Zaratustra, o misterioso. Artigo de Gianfranco Ravasi

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10 Agosto 2016

"Zaratustra entrou em cena muito antes de Cristo, embora em uma época tão indefinida e flutuante que as hipóteses dos estudiosos oscilam entre o fim do segundo milênio e o início do século VI a.C., a tal ponto que não faltaram também aqueles que o remeteram ao limbo de uma figura mítica, protótipo de uma religiosidade ela mesmo já fluida e móvel."

A opinião é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 07-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Also sprach Zarathustra: mesmo quem nunca leu uma linha dela conhece o título dessa obra capital que Nietzsche elaborou entre 1883 e 1885, e que é considerada crucial para definir a evolução do pensamento e do estilo do filósofo alemão. O fato de que as palavras desse misterioso fundador de uma religião que leva o seu nome deformado ao ocidental – isto é, zoroastrismo (ou mazdeísmo, a partir do nome da sua divindade suprema, Ahura Mazda) – tenham sido livremente criadas por Nietzsche é tão evidente que ele não hesita em cruzá-lo até com Jesus: "O homem de Nazaré conhecia apenas as lágrimas e a melancolia do judeu (...) Ele morreu cedo demais: ele mesmo teria se retratado da sua doutrina, se tivesse chegado à minha idade".

Na realidade, Zaratustra entrou em cena muito antes de Cristo, embora em uma época tão indefinida e flutuante que as hipóteses dos estudiosos oscilam entre o fim do segundo milênio e o início do século VI a.C., a tal ponto que não faltaram também aqueles que o remeteram ao limbo de uma figura mítica, protótipo de uma religiosidade ela mesmo já fluida e móvel.

Por isso, fazer o ponto histórico-crítico sobre o zoroastrismo é uma obra árdua, que requer um extraordinário instrumentário filológico e uma particular ductilidade hermenêutica. É o que revela um dos maiores especialistas italianos em literatura, história e religião iraniana, Antonio Clemente Domenico Panaino, da Universidade de Bolonha.

A sua escolha didática é nítida. Acima de tudo, ele nos leva pela mão ao longo do traçado histórico em cujo leito essa religião brotou, cresceu, evoluiu e também secou sob o peso de novos poderes políticos e religiosos. É uma verdadeira cavalgada ao longo dos séculos e das extensões do território iraniano e dos países vizinhos.

É interessante notar, por exemplo, que os incipit das inscrições em persa antigo de imperadores célebres como Dário ou Xerxes sejam colocados sob a insígnia do chefe supremo do panteão zoroastriano: "O grande Deus é Ahura Mazda que criou o homem, que criou a bem-aventurança para o homem, que fez Dario rei, um só rei entre muitos reis, um só soberano entre muitos". "Diz Xerxes, o rei: ‘Logo que me tornei rei, havia entre os países (…) alguém que se rebelara. Posteriormente, Ahura Mazda me trouxe ajuda..."

Depois dessa sucessão no horizonte variado da história, abre-se diante de nós o fascinante mundo da teologia e do culto mazdeísta. A base escriturística é o Avesta, o cânone sagrado de muitos textos, compostos em uma língua antigo-iraniana oriental chamada justamente de avéstico, que se bifurca em duas tipologias, a antiga e a recente.

A evolução histórica condiciona o modelo teológico-ritual, que, portanto, deve ser reconstruído recorrendo também a fontes externas clássicas, judaicas, siríacas, armênias e árabes, ou àquelas em pahlavi, a língua da Pérsia sassânida (224-636 d.C.), um curioso fenômeno linguístico autônomo que havia adotado um alfabeto derivado do aramaico.

Panaino abre a cortina sobre um complexo sistema cerimonial que inclui uma liturgia solene celebrada dentro de um Templo do Fogo, o símbolo identitário já em nível universal do zoroastrismo.

Naturalmente, outros rituais revelam um arco-íris de atos, de temas, de tramas, de sinais. A esse sistema, subjaz uma teologia que se ramifica ao longo de vários percursos ideais que atraem pela sua criatividade. Muito sugestiva, por exemplo, é a reflexão sobre a categoria "tempo" que é entrelaçada com a categoria espacial da cosmologia, gerando uma tensão entre tempo finito e infinito. Tem-se, assim, a transição e o ingresso no eterno, onde brilha a doutrina escatológica da ressurreição e do juízo final, uma concepção que – de acordo com muitos exegetas bíblicos – exerceu uma influência significativa sobre a fé do judaísmo pós-exílico.

Mas é precisamente dentro da criação e da história, destinada a avançar rumo àquela meta extrema, que se delineia um forte dualismo. De fato, contrapõem-se dialeticamente Ohrmazd (que é Ahura Mazda em pahlavi) e Ahreman como dois polos antitéticos. "Enquanto Ohrmazd extrai da sua luminosa ipseidade a própria criação, Ahreman, sob a forma de rã monstruosa, desejosa de copiar o mirabolante desenvolvimento do reino de luz, realiza uma contracriação, fruto de um ato de sodomia sobre si mesmo".

Transpassa-se, assim, a um dualismo ético que repercute na história humana e que postula uma salvação do mal penetrado e "misturado" com o bem na existência. Luz e trevas se emaranham, divino e demoníaco se entrelaçam já no primeiro ser humanoide, Gayomart, "vida mortal", na espera do processo que conduzirá, depois da morte, ao juízo individual aberto sobre a trilogia inferno-purgatório-paraíso.

Tudo isso é confiado a uma descrição mítica repleta de figuras, de símbolos, de narrativas metafóricas, de piscadelas, capazes de criar uma certa vertigem no leitor que se assoma pela primeira vez de modo rigoroso sobre esse horizonte tão ramificado e complexo. Os trechos descritivos a que recorrermos até agora levam a intuir quantos pontos de vista a mais a análise de Panaino consegue descerrar diante daqueles que prosseguem como um peregrino estupefato em uma terra incógnita ou conhecida apenas por estereótipos.

O que resta do zoroastrismo, depois do colapso do império sassânida e da erupção árabe-islâmica? Essa é a última etapa do ensaio do estudioso de Bolonha, que investiga também o contato do cristianismo missionário principalmente com o mazdeísmo indiano, e que chega à crise lenta e inexorável dessa religião reduzida talvez a pouco mais de 200 mil fiéis entre a Índia e a Pérsia.

Porém, deve-se registrar o fenômeno do neozoroastrismo que tem a sua expressão no Mazdaznan, um movimento fundado na Califórnia por Otto Hanisch (1844-1936), um iraniano de pai russo e mãe alemã, ou no movimento de Meher Baba, ou seja, Merwan Shehariarij Irani (1894-1964), de conotações sincretistas. Mas se trata de reanimações marginais de uma tradição e de um patrimônio cultural e espiritual muito mais grandioso.

Em nível popular, o mazdeísmo – que, repetimos, tem uma sofisticada concepção cosmológica, antropológica, escatológica e até messiânica – tem como emblema o fogo, um símbolo ritual certamente significativo, diante do qual se realiza a haoma, a ingestão do suco de um vegetal sagrado, uma espécie de ambrosia de imortalidade.

Por isso, no apêndice ao texto, são indicados alguns "lugares para visitar", tanto histórico-arqueológicos (Persépolis, Pasárgada e o túmulo de Ciro, o Grande), quanto religiosos (Yazd e Kerman) com santuários, Templos do Fogo, Torres do Silêncio, embora nem sempre acessíveis aos não zoroastrianos.

Para aqueles que puderem realizá-la, continuará sendo, no entanto, uma experiência sugestiva, como aconteceu comigo em Baku, no Azerbaijão, no templo Atashagh (século XVII), cujos fogos são perenes por serem alimentados por fluxos de gás natural que filtram à superfície pela porosidade da pedra calcária.

  • Antonio C.D. Panaino. Zoroastrismo. Storia, temi, attualità. Bréscia: Morcelliana, 178 páginas.

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