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14 Setembro 2016

O evento reuniu em Porto Alegre mais de 90 participantes de 25 municípios do estado entre entidades sociais e de luta, Defesa Civil, pesquisadores da temática ambiental até representantes da agricultor familiar, camponeses, povos indígenas e quilombola.


Foto: Marcel Ribeiro/COESUS/350Brasil

A reportagem é de Silvia Calciolari, com informações de Aline Gallo, Assessora de Imprensa da Cáritas RS e publicada por naofrackingbrasil, 13-09-2016.

Na última sexta-feira, dia 09, aconteceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, o Seminário Estadual de Mudanças Climáticas, Matriz Energética e Justiça Social. O objetivo do evento foi aprofundar o conhecimento sobre como as mudanças climáticas estão afetando a vida da Mãe Terra e os seres que nela habitam.

O encontro foi uma iniciativa organizada pela Cáritas Brasileira – Regional do Rio Grande do Sul (Cáritas RS), Fundação Luterana de Diaconia (FLD), Avesol (Centro de Referência em Direitos Humanos da Avesol), Centro de Inteligência Urbana (CIUPOA) e Defesa Civil de Porto Alegre (GADEC). Com uma abertura muito energética feita pela atriz Silvia Duarte, o evento contou com aproximadamente 90 participantes vindos de 25 municípios do RS e serviu como uma grande troca de experiências e de conhecimento.

Os especialistas também debateram as causas e consequências destas alterações, dando visibilidade às alternativas sustentáveis e de resistência que estão sendo vividas e implementadas pelos grupos nos diferentes territórios e comunidades. Entre as causas para as alterações radicais do clima está o fraturamento hidráulico, método não convencional altamente poluente usado para exploração do gás de xisto também conhecido como FRACKING.

Países como Alemanha, França, Bulgária (entre outros) já proibiram essa tecnologia minerária. Nos Estados Unidos é uma prática aceita e as consequências têm sido muito aparentes: para termos ideia, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, em 2009 houve 20 tremores de magnitude 3,0 ou superior, de acordo com o Serviço Geológico; no ano passado, foram 890. O último aconteceu no início de setembro deste ano, com a magnitude de 5,6 graus.

No Brasil, alguns municípios já proibiram; outros ainda estão totalmente desprotegidos, e entre eles está o Rio Grande do Sul – fato que deve ser muito alarmante para a população da região, pois a ação da indústria do Fracking acontece de maneira muito silenciosa e tem apoio do governo federal. Além disso, o país vizinho ao estado, Argentina, também já está fazendo uso da técnica que num futuro próximo também pode ocasionar terremotos e trazer outras consequências a todo o bioma da região.O clima da Terra está mudando

Durante as discussões, expuseram conteúdos o ambientalista e agrônomo Arno Kayser, o Professor da UFRGS e pesquisador Francisco Aquino, e o assessor nacional do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social (FMCJS), Ivo Poletto, respectivamente, sobre a matriz energética e o modelo de desenvolvimento do RS, mudanças climáticas e impactos na região sul do Brasil e, por último, a 21ª Conferência do Clima (COP21).

Arno Kayser, entre tantas informações latentes, apresentou dados que salientam a nossa dependência do petróleo e seus derivados para produção energética, salientando ser esta a principal fonte de gases de efeitos estufa e motivo de muitas guerras, esquemas de corrupção e fortes interesses das multinacionais.

Francisco Aquino tem a convicção de que a ação do ser humano alterou e está alterando o clima da Terra, que se apresenta cada vez mais quente. Os sastres naturais associados ao clima, mensurados desde 1980 para cá, só aumentam e este fato está extremamente relacionado ao humor da atmosfera da Terra: “e ela anda muito mal-humorada”, afirma o pesquisador. O nível de gás carbônico atual bate recorde com números extremamente altos sobre qualquer outro nível que já existiu no nosso Planeta, mesmo em época de extinções de espécies. Analisando números de suas pesquisas somados ao que está acontecendo no macro-ambiente, Aquino conclui que “o cenário é pior do que o previsto”. Lembrou ainda dos últimos desastres que aconteceram este ano no RS – como o tornado em Porto Alegre e outro na região das missões – e prevê tempestades maiores e mais intensas na região sul do país.

Para Ivo Poletto está mais do que claro que temos um problema a enfrentar. Ele apresentou alguns relatos sobre a COP21, e questiona o porquê, somente agora, depois de 21 Conferências Internacionais e 40 mil pessoas mobilizadas em cada uma delas, se chegou ao primeiro acordo possível de colocar em prática – o Acordo de Paris –, mas que, no entanto, não estabelece prazos para o cumprimento das metas nele definidas: “o Acordo agora tem reconhecimento, coloca meta de desejo, mas não tem prazo! Deveria ter uma ação que todos assumissem juntos e com datas de execução, é a lógica! E no documento não está assim”, afirma o assessor.

Por outro lado, ele diz que o Acordo, diferentemente de publicações como as do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), foi capaz de acabar com a polêmica internacional de que a mudança climática não está acontecendo; pelo contrário, este fato foi politicamente reconhecido e aceito pelos 190 países presentes no encontro chegando à conclusão que estamos frente a um grave desafio planetário, em processo de aquecimento constante e que a humanidade como um todo precisa enfrentar.

Foi unânime a opinião dos presentes no Seminário, desde o agricultor familiar, indígena, quilombola, camponês, passando pelos representantes das entidades presentes até os estudiosos da temática, que existe um grande desafio a ser enfrentado por todos. Como ressaltou Poletto, é necessário reavaliarmos o que realmente significa o termo desenvolvimento econômico para a humanidade. Segundo os dados apresentados e relatos do IPCC o recado é que vamos ter que mudar o nosso sistema que vivemos, o modo que consumimos, pois, como diz o lema do movimento do Grito dos Excluídos deste ano, “este sistema é insuportável: exclui, degrada e mata!”. Com as entidades presentes ficou o papel de levar este tipo de conhecimento também para o interior do estado, de maneira descentralizada, focando não somente na capital gaúcha.

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