricas de filhotes e a captura “exótica” de vida selvagem (que foi o pano de fundo da popular série “A Máfia dos Tigres”, da Netflix). Finalmente, bilhões de animais serão criados em fábricas para se tornarem alimentos para cães e gatos. Também não podemos negar a pegada ecológica dos animais de estimação.

O papa está certo sobre isso: a criação de animais de estimação, como qualquer prática generalizada em uma indústria adjacente, certamente tem potencial para o egoísmo. Mas se ele acha que os donos de animais de estimação que optam por não ter filhos são egoístas porque ter filhos é necessário para a humanidade, o papa está muito errado.

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos - IHU

 

O Instituto Humanitas Unisinos - IHU está promovendo o Ciclo de Estudos “Decálogo sobre o fim do mundo”, que ocorrerá ao longo do ano de 2022. O “Decálogo sobre o fim do mundo” tem como objetivo discutir, de modo transdisciplinar, os desafios que o novo regime climático do planeta impõe às nossas formas de pensar, conceber e habitar o mundo. Dividido em dez conferências, a programação do ciclo retoma questões políticas, filosóficas e teológicas sobre a vida no antropoceno, considerando o ocaso e, em certo sentido, o fim/esgotamento da Modernidade.

 

Para ficar por dentro da programação acesse este link.

 

 

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