A covid-19 na América Latina: o que alguns números nos dizem?

Crianças recebendo água para estoque, em Esmeraldas, Equador. | Foto: Gonzalez/Unicef

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

19 Mai 2020

Próximo de cumprir dois meses desde que no Brasil confirmou-se o primeiro caso da covid-19 na América Latina, é difícil saber com certeza qual é a situação real país por país.

A reportagem é publicada por Democracia Abierta e reproduzida por CPAL Social, 14-05-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Na América Latina, como em outras regiões do mundo, as cifras que conhecemos não são homogêneas, nem a metodologia de contagem é a mesma em todos os países, ou se realizam mudanças que distorcem os resultados porque as comparações poderiam ser enganosas e a situação poderia ser muito mais dramática do que refletem os números.

No entanto, é possível ter uma ideia aproximada se fizermos uma recontagem de como avançou o coronavírus Sars-Cov-2 na região, segundo os números oficiais de cada país.

Tomando os números com corte ao 11 de maio, o país com mais casos confirmados na América Latina é o Brasil, com 170.021 casos, seguido pelo Peru com 68.822 e o México com 36.327.

No entanto, e como mostra o gráfico abaixo, Peru é o país mais afetado na região, em relação aos casos confirmados por cada milhão. Em seguida vem Equador, Chile e Brasil.


Total de casos de Covid-19 confirmados por milhão de pessoas

Ainda que isso provavelmente responda às medidas antecipadas que vários governos da região adotaram para conter o contágio, é muito difícil de comprovar. Pode ser ilustrativo repassar as medidas adotadas pelos países latino-americanos mais afetados, para ter uma aproximação da realidade do impacto atual da pandemia.

Peru

Apesar de o Peru ter o maior número de casos por milhão de pessoas, tem um total de mortes registrados relativamente baixo: 1.961. O governo do país instaurou medidas de restrição de movimento exigentes e declarou um estado de emergência. Ademais, tomou medidas ainda mais restritivas da mobilidade nas zonas onde há mais afetados pela covid-19.


Total e casos de morte por Covid-19 no Peru

Equador

O Equador, por sua vez, registrou mais mortes que o Peru, com 2.145 mortes. Como já analisamos (artigo do Democracia Abierta disponível em espanhol, neste link), o Equador viveu momentos trágicos nas últimas semanas, quando os cadáveres estavam empilhados nas esquinas, embora o presidente tenha tomado medidas precoces para restringir a movimentação. O caso do Equador poderia elucidar um problema estrutural comum na América Latina: a forte desigualdade econômica e social resultante da informalidade. A pobreza e a fome obrigam muitas pessoas a deixar suas casas, apesar da ameaça de um vírus que pode ser letal, especialmente em um contexto em que o sistema de saúde pública é precário e totalmente insuficiente diante de uma crise dessa natureza.


Total e casos de morte por Covid-19 no Equador

Brasil

O Brasil, epicentro da pandemia na região, registra 11.519 mortes e a crise da saúde foi liderada por um presidente que não leva a sério a ameaça representada por uma pandemia. Diante dos primeiros casos, Jair Bolsonaro minimizou a doença, chamando-a de “gripezinha”, um pequeno resfriado, e instou a população a continuar trabalhando.

Quando as mortes ultrapassaram 5.000, Bolsonaro respondeu a perguntas de jornalistas: “E daí? O que você quer que eu faça? Meu nome é Messias, mas não faço milagres”.

Em meio a uma pandemia, Bolsonaro demitiu seu ministro da Saúde enquanto participava de várias manifestações contra as medidas de restrição de mobilidade adotadas pelos estados federais e a favor do fechamento do Congresso e da intervenção militar.

Sempre sem máscaras, ele abraçou seus seguidores, ignorando as diretrizes de distanciamento social estabelecidas por membros de seu próprio governo. Na última sexta-feira, 8 de maio, quando as mortes chegaram a 10.000, o presidente anunciou que comemoraria o Dia das Mães na casa presidencial com um churrasco para dezenas de pessoas. Diante de fortes críticas, ele cancelou a festa e passou o dia no lago, andando de jet ski.


Total e casos de morte por Covid-19 no Brasil

 

Embora o coronavírus não pareça ter afetado tão fortemente a região da América Latina como na Europa até hoje, o contexto da América Latina apresenta alguns déficits estruturais importantes que despertam o alerta, e a profunda crise econômica global que está chegando pode ser particularmente dolorosa na região.

A desigualdade, a pobreza, a informalidade da economia e a fraqueza do contexto econômico atual podem tornar essa pandemia uma tragédia como nenhuma outra, aprofundando as diferenças e abrindo ainda mais a lacuna entre quem tem muito e quem não tem nada.

Encontrar o equilíbrio entre medidas para conter a doença e a sobrevivência de milhões de pessoas que ganham a vida diariamente nas ruas das metrópoles latino-americanas será fundamental. À medida que os países reabrem suas economias e relaxam as medidas de quarentena conforme o inverno se aproxima, teremos de permanecer vigilantes com o desenvolvimento imprevisível da covid-19 em um continente muito vulnerável às suas consequências.

 

Leia mais