Bruni: pandemia, um mal global que exige uma resposta global

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14 Janeiro 2022

 

Luigino Bruni, economista membro da força-tarefa da Comissão do Vaticano para a Covid-19 comenta o apelo do Papa Francisco ao Corpo Diplomático pelo acesso universal à vacinas e medicamentos: “seria ético pensar também na redistribuição dos lucros das empresas farmacêuticas multinacionais”.

 

A reportagem é de Fabio Colagrande, publicada por Vatican News, 12-01-2022.

 

“O acesso universal aos cuidados de saúde continua sendo uma miragem”. Foi isso que o Papa Francisco recordou na segunda-feira (10/01), no tradicional discurso de início do ano aos embaixadores acreditados junto à Santa Sé. Depois de reiterar a importância de uma campanha de vacinação eficaz a nível global, o Papa apelou aos governos e entidades privadas, que “num momento tão grave para a humanidade”, devolvam respostas coordenadas à pandemia, através de novos modelos de solidariedade e reforço das capacidades dos países mais necessitados. Em particular, Francisco pediu aos Estados que adotem políticas que garantam a todos o acesso “a ferramentas de diagnóstico, vacinas e medicamentos”. Luigino Bruni, professor de Economia Política da Universidade Lumsa de Roma e diretor científico da “Economia de Francisco”, falou sobre o assunto na Rádio Vaticano-Vatican News.

 

Eis a entrevista.

 

No recente discurso ao Corpo Diplomático, como o Papa abordou os desafios da pandemia?

Desde março de 2020 faço parte da força-tarefa de Economia da Comissão do Vaticano para a Covid-19, desejada pelo Papa Francisco. Por isso, acompanhei passo a passo a crescente preocupação e ação do Papa durante a pandemia. O Papa lembrou imediatamente que é necessária uma ação global para um mal global. Acredito que poucas vezes na história a visão nacionalista se mostrou totalmente míope como durante esta crise. Perante as últimas variantes do vírus que chegam dos países mais pobres, surgiu a ideia de que, fechando-nos na nossa fortaleza, na nossa cidade ou no nosso país, podemos alcançar a imunidade de rebanho ideal. Estamos iludidos que nosso pequeno rebanho nacional é o rebanho mundial, enquanto a única imunidade de rebanho possível é a do planeta.

 

Francisco, também nesse caso, insistiu na importância de imunizar ao máximo a população...

É verdade. Mas gostaria também de salientar que observando e estudando os discursos do Papa sobre a pandemia proferidos nos últimos dois anos, é possível contatar que nos últimos meses houve uma consciência de que a vacina é realmente fundamental, mas não é a única solução para este problema. Na Europa e nos Estados Unidos, já estamos na terceira dose e daqui a pouco teremos que fazer a quarta. Então, com a velocidade com que o vírus evolui atualmente, imaginar que a única solução para combatê-lo seria vacinar todos os sete bilhões de pessoas do mundo se torna complexo. Precisamos começar a abrir outras perspectivas. A vacina continua sendo um ótimo caminho, principalmente onde é possível fazê-la. Mas acredito que também se deve começar a imaginar algo um pouco mais articulado e complexo na frente do tratamento.

Como montar uma infraestrutura de vacinação eficaz em todo mundo, nos cinco continentes? Esta é uma imensa questão prática, da qual o Papa está ciente. Então, vamos em frente com as vacinas, mas vamos nos organizar também com remédios que podem curar o vírus, porque a estratégia vacinal não é a única forma de derrotar um vírus que varia tão rápido no planeta. No entanto, o que interessa a Francisco acima de tudo, é afirmar que não podemos continuar pensando em termos nacionalistas. É necessária uma ação global e mundial, porque a pandemia é um mal global, ao qual devemos responder com um bem comum global.

 

O Papa Francisco pediu um compromisso geral da comunidade internacional para que toda a população mundial possa ter igual acesso a cuidados médicos e vacinas...

Se estivéssemos em um mundo sem restrições, é óbvio que a vacina seria a melhor solução. Mas, como existem restrições práticas e logísticas a curto prazo, são necessárias soluções que funcionem, para além das ideais. Então, entendemos que nos próximos meses, onde não for possível chegar em todos os continentes, devemos implementar uma combinação de vacina e tratamentos. Vamos pensar em como é difícil  uma vacinação universal, para todas as variantes, em toda a África, Ásia, China e Índia. O bom senso e o raciocínio prático, que sempre distinguiram a Igreja, levam-nos a dizer que a estratégia deve ser: vacina + tratamento. Desde que seja uma estratégia global, inclusiva, não vinculada apenas à renda.

Hoje estamos percebendo que os países ricos podem ser tão ricos quanto quiserem, mas continuam muito vulneráveis se não enfrentarem um problema como a pandemia em escala global. Esta é a grande mensagem desta crise pandêmica: a riqueza dos indivíduos e das Nações, é insuficiente para gerir um problema tão completo e generalizado.

 

Além do problema das patentes e dos monopólios, há também o aspecto dos lucros das multinacionais...

Não esqueçamos que depois da Segunda Guerra Mundial, em uma civilização ainda menos avançada que a nossa em termos de direitos humanos, houve uma intenção para redistribuir os enormes lucros das empresas que ganharam dinheiro com armas. O fato de hoje não imaginarmos algo semelhante para os lucros de vacinas e tratamentos relacionados à Covid-19, realmente me parece algo antiético e injusto.

 

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