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06 Dezembro 2021

 

"O limiar do discurso público sobre o fenômeno migratório ainda se desloca, dos hotspots aos campos fechados, o fio condutor é: se as pessoas migrantes não são vistas, não existem. Tornando milhares de pessoas invisíveis e tornando-nos, nós cidadãos europeus, como os cegos de Saramago, “cegos que veem, cegos que, vendo, não veem”.", escreve Francesca Mannocchi, em artigo publicado por La Stampa, 05-12-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

"Em uma cidade qualquer, em um país qualquer, um motorista está parado no semáforo, esperando o sinal verde, quando ele percebe que perdeu a visão. Não é um caso isolado: é o início de uma epidemia que atinge progressivamente toda a cidade e todo o país”.

Assim começa Ensaio sobre a Cegueira de Saramago. Em uma cidade qualquer, em um país qualquer. Poderia ser, por exemplo, Lesbos.

Mohammed, sua esposa e duas filhas fugiram de Cabul em 2017, fugindo dos Talibãs.

Mohammed trabalhava como motorista para as organizações internacionais com base no Afeganistão, o suficiente para ser odiado pelos estudantes de Deus. A complexidade da história de sua família resume a história recente do país. Os irmãos de sua esposa fizeram escolhas opostas, o mais velho tornou-se soldado do exército afegão, leal ao governo apoiado pela comunidade internacional e treinado pela OTAN e pelos estadunidenses, o mais jovem, por outro lado, juntou-se aos Talibãs, lutou em Ghazni, e tornou-se ameaçador até mesmo com a sua família. Um dia, há quatro anos, ele bateu com um grupo de talibãs na porta de sua irmã no distrito noroeste de Khair Khana, em Cabul, e disse a Mohammed que tinha chegado a hora de deixar seu emprego para os "usurpadores" e se juntar ao grupo. "Ainda é um conselho", disse ele, ao se despedir.

Mohammed continuou a trabalhar por uma semana sem dormir, olhando por cima do ombro em cada esquina, até que uma noite voltou para casa e encontrou uma carta: "Você tem dois dias, e depois vamos tratá-lo como os outros, você será processado em nome da lei do Alcorão". O tempo dos avisos acabou. Mohammed dobrou o papel, guardou no bolso como prova de sua perseguição, procurou os poucos objetos para vender antes de abandonar tudo, arrumou uma mala, a menor possível para não chamar a atenção, e fugiu com sua família. Atravessaram o Irã, a Turquia, chegaram a Izmir e de lá, como milhares de outras pessoas, tentaram embarcar para a Grécia, rumo ao Norte da Europa. Eles tentaram em vão três vezes, antes que o último bote os jogasse contra as rochas de Lesbos.

 

 

Mohammed, sua esposa e as filhas eram quatro das doze mil pessoas que viviam no campo em torno do hotspot de Moria “em uma pequena barraca nas colinas, sem eletricidade, sem água, sob a chuva ou o sol escaldante. Durante meses não pudemos dar banho nas meninas, não havia banheiros nas colinas. A água dos tanques era gelada”, lembram. Em Moria, havia um banheiro para cada 150 pessoas. Um chuveiro para cada trezentas. Números dramáticos e sempre teóricos, porque os poucos serviços muitas vezes ficavam inutilizáveis, ninguém drenava as latrinas e os arbustos se tornavam a única alternativa.

Mohammed tentou duas vezes pedir asilo. E duas vezes seu pedido foi rejeitado.

Agora sua família aguarda a resposta ao recurso, trancado na ilha pelos procedimentos do acordo entre a Europa e a Turquia em 2016 para reduzir o fluxo de pessoas que chegam das costas turcas às gregas e se dirigem pela rota dos Balcãs. Em troca de proteção de fronteira, do patrulhamento daquele trecho do Mar Egeu e dos acampamentos para pessoas migrantes, a Europa já pagou à Turquia 6 bilhões de euros.

A história da família de Maomé é a história de muitos: respostas que não chegam, filhas sem escola há anos, vidas miseráveis suspensas pela morosidade dos processos administrativos, pela falta de respostas aos pedidos de asilo que fizeram com que as cinco ilhas do Egeu explodissem, se transformassem em campos de refugiados a céu aberto, cercado por ratos e lixo, de modo que no muro em frente ao campo alguém havia escrito 'Bem-vindo à prisão'.

Hoje aquela escrita não existe mais, também não existe mais o hotspot de Moria. Destruído por um incêndio criminoso na noite de 8 de setembro de 2020, quando um grupo de jovens afegãos, exasperado com as condições desumanas de vida, ateou fogo a um contêiner. Daquele gesto desesperado, hoje, resta a desolada colina de destroços e ferrugem e um grupo de jovens condenados a dez anos e detidos em Atenas.

Depois do incêndio, Mohammed e sua família esperavam que tivesse chegado a hora de serem transferidos para outro país europeu. O mundo finalmente os teria notado, alguém teria encontrado uma solução para garantir uma vida menos degradante.

“Nunca mais Moria”, gritavam todos: as instituições europeias, aquelas gregas, as ONG e, claro, as pessoas migrantes.

"Nunca mais Moria" era um coro unânime, mas cada um tinha uma solução diferente para o futuro de requerentes de asilo como Mohammed. No final, a solução que prevaleceu foi a linha dos "campos fechados" do governo conservador de Mitsotakis. No poder desde 2019, já havia fortalecido sua posição deportando mais migrantes, construindo uma cerca de 40 quilômetros na região de Evros, na fronteira terrestre com a Turquia, acelerando as expulsões, regulamentando rigorosamente as atividades de ONGs e grupos de voluntariado e pedindo apoio à Europa para resolver a superlotação das ilhas.

Até mesmo a comissária de assuntos internos Ylva Johansson, após o incêndio, tinha prometido que "não haveria mais Moria", a resposta prática ao coro do "nunca mais" foi a dotação de 276 milhões de euros para a construção de cinco novos campos nas ilhas do Egeu, campos que nascem, porém, no terreno escorregadio da ambiguidade europeia.

Durante uma visita a Lesbos, Ylva Johansson havia enfatizado que as novas estruturas não seriam fechadas, mas as intenções gregas eram claras e de linha oposta: o documento de apresentação do Ministério das Migrações os descrevia como "campos fechados e controlados", reiterando a palavra "fechado" 18 vezes.

 

 

A Comissão tinha insistido nas garantias de liberdade de circulação: não podia transmitir a mensagem de que a UE financiasse prisões ou cercamentos mas, nascidos no papel para proporcionar padrões mais elevados de alojamento aos requerentes de asilo, os centros, na prática, são locais cercados por um duplo cerca de arame farpado, com uma entrada dotada de catracas, portões magnéticos e máquinas de raio x dotadas de um algoritmo de análise de movimento que monitoram as entradas e as saídas, um sistema a que no documento programático que define as prioridades do governo na gestão da os requerentes de asilo é dado o nome de "Centauro".

Diante do descontentamento dos vértices europeus, a Grécia garantiu que os campos permaneceriam abertos das 8 às 20, mas hoje, nas guaritas na entrada, os soldados que patrulham os campos controlam documentos, impressões digitais e validade das autorizações de saída, os requerentes de asilo devem demonstrar que têm um motivo documentado para sair, uma consulta com um médico, um advogado, uma organização humanitária.

O primeiro campo do novo curso de gestão migratória europeia foi inaugurado em Samos em setembro. No dia da abertura, o inflexível ministro grego para migração e asilo, Notis Mitarakis, declarou: "A Grécia está cumprindo suas obrigações e protegendo as fronteiras europeias e os nossos ideais comuns." O ideal comum são 14.250 metros quadrados de contêineres, não visíveis da capital Vathy, completamente isolados da comunidade da ilha, que há anos protestam contra a presença dos migrantes.

O campo da cegueira.

"Não há dúvidas sobre as intenções deste enorme lugar no meio do nada, isolado do resto da sociedade", afirmou Patrick Wieland, coordenador do campo de Samos dos Médicos Sem Fronteiras "tudo foi projetado para o confinamento." Ou seja: vamos melhorar as condições de vida, mas não pensem que seja o paraíso. O governo grego não parece querer que aqueles que pretendem chegar à Europa pensem que as novas estruturas sejam demasiado acolhedoras, a estratégia era e continua a ser aquela da dissuasão.

Também para afegãos como Mohammed, que são a maioria dos requerentes de asilo nas ilhas, que estão lá há anos, muito antes de Cabul voltar para as mãos dos talibãs.

Os novos campos encarnam a linha que a União Europeia mantém há anos e reforça em matéria de migração: externalizar o controle das fronteiras, fechar acordos econômicos com países terceiros para garantir que as partidas sejam contidas, com certa tolerância para as negações de entrada.

É um esquema que se repete da mesma forma na Grécia, no Mediterrâneo Central, até os últimos eventos na fronteira entre a Polônia e a Bielo-Rússia.

Hoje, as pessoas migrantes na Grécia vivem segregadas em lugares remotos, cercadas por medidas de segurança agressivas, com serviços fornecidos internamente para serem o mais possível invisíveis para as comunidades locais.

Em novembro, o Ministério da Migração grego sediou em Atenas o segundo Congresso Mundial sobre Segurança de Fronteiras, uma plataforma global sobre a gestão do controle das fronteiras, um sinal de quais são as prioridades no que diz respeito à gestão do fenômeno migratório.

Não proteção dos direitos humanos, mas patrulhas das fronteiras e controle de alta tecnologia dos requerentes de asilo detidos nos campos.

“Não sabemos qual será o nosso destino, nem por que somos tratados como criminosos, embora não tenhamos cometido nenhum crime”, disse Mohammed.

Soraya também fugiu do Afeganistão. Hoje ela tem 19, ela tinha 15, quando chegou há quatro anos à costa de Lesbos com a família: pai, mãe e quatro irmãs. Fugindo de Ghazni, dos Talibãs que estavam matando um jovem após o outro, dizimando famílias.

 

 

“O meu pai queria um futuro melhor para nós - diz Soraya - mas nunca teria pensado que chegar à Europa significaria dormir um ano e meio num campo, sem banheiros, nem medicamentos, nem eletricidade. E, além disso, ser tratados como prisioneiros”.

É o meio da tarde quando Soraya e sua mãe Leila olham para o mar. Elas estão fora do novo campo de Mavrovouni pelas poucas horas semanais permitidas a elas pelos novos procedimentos.

Elas se sentaram no parque de Mytilene, depois caminharam ao longo das margens do Egeu.

Soraya gostaria de ser cientista, estudar "como os outros", diz ela, e repete essa fórmula muitas vezes "como os outros". No entanto, continua, “não somos como os outros, os gregos não querem que sejamos vistos por aí, não querem que falemos sobre as condições de vida nos novos campos. Um banheiro fechado não faz de uma vida uma existência digna, por trás daquele arame farpado sentimo-nos tratados como animais que ninguém deveria enxergar”.

A Grécia torna-se um projeto piloto do novo rumo da Europa, o da invisibilidade.

O limiar do discurso público sobre o fenômeno migratório ainda se desloca, dos hotspots aos campos fechados, o fio condutor é: se as pessoas migrantes não são vistas, não existem. Tornando milhares de pessoas invisíveis e tornando-nos, nós cidadãos europeus, como os cegos de Saramago, “cegos que veem, cegos que, vendo, não veem”.

 

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