"Não tenham medo do conflito": a inculturação do Evangelho, segundo Bergoglio

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06 Novembro 2015

Antecipamos aqui o artigo do então padre Jorge Mario Bergoglio, dirigido aos participantes de um congresso internacional de teologia sobre o tema "Evangelização cultura e inculturação do Evangelho", na Faculdade de Teologia da Companhia de Jesus em San Miguel (Argentina) entre os dias 2 e 6 de setembro de 1985.

O encontro foi organizado para celebrar o quarto centenário (1585-1985) da chegada dos jesuítas à Argentina e contou com a participação de teólogos das Américas, da Europa, da Ásia e da África.

O artigo foi retomado pela revista La Civiltà Cattolica, que será publicada no próximo sábado, 7 de novembro, sobre o tema das culturas como reflexo da sabedoria divina.

O jornal Corriere della Sera, 05-11-2015, antecipou o texto. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Quando João Paulo II, no seu discurso à comunidade universitária de Leuven, exortava a "promover uma pastoral da inteligência", proclamava uma verdade: "Fé e cultura procedem ambas da riqueza infinita do Verbo Divino, que é, ao mesmo tempo, razão e sentido, fonte e plenitude".

O Verbo é fonte da fé: da fé que tende, por natureza, a fazer crescer a nossa vida humana para a sua plenitude. O Verbo é plenitude também da cultura: porque em cada culturas, no melhor dela, há uma expressão daquele Verbo, encarnada de um modo particular.

Com base nisso, o pontífice continuava a explicar o seu pensamento, dizendo que "a fé é fonte de cultura, e a cultura é efusão da fé. Essa é a concepção que, sem dúvida, vocês compartilham e que me levou a criar o Pontifício Conselho para a Cultura".

As culturas: lugar de mediação

O Verbo divino é a Sabedoria. Com essa Sabedoria, devemos estreitar uma aliança renovada. A aliança com a Sabedoria eterna implica participar dela em todos os níveis da Sua manifestação. Revelar os mistérios de Deus, criar, restaurar e aperfeiçoar as criaturas: eis muitas outras obras da Sabedoria divina, próprias do Verbo de Deus, Jesus Cristo, Sabedoria encarnada.

Podem-se distinguir dois âmbitos privilegiados de manifestação. Por um lado, o Evangelho, que é revelação do desígnio salvífico da Sabedoria de Deus, por meio do seu Filho, Sua imagem visível. Revelação que salva restaurando e recapitulando todas as coisas n'Ele.

Por outro lado, as diversas culturas, fruto da sabedoria dos povos, são um reflexo, no seu movimento ascendente, da Sabedoria criadora e aperfeiçoadora de Deus. As culturas são o lugar em que a criação se torna autoconsciente no seu grau mais alto. Por isso, chamamos de "cultura" o melhor dos povos, o cume da sua arte, o topo da sua técnica, o que permite que as suas organizações políticas busquem o bem comum, que a sua filosofia dê razão do seu ser, e que as suas religiões liguem-se ao transcendente através do "culto".

Mas essa sabedoria do homem, que o leva a julgar e a ordenar a sua vida a partir da contemplação, não se dá nem abstratamente, nem individualmente, nem instantaneamente: ao contrário, é contemplação daquilo que se trabalhou com as mãos; contemplação que tem origem no coração e na memória dos povos; contemplação que se faz através da história e com base no tempo.

Assim como Cristo, Sabedoria encarnada, é o único Mediador entre Deus e os homens, se poderia dizer que as culturas dos povos, como sabedoria, são lugar privilegiado de mediação entre o Evangelho e os homens, garantidas pelo fato de serem fruto do trabalho coletivo ao longo da história.

O absoluto do Evangelho encontra justamente no coração cultural dos povos, na sua maneira real e sábia de ordenar a sua vida cotidiana degustando valores transcendentes um lugar adequado para se encarnar, uma terra fecundo para fazer com que o homem cresça pelo seu próprio impulso, que é o modo de evangelizar, criar, restaurar e aperfeiçoar de Deus.

Quando refletimos que a fé e a cultura vêm da infinita riqueza do Verbo divino, que é, ao mesmo tempo, razão e sentido, fonte e plenitude, estamos reivindicando ao encontro entre fé e cultura, no seu duplo aspecto de evangelização da cultura e de inculturação do Evangelho, "um momento sapiencial", essencialmente mediador, que é garantia tanto da origem (movimento de criação) quanto da sua plenitude e fim (movimento de revelação).

Desse modo, a Sabedoria que cria e planifica, assim como caminhou entre nós, assim também entra na modelagem do próprio processo cogniscitivo e constitui – com o seu próprio ser mediador – um "momento" do ato cogniscitivo: momento que envolve "encontro" – neste caso, entre fé e cultura –, momento fundamentalmente sapiencial.

O momento sapiencial na relação Evangelho-cultura, que usa a linguagem de "evangelizar a cultura e inculturar o Evangelho", responde ao ser da própria Sabedoria, cujo ato principal é a contemplação: contemplação de Cristo na fé, mediante o Evangelho e a Igreja; contemplação de cada cultura.

A partir da consideração do Verbo encarnado, seguindo o convite de João Paulo II para buscar uma "renovada aliança" com a Sabedoria eterna, passamos, portanto, para o "momento sapiencial" no processo de encontro entre fé e cultura, no qual a contemplação implica uma capacidade conatural de compreensão do Evangelho e das culturas, que nos é dada somente pela amorosa Sabedoria.

Inculturação e santidade

Na tarefa de evangelizar as culturas e de inculturar o Evangelho, é necessária uma santidade que não tema o conflito e seja capaz de constância e paciência. Acima de tudo, a santidade implica que não se tenha medo do conflito; implica parrésia, como diz São Paulo.

Enfrentar o conflito não para ficar enredado nele, mas para superá-lo sem evitá-lo. E essa coragem tem um enorme inimigo: o medo. Medo de que, em relação aos extremismo de um sinal ou de outro, pode conduzir ao pior extremismo que se pode tocar: o ''extremismo do centro", que anula qualquer mensagem.

A parrésia é criativa e, portanto, não fica envolvida por nenhum extremismo. Portanto, a parrésia apostólica é uma das características da santidade que hoje deve agir no campo da cultura.

Uma segunda característica da santidade que nos é pedida, especialmente na tarefa da evangelizar as culturas e inculturar o Evangelho, é a constância e a paciência, a outra face da coragem, a hypomone.

É a paciência apostólica de todos os dias, que nos leva à contemplação do sofrimento e da festa, da alegria e da dor.

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