Francisco lamenta e denuncia os ataques da mídia católica

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04 Outubro 2021

 

Uma rede midiática católica dos Estados Unidos supera todas as outras em tamanho. E é também uma plataforma para duros ataques contra o Papa Francisco.

O comentário é de Christopher Lamb, publicado em The Tablet, 01-10-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quando o Papa Francisco enfrenta a oposição ao seu papado, às vezes parece que estamos assistindo ao time de rúgbi argentino. Os Pumas são conhecidos pelos seu estilo de jogo duro e corajoso. Os jogadores não têm medo de fazer grandes bloqueios. Assim também é Jorge Mario Bergoglio.

Seja ao enfrentar o populismo nacionalista de Viktor Orbán na Hungria ou ao lidar com os grupos da Missa Tridentina que minam os ensinamentos do Concílio Vaticano II, o papa argentino está assumindo uma posição cada vez mais ousada. Depois de oito anos e meio, seu pontificado está na marcha mais rápida.

Essa ousadia ficou patente durante a sua recente viagem à Eslováquia, onde ele fez os comentários mais explícitos até hoje sobre as poderosas forças clericais e políticas que ele enfrenta. “Alguns me queriam morto”, disse Francisco explicitamente a um grupo de coirmãos jesuítas em Bratislava, quando um deles perguntou como ele estava se recuperando da sua recente operação intestinal. “Houve até encontros entre prelados, que pensavam que o papa estava mais grave do que se dizia. Estavam preparando o conclave. Paciência!”

Uma plataforma proeminente na qual prelados contrários a Francisco desfrutam de um megafone é a Eternal Word Television Network (EWTN). Fundada há 40 anos pela carismática e obstinada Madre Angélica, membro das Pobres Clarissas da Adoração Perpétua, ela cresceu e se tornou a maior organização midiática religiosa do mundo.

A EWTN chega a 310 milhões de residências em mais de 145 países; é proprietária da Catholic News Agency e, em 2011, adquiriu o National Catholic Register dos Legionários de Cristo. Seus relatórios de 2019 revelam uma receita anual de 64.946.744 de dólares (mais de 348 milhões de reais).

Francisco ignorou em grande parte a implacável guerrilha contra seu pontificado por parte de alguns meios de comunicação católicos. Isso mudou na Eslováquia. Em declarações divulgadas pela revista La Civiltà Cattolica, dirigida pelos jesuítas e aprovada pelo Vaticano, ele falou sobre “uma grande rede de televisão católica que continuamente fala mal do papa”. Ninguém tem dúvidas de que ele se referia à EWTN.

Ele prosseguiu dizendo que, embora ele mereça “ataques e injúrias porque sou um pecador (...) a Igreja não merece isso”. E acrescentou: “Isso é obra do diabo. Eu também disse isso a alguns deles”.

O papa teve o cuidado de distinguir entre os ataques a ele pessoalmente e o ofício do papado e da Igreja em geral. Ele também não estava falando da EWTN como um todo, mas de partes da sua cobertura. Francisco admitiu publicamente os seus erros, abriu espaço para críticas e deu total apoio à liberdade de imprensa. Mas, como tuitou o padre Antonio Spadaro, diretor da Civiltà Cattolica: “Nunca confunda liberdade de informação com desinformação”.

Em sua referência ao diabo, o papa estava se referindo ao significado original da palavra grega diabolos, que pode ser traduzida como “dividir”. A mídia católica cria espaço para críticas a papas e bispos; mas devem se precaver contra o fato de caírem no espírito calunioso, falso e acusatório do Maligno.

Um dos principais programas da EWTN é o The World Over, apresentado por Raymond Arroyo, um colaborador regular da Fox News, que profere ataques implacavelmente negativos contra Francisco. Essa hostilidade se espalhou para algumas outras áreas da rede. Em setembro de 2019, um padre usou sua homilia para atacar o papa durante uma missa transmitida ao vivo pela EWTN, enquanto o National Catholic Register foi um dos únicos dois sites que em 2018 divulgou o texto do “testemunho” do ex-diplomata papal e arcebispo Carlo Maria Viganò, apelando ao papa para renunciar. O outro foi o LifeSiteNews, um meio de comunicação anti-Francisco beligerante, recentemente removido do Facebook e do YouTube por publicar informações enganosas sobre a Covid-19.

As falsidades e os exageros selvagens das afirmações de Viganò foram desde então expostos. Na época, Arroyo disse à Fox News que se tratava de afirmações “confiáveis” e ele continua oferecendo uma plataforma a Viganò, que agora é o mascate de teorias da conspiração desequilibradas e uma figura cada vez mais isolada.

Até agora, a EWTN não respondeu às observações de Francisco. Michael Warsaw, presidente e CEO da rede, não respondeu ao meu convite para comentar. Em seu primeiro programa desde a repreensão do papa, Arroyo passou 20 minutos entrevistando Chad Pecknold, um professor de Teologia da Universidade Católica dos Estados Unidos. Instigado por Arroyo, Pecknold zombou de várias reformas de Francisco e descartou o processo sinodal como uma “técnica política”. Embora tenham discutido os comentários do papa a seus corrimãos jesuítas, sua forte crítica à EWTN não apareceu. Parece que a estratégia da EWTN é manter a calma, dobrar as apostas e esperar este pontificado passar.

Mas se trata de uma aposta, e de uma aposta alta. “Se você é um grupo midiático católico percebido como contrário a Pedro, isso é um grande problema”, disse-me Gloria Purvis, a popular apresentadora de rádio da EWTN que foi repentinamente demitida da rede no fim do ano passado. “Isso põe em questão o fato de alguém reivindicar que é um católico fiel e promover o ódio ao papa. O que você diz sobre o Espírito Santo que escolheu o papa? Isso também levanta a questão que precisa ser abordada: em termos de marca, de missão, somos realmente quem somos?”

A raiva borbulha sob a superfície da hostilidade de Arroyo contra Francisco. Em um artigo de 1995 para a revista America, o Pe. James Martin identificou a raiva como o principal motor do ministério da televisão da Madre Angélica, a qual, argumentou ele, apresentava uma visão “amarga, intransigente e defensiva” da Igreja.

Quem se opõe a este pontificado preferiria uma Igreja definida por aquilo que ela é contra, em vez daquilo que ela é a favor. A raiva também tem uma dimensão espiritual. “A raiva é um dos demônios dos Padres do Deserto da Igreja primitiva, e eles diziam que é necessária uma maior consciência espiritual e oração para garantir que o demônio não nos controle”, disse o abade Christopher Jamison, líder dos beneditinos ingleses. O Pe. Jamison, autor de best-sellers e locutor experiente que atualmente ajuda a administrar uma produtora de mídia, acompanhou o desenvolvimento da EWTN.

Ele ressalta que a Madre Angélica demonstrava uma genuína curiosidade durante as entrevistas nos primeiros anos, mas foi ficando mais irritada com o passar do tempo. “Para fazer uma boa televisão é preciso ter curiosidade, não ser furioso. Na medida em que a EWTN se mostra furiosa e não curiosa, ela não está servindo bem a ninguém – muito menos a si mesma”, acrescenta.

A EWTN destaca que a sua cobertura leva as atividades do papa às casas de mais pessoas do que qualquer outro meio de comunicação. Quando eu estava pesquisando para meu livro “The Outsider”, Michael Warsaw me disse que era “simplesmente ridículo” sugerir que a EWTN se opõe a Francisco.

Mesmo assim, é instrutivo não apenas observar o que a rede cobre, mas também o que ela opta por ignorar. Quando “Vamos sonhar juntos”, o livro que apresenta o projeto do papa para o mundo pós-pandemia, foi lançado, a EWTN ofereceu uma cobertura bastante pobre.

“Eu disse ao Papa Francisco [em uma carta] que o livro havia sido apresentado no The New York Times, mas havia sido totalmente ignorado pela EWTN. Ele respondeu que a cerrazón (‘fechamento’) da rede o magoava e que ele rezava por eles”, disse-me Austen Ivereigh, que colaborou com Francisco no livro.

“Sei que vários bispos dos Estados Unidos falaram com ele sobre a forma como a cobertura tendenciosa e hostil da rede minava a comunhão com Roma. Portanto, suas observações aos jesuítas em Bratislava não são uma grande surpresa.”

De acordo com a revista America, Francisco também teria pedido a um repórter e cinegrafista da EWTN no avião papal para o Iraque que a rede parasse de “falar mal dele”. A EWTN parece imune a críticas. Em “The Outsider”, eu relatei que o núncio papal nos Estados Unidos, o arcebispo Christophe Pierre, questionou Warsaw sobre o programa de Arroyo. Ele também foi questionado em uma reunião do dicastério vaticano para as comunicações em 2019, na qual ele atua. Nada aconteceu.

Alguns dizem que a Madre Angélica não aprovaria a direção politizada que a EWTN tomou. A rede combina programas devocionais com apoio político partidário ao Partido Republicano e ao ex-presidente Donald Trump. A diretoria da EWTN inclui Tim Busch e Frank Hanna III, ambos doadores do Partido Republicano, enquanto os Cavaleiros de Colombo, cuja liderança sob Carl Anderson estava ligada aos republicanos, deram 1,25 milhão de dólares [6,7 milhões de reais] à EWTN em 2014 e 500.000 dólares [2,7 milhão de reais] em 2015.

“Se as pessoas acreditam que a rede está mais ligada a um partido político do que a Jesus Cristo, isso seria uma mudança drástica na percepção do ethos de fidelidade da Madre Angélica a Jesus e à sua Igreja”, diz Gloria Purvis, uma apresentadora negra pró-vida que costumava usar seu programa para falar sobre questões raciais após o assassinato de George Floyd. A fundadora da EWTN criticava os bispos, disse-me Purvis, mas “nunca de uma forma que fizesse com que ela ou a sua rede parecessem um peão no tabuleiro de um partido político”.

É triste ver um papa se defendendo dos ataques de uma poderosa rede midiática católica. O grupo que obviamente deveria dizer algo é a liderança da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos. Até agora, só houve silêncio. O arcebispo José Gómez, seu presidente, é membro do conselho da EWTN. Francisco às vezes deve se sentir como um dos poucos jogadores em campo dispostos a fazer aqueles bloqueios difíceis.

 

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