Sínodo italiano. Nenhum modelo alemão. Todos os problemas acabam vindo à tona (e pouco muda, mesmo que sejam Caminhos Sinodais)

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01 Junho 2021

 

Na Alemanha, os bispos abordam temas como o dos padres casados, do sacerdócio das mulheres, do processo de democratização eclesial, da moral sexual e homossexual. Mas aqui, onde a Igreja permanece sempre hierárquica, docente e clerical, ao invés, nada. Porque são temas "muito particulares" (o Cardeal Bassetti dixit).

A reportagem é de Francesco Lepore, publicada por Linkiesta, 31-05-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Grandes anúncios do "nós eclesial" ao processo de baixo, conforme o próprio Papa Francisco esperava. Mas, na realidade, o Sínodo da Igreja italiana - ou, caso se queira ater-se aos ditames da "Dominus Iesus", da Igreja de Deus que está na Itália -, prospecta-se como algo bem diferente. Ou seja, como uma realidade pré-embalada e vinda de cima, da qual são provas inequívocas as palavras proferidas pelo Cardeal Gualtiero Bassetti, presidente da Conferência Episcopal Italiana, durante a coletiva de imprensa no final da 74ª Assembleia Geral da CEI (27 de maio).

De fato, não irá se falar de padres casados, de sacerdócio para as mulheres, de moral sexual e, especificamente, de homossexualidade, de processo de democratização da Igreja. Todos esses são temas centrais do Sínodo bienal ou Caminho Sinodal alemão. Mas que, segundo o cardeal, são argumentos "muito particulares" e não entre "os fundamentais que atormentam a Igreja e a humanidade neste momento". Para Bassetti, de fato, “os problemas básicos do nosso povo são bem diferentes: são a solidão, são a educação dos filhos que já não sabe mais por onde começar, por isso a Igreja deve ser uma mãe que educa, são os problemas de quem não chega ao fim do mês porque não tem emprego, são os problemas de uma imaturidade afetiva que levam as famílias a desagregar-se. Vamos enfrentar todos esses problemas”.

Mas o que causa assombro é a motivação dada por Sua Eminência, que disse: "O nosso não é um Sínodo, é um Caminho Sinodal", porque, caso contrário, "deveria ser convocado pelo Papa". Ora, considerando que os dois termos são sinônimos tanto que a denominação exata daquele alemão é Caminho Sinodal, ao pontífice cabe a convocação das assembleias sinodais da Igreja universal, não as locais. Para o caso em questão, ele poderia no máximo fazê-lo como bispo de Roma e primaz da Itália.

Ora, o Sínodo italiano ou Caminho Sinodal foi iniciado pelos bispos reunidos na recente Assembleia Geral da CEI, assim como o alemão foi convocada pela respectiva Conferência Episcopal. Não sem uma diferença sideral, que fala muito sobre a orientação daquele italiano: o projeto do itinerário sinodal alemão foi posto em marcha sinergicamente pela Conferência Episcopal alemã (DBK) e pelo Zentralkomitees der deutschen Katholiken (ZDK), que é o órgão oficial de representação dos leigos dentro da Igreja Católica na Alemanha. Estrutura que, é quase pleonástico assinalar, só podemos sonhar no nosso belo país, onde a Igreja na realidade permanece sempre aquela hierárquica, docente, clerical. E, portanto, palavras de Bassetti, "uma mãe que te segura pela mão" e que o povo "deve sentir" como tal igual ao Sínodo, desculpe, Caminho Sinodal, que "quer ser uma carícia maternal da Igreja para pessoas que neste momento estão em extrema dificuldade”.

De uma “Igreja que muitas vezes é mais madrasta do que mãe”, como disse ao Vaticano II um prelado certamente não progressista como Raffaele Calabria, e que, portanto, deveria se questionar sobre si mesma e a renovação a ser implementada, como a Igreja Católica está fazendo na Alemanha, nem mesmo a sombra. Prova, de fato, que mesmo as anunciadas celebrações ecumênicas como o recente 500º aniversário da excomunhão de Lutero (3 de janeiro de 1521), não vão além de meras ocasiões comemorativas ensinando pouco ou nada: uma meditação sapiencial, por exemplo, da famosa e conectada admissão de culpa de Adriano VI (3 de janeiro de 1523) sobre a "doença transplantada da cabeça para os membros, dos papas para os prelados" e sobre a "recuperação" que deve partir do outro, talvez tivesse tido outras consequências benéficas sobre o Caminho Sinodal italiano.

Para Paola Lazzarini, presidente de Donne per la Chiesa, “os bispos italianos estão muito dispostos a enfrentar os problemas sociais ligados ao trabalho, à educação, à solidão, mas impenetráveis quando se trata de colocar em pauta a própria vida da Igreja: seu sistema de governo, a discriminação contra as mulheres, o celibato eclesiástico. Ao mesmo tempo se menospreza o Sínodo alemão, que ao invés disso trata desses assuntos, e também os leigos italianos considerados incapazes de apresentar perguntas difíceis. Recusar-se a falar sobre a exclusão das mulheres não só dos ministérios ordenados, mas também das lideranças, é uma manobra que desqualifica a nossa assembleia dos bispos, em um tempo em que as mulheres expressam com força criativa e vital que sua paciência se esgotou”.

Segundo a socióloga e feminista, “há também uma questão que nem sequer pode ser mencionada: o escândalo dos abusos de menores e mulheres pelo clero italiano. Parece que tudo acabou, com algumas comissões e embaraçosas palavras de desculpas. Não é assim: este Sínodo deve ouvir as vítimas, as suas famílias e também todas as mães e pais que hoje têm medo de mandar os seus filhos à paróquia. Eles não querem ouvir essas coisas? É um sinal claro de que precisam mesmo ouvi-las!”. Por isso, conclui Lazzarini, “se este Sínodo realmente não permitir que o povo de Deus na Itália se expresse sobre o que lhe interessa, será uma perda de tempo e também - é preciso dizer - de dinheiro, em um momento dramático para muitas famílias. Como leiga, como mulher engajada, digo que se querem nos ouvir, devem fazê-lo com seriedade e até o fim. Do contrário, não nos façam perder tempo”.

Estas são todas questões, juntamente com aquelas - para citar algumas - da visão da sexualidade, da presença das pessoas LGBT+, da gestão dos bens eclesiásticos, da presença de comunidades de imigrantes, da relação com a política, da laicidade do estado e do empenho pela paz, justiça e integridade da criação que foram levadas ao conhecimento dos 213 bispos reunidos na 74ª Assembleia Geral da CEI por uma carta assinada por Donne per la Chiesa e por 14 outras organizações: entre estas Adista, Cammini di speranza, Coordenação das teólogas italianas, Pax Christi. A este respeito, é indicativo ressaltar que foram bem poucos prelados que responderam, como, por exemplo, o cardeal Matteo Maria Zuppi, arcebispo de Bolonha, Arrigo Miglio, arcebispo de Cagliari, e Domenico Pompili, bispo de Rieti. De particular importância pela extensão e pelo conteúdo é a mensagem do teólogo e bispo de Assis, Domenico Sorrentino.

Como conseguir, com todo o respeito ao Cardeal Bassetti, ficar convencidos “de que se alguém não tiver coragem, pode ser que o venha a ter se for movido por um desejo maior do que os seus próprios medos. O importante é ter sonhos e desejos maiores do que os medos”. Porque afinal, e os fatos o comprovam, o bom padre Abbondio tem sempre razão, mesmo que seja citado pelo próprio cardeal na presença do Papa: “A coragem, se alguém não a tiver, não se pode dá-la”.

 

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