"Papa Francisco, um soldado corajoso de Cristo, servo dedicado do povo." Entrevista com Sua Santidade Karekin II

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27 Junho 2016

Entrevista com Sua Santidade Karekin II, Supremo Patriarca e Catholicos de todos os Armênios, poucas horas antes da chegada do Papa Francisco à Armênia: a sua amizade com Bergoglio, a preocupação com a situação em Nagorno-Karabakh, a gratidão do povo armênio pela celebração, há um ano, do 100º aniversário do genocídio armênio no Vaticano.

A reportagem é de M. Chiara Biagioni, publicada no sítio do Servizio di Informazione Religiosa (SIR), 24-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"O nosso povo – diz – é um povo martirizado, uma nação que viveu a dor e o sofrimento, que sempre respondeu à morte com a vida, vivendo com uma fé inabalável em Deus."

Nenhuma nunciatura, nenhum arcebispado. Papa Francisco será hóspede, com toda a sua comitiva, na residência de Etchmiadzin, sede da Igreja Apostólica Armênia, e quem irá acolhê-lo será Sua Santidade Karekin II, Supremo Patriarca e Catholicos de todos os Armênios.

A poucas horas da chegada do papa à Armênia, o Catholicos Karekin II aceitou repassar com o SIR a história da amizade que o liga a Bergoglio, desde os tempos de tempo Buenos Aires.

Em 2013, ele foi a Roma para participar da sua eleição pontifícia na Praça de São Pedro. Um gesto de fraternidade que o papa retribuiu dois anos depois, em abril de 2015, quando, na Basílica de São Pedro, na presença do presidente armênio e do Catholicos, ele celebrou o centenário dos massacres perpetrados contra o povo da Armênia.

Agora, a expectativa de uma viagem repleta de significados: a Armênia, primeiro país cristão, povo que incidiu na sua pele as suas cicatrizes de um trágico genocídio, terra atravessada pela guerra e que olha para o Monte Ararat com a esperança de uma paz para todos.

Eis a entrevista.

É verdade, Santidade, que o senhor conhece o Papa Francisco desde que era arcebispo de Buenos Aires?

Eu tive a oportunidade de conhecer o Papa Francisco durante a minha primeira visita oficial à Argentina, em 2004, quando ele ainda era arcebispo na Argentina, e de novo quando fiz a minha segunda visita à Argentina, em 2011. Durante as minhas visitas, pude conhecer o generoso espírito do cardeal Jorge Mario Bergoglio e apreciar a relação fraterna e amigável com ele. Um soldado corajoso de Cristo, servo do povo, pioneiro da justiça, defensor dos direitos dos pobres e dos deserdados. Conhecemos o Papa Francisco nessa qualidade durante os seus anos de ministério na Argentina. Fiquei particularmente contente ao saber que ele tinha laços e relações estreitos com a comunidade armênia na Argentina.

O que mais o impressiona da sua ação na Igreja e no mundo?

O Papa Francisco é um dos servos devotos e zelosos da Igreja universal. Na sua pessoa, a Igreja Católica tem um pontífice que é cheio de graça, que, com a sua pregação de amor pela Palavra de Deus e pelos homens, faz ouvir a sua voz contra a injustiça social e interpessoal, adverte contra a secularização da sociedade e contra os perigos e os outros desafios que ameaçam a instituição da família cristã. Aprecio muito as atividades para construir a paz, levadas adiante pelo pontífice da Igreja Católica Romana.

A Igreja armênia está preocupado com a situação em Nagorno-Karabakh. O que ela pede e espera para essa região?

O Nagorno-Karabakh é a terra histórica do Artsakh, habitada pelo nosso povo há milênios, na qual viveu uma florescente vida nacional, espiritual e cultural. Depois do estabelecimento do poder soviético no Cáucaso meridional, o Nagorno-Karabakh e o Nakhijevan foram anexados ao Azerbaijão pelas autoridades soviéticas, ignorando que se tratava de um território historicamente armênio. Desde então, as autoridades do Azerbaijão empreenderam uma política de esvaziamento do Karabakh dos armênios, erradicando todos os vestígios da presença armênia e assimilando os armênios. As igrejas armênias foram fechadas, as escolas armênias foram fechadas, e apenas os candidatos aprovados pelo Baku foram nomeados para posições de liderança.

No caso do Nakhijevan, essa política teve sucesso, mas a população do Artsakh se rebelou em 1988, começou o movimento Karabakh e declarou a independência, defendendo o seu direito de viver livre. Desde os primeiros dias do conflito, através da mediação do Patriarca de Moscou e de Toda a Rússia, foram organizadas encontros entre os líderes religiosos da Armênia e do Azerbaijão, que ainda continuam. Declarações importantes foram expostas nesses encontros, enfatizando que o conflito não tem motivações religiosas e que as contrapartes foram chamadas para resolver a questão pacificamente. É extremamente deplorável que as recentes atividades militares desencadeadas pelo Azerbaijão contra o Nagorno-Karabakh, em abril passado, testemunhem o desejo do Azerbaijão de encontrar uma solução militar para o problema.

Depois das declarações militaristas das autoridades do Azerbaijão, o líder religioso do Azerbaijão, o xeique ul-Islam Allahshukur Pashazade, fez declarações inflamadas na mesma linha, tentando colocar o conflito em um contexto religioso. Estamos profundamente preocupados com a situação atual. Embora esteja em curso um cessar-fogo, os jovens que defendem as fronteiras da sua pátria, além da população civil, morrem por causa das ações militares provocatórias e do fogo dos chechenos, e muitos assentamentos civis estão sendo alvo dos bombardeio e são destruídos. É nosso desejo estabelecer a paz na região o mais rápido possível, para que não se precise mais ter mães e viúvas de luto e crianças órfãs, e que todos possam viver uma vida segura, pacífica e feliz. É nossa convicção que uma paz duradoura pode ser estabelecida através da justiça, que se baseia no direito à autodeterminação do povo do Artsakh.

Qual foi a importância das palavras do Papa Francisco pronunciadas no ano passado sobre o genocídio armênio?

O nosso povo se lembra com gratidão da Santa Missa celebrada por Sua Santidade Papa Francisco na Basílica de São Pedro por ocasião do 100º aniversário do genocídio armênio, durante a qual, seguindo o exemplo do pontífice da Igreja Católica São João Paulo II, mais uma vez declarou com força que o genocídio armênio foi a maior tragédia do século XX, lançando um apelo para celebrar a sua memória e tomar medidas para curar essa ferida ensanguentada. Essa iniciativa realizada no 100º aniversário do genocídio armênio foi uma mensagem dirigida a todo o mundo, que foi ouvida por um certo número de nações, que, posteriormente, reconheceram o genocídio armênio. Aprecio muito o apoio demonstrado para com o nosso povo e a Igreja armênia pelo nosso amado irmão Papa Francisco de Roma.

O que o senhor tem a dizer sobre essa tragédia ao mundo de hoje, atravessado por terrorismo e perseguições?

O genocídio cometido pela Turquia otomana contra o povo armênio cristão no início do século XX é uma das maiores tragédias da história humana moderna. Milhões de filhos da nossa nação foram forçados ao exílio e submetidos a um massacre planejado, milhares de mosteiros e igrejas foram destruídos, inúmeros tesouros culturais foram aniquilados. Muitos foram forçados a se converter. Os seus descendentes, agora, vivem na Turquia e, um século depois, ainda têm medo de revelar a sua identidade étnica ou mesmo apenas de falar a respeito. Apesar de tudo isso, o nosso povo, fiel à fé dos nossos antepassados e às tradições nacionais, testemunhou a sua fé em Cristo com o martírio.

Cem anos depois, a Igreja armênia canonizou os seus mártires que foram mortos pela sua fé e pela pátria. Infelizmente, o mundo permaneceu em silêncio enquanto essa tragédia ocorria, criando, assim, oportunidades para novos crimes. Algumas décadas mais tarde, Adolf Hitler, para justificar as suas brutalidades, disse: "Quem se lembra hoje do genocídio dos armênios?". Estamos convencidos de que a comunidade internacional não deve hesitar em pronunciar julgamentos claros, porque a melhor maneira de evitar tais crimes e formas de violência é condená-los e impedi-los de modo oportuno. Hoje, é possível garantir um fundamento pacífico e harmonioso para as diversas nações, religiões e culturas apenas demonstrando boa vontade e unindo os esforços de todos. Isso é ainda mais urgente hoje, quando vemos as condições dolorosas que estão vivendo o Iraque, a Síria e outros países do Oriente Próximo, por causa das quais tantas pessoas inocentes morrem, e tesouros históricos e culturais estão sendo destruídos.

O Papa Francisco fala muitas vezes do ecumenismo do sangue. O que o senhor pensa a respeito disso?

A paz e a reconciliação são graças divinas, às quais cada homem e cada nação devem aspirar. A Igreja é chamada a compartilhar a mensagem de paz de Cristo com o mundo, a guiar a humanidade ao amor e à reconciliação, a definir a vida com base nos bons frutos e a sempre aspirar à religiosidade. O nosso povo é um povo martirizado, uma nação que viveu a dor e o sofrimento, que sempre respondeu à morte com a vida, vivendo com uma fé inabalável em Deus, com a esperança da ressurreição e uma fé indestrutível, e, nos momentos de necessidade, testemunhando a sua fé até mesmo com o martírio, mediante o qual também confirmaram o seu direito de viver. Eu compreendo nesse contexto todo o conteúdo e a pertinência da expressão do Papa Francisco "o ecumenismo do sangue". Elevamos a nossa oração a Deus pelos nossos irmãos e pelas nossas irmãs na fé, por todas as pessoas que sofrem e estão na dor, para que, sob a sombra de Deus Onipotente, as nações e os povos possam viver em paz, firmes nos seus valores espirituais e morais.

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