A encíclica Laudato Si’ e o modelo de desenvolvimento

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Por: André | 03 Agosto 2016

“O fato de que a crítica ao sistema econômico vigente se situe no centro da Laudato Si’ diz claramente que o peso específico do texto é mais político que teológico ou ambiental. A encíclica coloca em questão a lógica produtivista do atual modelo de desenvolvimento baseado na agricultura industrial, no extrativismo, na mercantilização da natureza, na aliança entre a economia e a tecnologia e no mito do crescimento infinito.”

A reflexão é de Rubén Gilardi, em artigo publicado por ALAI AMLATINA, 29-07-2016. A tradução é de André Langer.

Rubén Gilardi é líder nacional da AOED Argentina (Aliança das Organizações da Sociedade Civil para a Eficácia do Desenvolvimento) e integra a equipe do Instituto Internacional de Estudos e Capacitação Social do Sul – INCASUR.

Eis o artigo.

Durante o século XX, difundiu-se a ideia de que os países em desenvolvimento deviam copiar as receitas dos países mais industrializados para conseguirem uma evolução progressiva para níveis de vida melhores. A visão do desenvolvimento era essencialmente econômica. Crescimento e desenvolvimento eram sinônimos para muitos economistas.

Depois, vozes críticas expuseram que o subdesenvolvimento não era uma fase anterior ao desenvolvimento, mas a consequência do colonialismo e do imperialismo; surgem também críticas centradas na questão ambiental a partir do Clube de Roma e da Cúpula de Estocolmo. Os diferentes relatórios concordam em que o aumento da industrialização, a poluição e o consumo de recursos tinham limites e que ultrapassá-los nos levaria a um colapso planetário.

Um momento importante nessa época e que se apresentava como um ponto de inflexão foi a Conferência do Rio, em 1992, na qual se chegou a acordos sobre o necessário equilíbrio entre o ambiente e o desenvolvimento. Mas, apesar das múltiplas reuniões sobre o ambiente e a mudança climática, nada fez mudar o rumo ou diminuir a marcha do modelo de desenvolvimento globalizado.

Hoje, muito poucos negam o estado crítico do planeta próximo a uma catástrofe ambiental e a responsabilidade do homem em geral e dos países mais desenvolvidos, em particular, como causadores desta crítica situação. Alguns chefes de Estado fizeram fortes críticas e a Bolívia organizou um encontro internacional sobre a mudança climática e a responsabilidade do modelo de desenvolvimento, mas ninguém imaginava que as críticas mais duras ao sistema viriam do Vaticano e através de uma encíclica papal – a Laudato Si’, do Papa Francisco.

1. Laudato Si’: características

Esta encíclica tem importância planetária do ponto de vista religioso, ético, social e político. Em muitos meios de comunicação foi chamada de encíclica verde que trata da mudança climática; mas isso é minimizar e reduzir seu alcance. É uma encíclica sobre a nossa casa comum, sobre a maneira como a habitamos e um apelo urgente para modificar um sistema de “super desenvolvimento esbanjador e consumista”.

Apresenta uma análise da situação ambiental no mundo, faz severas críticas ao modelo capitalista consumista, responsabiliza os poderes econômicos e os países desenvolvidos por grande parte dos desastres ecológicos, mas vinculando ao mesmo tempo o tema central do cuidado do ambiente e da natureza com a defesa da vida e da dignidade das pessoas, da pobreza e da exclusão no mundo e pede para encarar a realidade de outra maneira.

2. Apoios e questionamentos

Ela foi recebida com elogios por defensores do meio ambiente, cientistas, dirigentes sociais, líderes religiosos e chefes de Estado, mas com frieza e rejeição pelos setores mais conservadores da Igreja e por setores políticos de direita.

Cientistas, filósofos, religiosos e militantes sociais elogiaram a encíclica:

– Edgar Morin, filósofo e sociólogo francês, disse: “Esta mensagem é, talvez, o primeiro ato de um apelo para uma nova civilização”.

– Humberto Maturana, biólogo chileno: “...intuímos que ela terá grande importância na expansão da consciência que a Humanidade necessita para superar a pós-modernidade. Vemos nela uma contínua referência à profunda interconexão entre todas as coisas, uma crítica dura e direta ao olhar fragmentado que costumamos ter e, muito especialmente, ao poder que concedemos ao dinheiro”.

– Leonardo Boff, teólogo, sacerdote franciscano, filósofo, escritor, professor e ecologista brasileiro: “A encíclica é a Carta Magna da ecologia integral e a sua principal contribuição é o fato de que o Papa assume um novo paradigma ecológico, de acordo com o qual todos os seres são interdependentes e estão em relação”.

3. A conjuntura ambiental e geopolítica em que ela aparece

E encíclica foi publicada em um momento marcado por uma encruzilhada ambiental, de caráter indubitavelmente estrutural, consequência de um sistema de produção e de consumo que é o principal responsável pela mudança climática que nos toca viver e um dos grandes desafios da atualidade, com profundas implicações sociais e econômicas.

Por outro lado, estamos em uma mudança de época em que mudaram as relações de força internacionais, pela emergência de blocos de poder alternativos que transitam rumo a um mundo multipolar, com avanços e dificuldades. Uma mudança que sofre as resistências do sistema unipolar centrado no unilateralismo dos Estados Unidos como potência militar imperialista mundial.

Surge, naturalmente, a comparação com João XXIII. Na época da publicação da sua encíclica Pacem in Terris (1963), o mundo parecia estar à beira de uma guerra nuclear; hoje, a destruição sem precedentes dos ecossistemas e a mudança climática fazem com que a cada dia ganhem mais força as previsões catastróficas.

4. O papel do Vaticano na etapa de Francisco

O Papa, cabeça da maior comunidade religiosa unificada do mundo, é, atualmente, um ator influente no processo de globalização.

Ao contrário de João Paulo II, um Papa de um mundo bipolar, claramente identificado com um dos pólos, Francisco aparece como um Papa mais vinculado ao multilateralismo, apostando na construção de um mundo com uma variedade de jogadores e com maior equilíbrio.

As duras críticas do Papa Francisco à globalização e à desigualdade mostraram-no como um líder que não teme misturar a teologia e a política. Agora também está mostrando o poder diplomático do Vaticano, que, graças à sua valorização internacional, possibilitou-lhe resolver conflitos, aproximar posições e recuperar o histórico prestígio diplomático do Vaticano.

5. A encíclica e o atual modelo de desenvolvimento

O fato de que a crítica ao sistema econômico vigente se situe no centro da Laudato Si’ diz claramente que o peso específico do texto é mais político que teológico ou ambiental. A encíclica coloca em questão a lógica produtivista do atual modelo de desenvolvimento baseado na agricultura industrial, no extrativismo, na mercantilização da natureza, na aliança entre a economia e a tecnologia e no mito do crescimento infinito.

Para o Papa Francisco, os desastres ecológicos e a mudança climática não resultam simplesmente de comportamentos individuais – embora eles tenham seu papel –, mas dos atuais modelos de produção e de consumo; fica muito claro que para ele, os dramáticos problemas ecológicos da nossa época resultam das engrenagens da atual economia globalizada, engrenagens que constituem um sistema global, um sistema de relações comerciais e de propriedade estruturalmente perverso.

Esta perversidade ética e social, disse Francisco, não é peculiar a um ou outro país, mas um sistema mundial, onde primam a obsessão do crescimento ilimitado, o consumismo, a tecnocracia, o domínio absoluto das finanças, a divinização do mercado, a especulação e uma busca da renda financeira que tendem a ignorar todo contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e o meio ambiente.

6. A alternativa proposta por Francisco

Francisco propõe, sobretudo, um novo modelo de desenvolvimento, baseado na sobriedade e na solidariedade. Propõe desacelerar o ritmo de produção e de consumo atuais, o que pode dar lugar a outro modo de progresso e de desenvolvimento.

Assume que é impossível seguir no caminho do crescimento das economias industriais, argumentando que a destrutividade do modelo capitalista de desenvolvimento e de consumo torna necessária uma mudança radical das técnicas e das finalidades da produção e, portanto, do modo de vida.

Afirma explicitamente que a solução para os nossos problemas globais requer uma nova forma de pensar, uma mudança dos valores antropocêntricos (centrados no homem) para os valores ecocêntricos (centrados na Terra). É uma visão do mundo que reconhece o valor inerente da vida não humana, onde todo o mundo e todas as coisas estão interconectados. Uma economia que, através da sua visão sistêmica e transdisciplinar, avalia os custos e benefícios considerando os interesses do conjunto social e transcende a perspectiva do paradigma econômico atual.

Propõe que os pobres e marginalizados devem ser o centro da nossa preocupação e, finalmente, diz que o desafio moral é intergeracional. Como poderia a nossa geração condenar os nossos filhos e seus filhos a viver em um mundo cada vez mais insuportável?

Pode-se estar de acordo ou não com as propostas de Francisco, mas diante da orfandade de propostas sobre alternativas ao modelo de desenvolvimento e da falta de crítica das diferentes propostas que surgiram na última década com governos populares na América Latina e que hoje sofrem um retrocesso, a encíclica oferece a possibilidade de fazer esse debate sobre outro mundo diferente e possível.

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