"Diaconisas? É mais urgente mudar a estrutura piramidal na comunidade dos fiéis." Entrevista com Antonietta Potente

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30 Junho 2016

"Não está em jogo apenas o fato de sermos admitidas ou não como diaconisas ou sacerdotisas, mas está em jogo, na minha opinião, a mudança estrutural na comunidade de fiéis. De uma pirâmide à circularidade." Quem pensa assim é uma mulher. A teóloga moral Ir. Antonietta Potente, dominicana de 57 anos, radicada agora em Turim.

A reportagem é de Pablo Lombo, publicada no sítio Vatican Insider, 27-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ela viveu 18 anos na Bolívia, onde experimentou uma forma de vida comunitária com os camponeses indígenas. Professora de Teologia Moral no Angelicum, em Roma, na Faculdade Teológica da Itália Central, em Florença, e na Universidade Católica de Cochabamba (Bolívia), também foi membro da Conferência Latino-Americana de Religiosos e Religiosas e colabora com o Instituto Ecumênico de Teologia Andina de La Paz.

Entrevistamo-la às margens da palestra sobre as "Mulheres nas Escrituras", que ela proferiu durante a apresentação do "Relatório Social 2015" da associação Orizzonti-Maidan, gerida pelos camilianos de Turim.

Eis a entrevista.

Na sua opinião, as mulheres poderiam ter um papel maior na Igreja com o magistério do Papa Francisco?

Eu admito que o Papa Francisco deu outra chave de leitura sobre tudo e também resgata um pouco o fato de ignorar as mulheres por muito, muito tempo. Não digo por séculos, porque acredito que, no primeiro século, elas eram muito mais protagonistas do que somos hoje. Mas, certamente, depois caímos na sombra. Não é que não nos seja dado um lugar, mas é um lugar como o de Sara, que fica na tenda e olha a partir de lá. Eu acredito que, neste momento, como está acontecendo em relação aos casais separados, à questão gay, às uniões civis, também nisto está acontecendo alguma coisa. Para mim, sinceramente, o que inquieta um pouco é que nós, mulheres, ainda devamos esperar que os homens se ponham de acordo para decidir se somos admitidas ou não.
 
O que você pensa sobre o debate que se criou em torno da possibilidade de abertura às diaconisas?

A questão das diaconisas, que é um papel, parece-me um pouco como as cotas rosas dos partidos: vejamos qual é o partido que tem mais mulheres. Em vez disso, o que se deveria fazer e reconhecer é essa grande presença alternativa, essa leitura alternativa que nós fazemos da história há séculos. E até mesmo deixar-se criticar um pouco por nós, mulheres. Enquanto nos cercarmos de mulheres que só saibam concordar, não vai mudar nada. Na Igreja, é realmente necessária uma certa crítica, porque não está em jogo apenas o fato de sermos admitidas ou não como diaconisas ou sacerdotisas, mas está em jogo, na minha opinião, a mudança estrutural na comunidade de fiéis. De uma pirâmide à circularidade, porque, apesar do Papa Francisco, a estrutura piramidal ainda existe.
 
Assim como aquele clericalismo tantas vezes denunciado pelo Papa Francisco...

Não é bom esse sentimento de pastores investidos de algo muito maior do que aquilo que é a investidura cotidiana de tantas mulheres e também homens. Além disso, eu acredito que, se admitíssemos as mulheres ao sacerdócio, também seria preciso também admitir todos os leigos que já se reconhecem em uma vocação desse tipo. Mas, se a Igreja continuar com essa estrutura piramidal, se as comunidades continuarem com essa estrutura, parece-me difícil. Tanto no que diz respeito às mulheres, ao fato de se estar presente na formação ou a exercer determinados ministérios. Acho que o maior obstáculo é essa grande estrutura, que já tem séculos.
 
No relatório final do Sínodo sobre a família, afirma-se que "a presença dos leigos e das famílias, em particular a presença feminina, na formação sacerdotal favorece a apreciação pela variedade e pela complementaridade das diversas vocações na Igreja". Assim, as mulheres poderiam encontrar mais espaço em geral na vida das comunidades?

Sim, por exemplo, na América Latina, isso acontecia muito. A maioria dos estudantes da faculdade onde eu ensinava na Bolívia eram seminaristas ou religiosos, chamados depois ao sacerdócio. O problema é que, provavelmente, somos poucas vozes em relação a todo o resto da formação. Eu sou muito crítica...
 
Você viveu com os camponeses aimará da Bolívia. O que os leigos e a Igreja em geral poderiam aprender com as mulheres indígenas?

Eu acho que podem aprender muito. Elas, as mulheres, têm uma grande capacidade estratégica e de existência. Parece-me que elas se assemelham àquelas mulheres bíblicas, que, nos momentos mais desesperados de um povo, conseguem encontrar estratégias particulares de vida, de vida concreta, isto é, não só de ideias, de palavras. No fim das contas, quem sustenta a economia lá também são as mulheres, tanto a economia informal quanto a reconhecida. É verdade que, se olharmos superficialmente, talvez nas reuniões comunitárias, parecem que os homens falam e que as mulheres não participam. Estando lá, pareceu-me o contrário. As mulheres têm uma força, não é só como papel, mas também como pensamento, porque o pensamento na cultura indígena é feminino. Eu não digo um feminino excludente, porque, na cultura deles, há um claro equilíbrio.

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