“Não caiamos na armadilha de tornar-nos bárbaros também nós”

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19 Julho 2016

“Agora é preciso retornar a uma vida normal, mas sem destruir as nossas liberdades. Devemos evitar que também nós nos tornemos “bárbaros”, que nos tornemos torturadores como aqueles que nos odeiam”.

Tzvetan Todorov é búlgaro, mas vive na França há décadas. Um dos seus ensaios mais famosos é O temor dos bárbaros, no qual o célebre filósofo teoriza o risco da violenta deriva da Europa: por causa do clima de pavor e tensão perenes, a relação com outro e, sobretudo com o Islã, pode tornar-se sempre mais difícil. Enquanto Nice e a França, após a chacina de 14 de julho, procuram uma normalidade inédita, para alguns demasiado brusca, para Todorov o importante é não habituar-se ao terror. E muito menos a uma sociedade ultra vigiada.

A entrevista é de Antonello Guerrera, publicada por Repubblica, 18-07-2016. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis a entrevista.

Por que, professor Todorov?

A relação com o outro e, sobretudo com o Islã, pode tornar-se sempre mais difícil. Enquanto Nice e a França, após a chacina de 14 de julho, procuram uma inédita normalidade, para alguns demasiado brusca, para Todorov o importante é não habituar-se ao terror. E também não a uma sociedade ultra vigiada.

Porquê, professor Todorov?

Porque temo que a Europa possa tornar-se como Israel, com medidas de segurança tão restritivas, cujos benefícios me parecem menores relativamente às consequências negativas. Dar demasiado poder aos serviços de inteligência e à vigilância, sem limites e sem punir os abusos, é o primeiro passo para um Estado totalitário. O fato é que estamos no décimo ataque jihadista contra a França no último ano e meio.

Por que o seu País é tão odiado pelos extremistas islâmicos?

A palavra “ódio” não é exata. Aqui não estão em jogo os sentimentos, mas as razões. E, principalmente, são duas as causas dos ataques: uma presença militar francesa mais marcada nos países muçulmanos e uma minoria islâmica muito ampla no País. A este propósito, há alguns dias o Imã de Nimes se demitiu porque, segundo ele, a comunidade islâmica, também a moderada, não se distanciaria nitidamente dos extremistas.

O que você pensa sobre isso? O Islã moderado deveria agir mais?

Mais que as mesquitas e o ambiente familiar, eu creio que o verdadeiro problema seja a propaganda on line que permite uma radicalização rápida, como aquela acontecida ao killer de Nice. Que de fato não era um muçulmano muito praticante, que não frequentava a mesquita e bebia. Era um desequilibrado. E os desequilibrados são presa fácil. Esta é a nova fronteira do terror e tem pouco a ver com a comunidade islâmica.

Mas a pista do radicalismo islâmico foi confirmada também por Valls. A seu ver, existe um problema que se refere diretamente também ao Islã?

Se uma religião, seja ela qual for, se torna a ideologia fundamental de um Estado, os valores democráticos estão ameaçados. Certamente, hoje em dia é preciso admitir que o Islã aspira a este papel mais do que outras religiões.

Segundo o chefe da intelligence interna, Patrick Calvar, a França poderia rapidamente encontrar-se à margem de uma “guerra civil” que envolveria sobretudo os muçulmanos. O que você pensa a esse respeito?

Não me parece uma previsão muito realista. Mas, é claro que há extremistas de ambas as partes que aspiram por este cenário. E quem sabe quem o iniciará.

O multiculturalismo ainda é um sistema social realista?

Certamente é o estado natural de todas as culturas. A xenofobia, as pulsões sobre a identidade tradicional não estão destinadas a durar. Uma cultura que não muda é uma cultura morta.

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