Encontro em Roma marca o lançamento do “catolicismo africano 2.0”

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28 Março 2017

Um encontro de lideranças católicas africanas em Roma, entre os dias 22 e 25 de março, foi complexo demais para ser resumido em poucas palavras, mas talvez o melhor que possamos fazer é dizer que ele marcou o lançamento do “catolicismo africano 2.0”: uma Igreja mais universalmente orientada, mais honesta sobre si mesma e mais equilibrada em juízo sobre o “outro”.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 26-03-2017. A tradução de é Isaque Gomes Correa.

No filme clássico “A Princesa Prometida”, o personagem Inigo Montoya, já na parte final da obra, se vê no desafio de recontar a trama até então ocorrida. Ele diz: “Explicar... Não, há muita coisa. Me permitam resumir”.

Eu tive uma sensação semelhante na esteira de um encontro, ocorrido entre os dias 22 e 25 de março, com lideranças católicas africanas em Roma sob o lema “Teologia Cristã Africana: Memórias e Missão para o Século XXI”, organizado pelo Centro de Ética e Cultura da Universidade de Notre Dame.

O evento contou com a presença de quatro cardeais, alguns bispos, dezenas de padres e religiosos, bem como vários teólogos, leigos, ativistas, estudantes e outros da Igreja Católica na África.

Após quatro dias, com 46 apresentações e 14 debates, toda tentativa de resumir o encontro é cair em erro. Mas no espírito de tentar dizer algo, eis aqui o que pensei: creio que o que vimos nestes dias foi o surgimento do que chamaremos de “catolicismo africano 2.0”.

Por muito tempo depois do período colonial, a Igreja na África esteve voltada a dois desafios principais. O primeiro, acompanhar os índices astronômicos de seu crescimento; e o segundo, enfrentar os problemas sociais extremamente difíceis do continente, como o conflito armado, a pobreza crônica, a degradação ambiental, conflitos étnicos e tribais, além de casos alarmantes de HIV/Aids.

De forma alguma estes desafios retrocederam. No entanto, o que emergiu do encontro em Roma é uma sensação de maturidade crescente, uma convicção de que o catolicismo africano ultrapassou a infância e adolescência chegando à idade adulta, e que já está pronto para adentrar uma nova fase.

Quais são os traços definidores do catolicismo africano 2.0? Com base na semana passada em Roma, pelo menos três coisas podemos citar.

“Ad extra” bem como “ad intra”

Uma característica da Igreja africana adulta é a sensação de que ela tem uma contribuição a dar não só para a África, mas para o mundo todo e à Igreja universal.

Dom Tharcisse Tshibangu, da República Democrática do Congo, insistiu que a teologia católica africana precisa fazer parte do diálogo global.

“Não é apenas uma questão de teologia africana para os africanos”, disse Tshibangu na quarta-feira passada, “mas uma teologia válida para todos”.

Em entrevista ao sítio Crux, o Cardeal Francis Arinze, da Nigéria, peso-pesado de longa data no Vaticano e que hoje está aposentado, falou que o surgimento de prelados africanos como protagonistas na Igreja global, incluindo as funções importantes que desempenharam nos recentes Sínodos dos Bispos sobre a família, era o resultado orgânico do crescimento da Igreja africana.
“Os bispos e cardeais têm mais experiência do que é a Igreja, e assim estão capacitados a contribuírem mais”, disse. “É apenas um desenvolvimento normal da providência divina”.

Parte deste contexto pode ser que um grande número de padres e religiosos africanos estão neste momento atuando fora do seu continente de origem, portanto há a ideia de que a Igreja universal necessita da África. Parte também pode ser a sensação de que o catolicismo africano tem produzido um profundo corpo de reflexão teológica e prática pastoral, do qual ela se orgulha, e com razão.

Em todo caso, em Roma houve uma forte sensação de que é chegado o “momento africano” na Igreja Católica. Sem desconsiderar os desafios africanos, a Igreja neste continente parece estar cada vez mais pronta a desempenhar um papel importante no cenário mundial.

Honestidade e autocrítica

No passado, geralmente as lideranças católicas africanas assumiriam uma postura defensiva diante de qualquer crítica feita à Igreja do continente, com a preocupação de que ela alimentaria a percepção da África como sendo disfuncional e imatura.

Hoje, todavia, exatamente por causa de um sentimento crescente de autoconfiança, os católicos africanos parecem mais inclinados a honestamente reconhecer suas falhas, sabendo que há pontos fortes suficientes em suas igrejas locais para superarem a tempestade.

O padre nigeriano Paulinus Odozor, organizador do encontro em Roma, falou sobre isso em entrevista ao Crux.

“Precisamos estar preparados para lavar roupa suja em público, onde todo mundo pode ver”, disse. “Se a África quer ser levada a sério como um ator no cenário mundial, ela tem de ser honesta sobre si mesma”.

“Não queremos que as pessoas ouçam apenas as coisas maravilhosas que temos feito. Queremos que as pessoas também ouçam as coisas terríveis que estamos fazendo, e as coisas que não estamos fazendo tão bem”, acrescentou.

Essa reflexão se viu reforçada em todo o evento, conforme atestam os seguintes exemplo:

• Dom Godfrey Onah, da Nigéria, lamentou que, enquanto a África produziu grandes pais da Igreja, hoje ela é mais conhecida por curadores religiosos e centros milagrosos.

• O Pe. Ludovic Lado, jesuíta da Costa do Marfim, relatou que alguns padres na África não apenas praticam feitiçaria, mas também lançam feitiços uns contra os outros.

• A Irmã Maamalifar Poreku, de Gana, não só se queixou de que as mulheres na Igreja africana são, em geral, reduzidas a somente lavar roupas de cama da paróquia e coisas do tipo, mas disse também que o próprio encontro em Roma não lhe trouxera muitas esperanças de que uma mudança acontecerá tão cedo.

Independentemente do que se pense aqui, as pessoas que foram entrevistadas não demonstravam que, ao se portarem assim, prejudicariam o futuro católico africano. A premissa não declarada parece ser: “Já realizamos o bastante a ponto de que falar estas coisas não vai mudar fundamentalmente a equação”.

Equilíbrio sobre o “outro”

Quando o catolicismo africano começava a criar raízes, houve um sentimento de que a sua evangelização era frágil e, às vezes, que havia uma forte hostilidade para com qualquer coisa ou alguém que parecesse ameaçar o poder do catolicismo sobre o seu rebanho.

No contexto africano, isto em geral se traduzia em rivalidade acentuada com duas expressões do “outro” religioso: o Islã e o pentecostalismo.

Embora muitos católicos hoje ainda permaneçam cautelosos nesse sentido, e sem muita razão para tanto, este sentimento vem, cada vez mais, sendo marcado por uma capacidade de reconhecer o que há de bom no outro lado, inclusive para admitir que a competição pelos corações e mentes pode, na verdade, ser saudável.

Dom Matthew Kukah, de Sokoto, no norte da Nigéria, região de maioria muçulmana, surgiu como um dos principais interlocutores do catolicismo africano junto ao Islã, sustentando que a coexistência pacífica é, na prática, a norma africana e que a violência é a exceção.

“Aquilo que as pessoas chamam de conflito cristão-muçulmano, não é muito presente aqui. Penso que a imprensa ocidental é que a vem construindo”, disse ele em entrevista.

“O que realmente chamamos de violência entre cristãos e muçulmanos na Nigéria é não conseguir implementar a lei e a ordem”, disse. “Muitos dos problemas que têm levado à violência tiveram pouco a ver com a religião em si”.

Quanto aos pentecostais, no evento em Roma falou-se bastante sobre o modo como eles “pescam” aqueles que se afastaram da Igreja Católica – dando-lhes empregos, promovendo atividades de encontro para conseguir-lhes futuros cônjuges e buscando seminaristas e padres que desertaram.

Por outro lado, vários participantes também concordaram que o desafio pentecostal é, na verdade, saudável, pois força o catolicismo a “acordar”.

“Ele nos fez entender que não podemos achar que o nosso rebanho não precisa de acompanhamento constante”, disse Obiageli Nzenwa, leiga e consultora de recursos humanos em Abuja, na Nigéria.

Ela disse esperar que o boom pentecostal possa levar o catolicismo a dar mais atenção à importância de formar e auxiliar as mulheres, visto que elas compõem a espinha dorsal da Igreja africana.

Um “catolicismo africano 2.0” parece ser mais confiante, mais honesto sobre si mesmo e menos propenso a emitir juízos sobre o outro.

Dado tudo aquilo que a versão 1.0 realizou, incluindo modelar a comunidade católica mais dinâmica e animada do mundo todo, será fascinante, realmente, ver como a versão 2.0 vai se desenvolver.

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