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12 Novembro 2021

 

"Eis então que retorna em mim a convicção de que durante o Sínodo, nesse processo sinodal, seja necessário que os conflitos, ou melhor, o grande conflito intra-eclesial dos últimos vinte e trinta anos seja dito, discutido e rezado. Nós o dissemos. Que os participantes o discutam e o rezem. Do contrário, é muito improvável que o que acontecerá realmente será um sínodo", escreve Sergio Ventura, jurista italiano, em artigo publicado por Vino Nuovo, 10-11-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Depois de ter apontado algumas dúvidas sobre as intervenções de Dom Brambilla e do teólogo Dom Leonardi em Avvenire, bateu o escrúpulo de ter sido um pouco severo demais, ainda que - para dizer a verdade – eu tinha poupado a intervenção do bispo Camisasca por medo de resultar desnecessariamente polêmico. Eis então que o Padre Spadaro intervém sobre a questão sinodal: “para fazer um sínodo é preciso expulsar os mercadores e virar as suas mesas... Mas quem são os ‘mercadores do templo’ hoje? Só uma reflexão repleta de oração poderá nos ajudar a identificá-los... Os mercadores estão sempre perto do templo, porque ali fazem negócios, ali vendem bem: formação, organização, estruturas, certezas pastorais. Os mercadores inspiram o imobilismo das velhas soluções para problemas novos, ou seja, o usado seguro que é sempre um ‘remendo’, como o define o Pontífice. Os mercadores se orgulham de estar ‘a serviço’ do religioso. Frequentemente, oferecem escolas de pensamento ou receitas prontas para usar e geolocalizam a presença de Deus que está ‘aqui’ e não ‘lá’"(Civiltà Cattolica, n.4113).

Uma parrésia, uma franqueza que faz desaparecer o meu pequeno escrúpulo e me estimula a voltar à intervenção do bispo de Reggio Emilia (protagonista, nos últimos dias, em Roma, em San Paolo fuori le mura, de um encontro com o cardeal Ruini no tema da família). Certamente não por uma questão de polêmica ou com o objetivo de alimentar uma contraposição estéril entre a Igreja antes e depois de Francisco, mas simplesmente pelo fato de que - como já foi mencionado (aqui e aqui) - se a "conflitualidade" (Card. Grech), se o conflito quer ser "resolvido e transformado em elo de um novo processo" (EG, 227), ele "não pode ser ignorado ou dissimulado [mas] deve ser aceito" (EG, 226).

De fato, esconder as diferentes compreensões eclesiais sobre aquilo a que deveria tender esse caminho sinodal correria o risco de interromper abruptamente o sonho do bispo de Roma de caminhar juntos para uma "harmonia multiforme" (EG, 117), uma "unidade pluriforme" (EG, 228) - aquela que antigamente era chamada de "diversidade reconciliada" (EG, 230). Principalmente quando alguém na Igreja - como Camisasca ou Spadaro - tem a coragem de explicitar as diferenças ou os problemas reais, enquanto em muitas outras intervenções “sínodo/sinodalidade estão se tornando slogans, uma nova retórica eclesial que esconde as muitas dificuldades, senão a oposição, de presbíteros e bispos a essa mudança” (Card. Grech).

Na reflexão do bispo Camisasca, tinha chamado a minha atenção o fato de que nunca aparecesse - nem explícita nem implicitamente - o foco do processo sinodal segundo o Papa Francisco, ou seja, a escuta do que o Espírito está pedindo às Igrejas. Caminha-se "juntos" e "para" Deus (sobretudo o Pai, mas também a Trindade), caminha-se "com" Cristo, caminha-se "entre" irmãos e "para" aqueles que não conhecem ("ainda" ou "mais") Cristo. Tudo isso para "recentralizar a nossa vida em Deus Pai". E o Espírito? Não apareceu. Ao contrário da intervenção do Padre Spadaro, para quem o processo sinodal é inequivocamente "uma experiência de discernimento espiritual em busca da vontade de Deus para a Igreja" e da qual "o protagonista é o Espírito Santo que ‘move e atrai’", que "não gosta de safe zones, áreas protegidas: sopra onde quer” e, por isso, torna a Igreja “inquieta, incômoda, tensa”.

Visto que o Espírito também não é um flatus vocis, não é por acaso que o texto do nosso bispo seja, em consequência, completamente desbalanceado sobre o conhecer (Deus, sua obra e Jesus Cristo) em comparação com o escutar (os nossos contemporâneos) ou com discernir (não se sabe bem o que e, portanto, fica ausente também). E não é por acaso que os outros são reconhecidos, identificados, certamente por estarem na "íntima expectativa" (de conhecer Deus, Cristo, etc.), mas sobretudo por serem simples que se afastaram a serem perdoados, dispersos a serem reunidos, pecadores a serem reanimados. Consequentemente, não é de estranhar que a disponibilidade de escutar os outros certamente diga respeito também às "expectativas e aos questionamentos, às críticas, às decepções e aos escândalos", mas apenas e sempre com o objetivo de "despertar a sede de Deus para que a reconheçam dentro deles, para chamar cada homem a participar da vida de nossas comunidades”.

Portanto, não há conexão entre esses outros e a experiência surpreendente e imprevisível de aprender algo sobre Deus e sobre a Igreja com eles (GS, 44), porque Deus, ou melhor, o Espírito, já está agindo neles. Em outras palavras – aqueles de Padre Spadaro - nenhuma ênfase na “escuta do mundo” em que substancialmente “Deus está sempre presente, inspirando, movendo, agitando”; nenhuma elevação a uma "descoberta incômoda" do fato substancial de que "os ‘distantes’, os não crentes e os que se dizem anticlericais, por vezes, nos ajudam a compreender melhor o precioso tesouro que guardamos nas nossas pobres vasilhas de barro". Por isso, a única passagem que pouco me convence da intervenção do Padre Spadaro é aquela em que liga o "abrir-se" eclesial ao "passar do ‘eu’ ao ‘nós’" - assim como ainda não havia me convencido uma passagem semelhante na entrevista com o Papa Francisco no Tg5 de 10 de janeiro de 2021. Acredito que a força inclusiva da categoria "nós" seja sempre menor do que aquela garantida pela categoria "outro" ou "outros", especialmente quando reconhecemos "o outro, cada outro, como dom” (Card. Grech).

A esta altura, não devemos sequer nos surpreender que o bispo Camisasca aceite sem problemas a categoria de Igreja em saída - como o próprio Cardeal Betori já havia feito, destacando sua analogia com aquela da Igreja extrovertida. Trata-se sempre de uma "dilatação" e "abertura" eclesial funcional para que "novos homens e mulheres possam entrar" e (só?) nela "possam experimentar o abraço misericordioso de Cristo em sua vida": uma clássica “obra de evangelização que começa como escuta” e que talvez demasiado rapidamente “continua como anunciação e convite à comunidade”. Mas vamos nos perguntamos: onde está o "parar" (Card. Grech), o "fazer uma parada" sobre o momento do "ouvir" antes de passar para aquele do "dizer" (Card. Bassetti, 6:14-7:43)? É possível uma experiência da misericórdia de Deus fora da Igreja? É concebível uma evangelização inesperada e surpreendente dos evangelizadores (iniciais) pelos evangelizados?

Por todos esses motivos, acreditamos que já não seja mais suficiente explicar que a Igreja sinodal é a Igreja em saída - como por fim também Santiago Madrigal recentemente tentou fazer com autoridade (Civiltà Cattolica, n.4111). Devemos perceber, como disse o Cardeal Bassetti com certo humor, que mesmo para uma Igreja em saída "poderia dar vontade de te dar um empurrão e te jogar barranco abaixo e depois dizer: - Fiz o Sínodo porque caminhamos juntos ... –“ (14:13-14:28). Ou, mais simplesmente, que até o Bispo Camisasca pode falar de "aprofundar a própria tradição" e de "uma nova inteligência da verdade perene", mas sempre dominado pela preocupação de que não seja "conhecimento de coisas novas". Em última análise, enquanto se continuar a pensar que a Igreja sai de si mesma apenas para oferecer respostas a perguntas (mesmo críticas) que, no entanto, permanecem apenas funcionais para o aprofundamento (ainda que importante) e renovação das próprias respostas, então será difícil uma mudança substancial.

A conversão que o Papa Francisco está nos pedindo consiste - acreditamos - em pensar e praticar a saída como tentativa de procurar no outro respostas (obviamente doadas pelo Outro) a perguntas - expressas ou não expressas - que a comunidade eclesial traz dentro de si. A anedota de Pedro e Cornélio, justamente tornada paradigmática pelo Documento preparatório ao Sínodo (§22-24), não nos fala basicamente desse mútuo intercâmbio entre Igreja (presumivelmente apenas) docens e Igreja (presumivelmente apenas) discens?

Eis então que retorna em mim a convicção de que durante o Sínodo, nesse processo sinodal, seja necessário que os conflitos, ou melhor, o grande conflito intra-eclesial dos últimos vinte e trinta anos seja dito, discutido e rezado. Nós o dissemos. Que os participantes o discutam e o rezem. Do contrário, é muito improvável que o que acontecerá realmente será um sínodo!

 

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