"Francisco valoriza todas as novidades para rejuvenescer a Igreja." Entrevista com Gerhard Ludwig Müller

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15 Junho 2016

No dia em que é apresentada a Iuvenescit Ecclesia, a carta redigida pela Congregação para a Doutrina da Fé sobre a relação entre dons hierárquicos e carismáticos para a vida e a missão da Igreja, conversamos com o prefeito da Congregação, o cardeal Gerhard Ludwig Müller, sobre os motivos que levaram o Vaticano a preparar o documento.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal La Repubblica, 14-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Como antecipado nos últimos dias pelo jornal L'Osservatore Romano, a relação entre hierarquia e novas realidades não é um fim em si mesma, mas tem o objetivo de fazer rejuvenescer a Igreja, para renovar a vida do povo de Deus.

Eis a entrevista.

Eminência, então não é verdade que Francisco não ama particularmente os movimentos?

Um papa não pode não amar aquilo que o Espírito suscita em benefício de tantos homens, cujo coração espera por Deus muitas vezes sem o saber, e em favor de todo o povo de Deus, que é o primeiro destinatário desses dons. Certamente, esses dons, muitas vezes, foram uma novidade disruptiva e também necessitada de purificação. Talvez, foram um pouco como filhos que vieram ao mundo sem terem sido programados... Mas quem é realmente pai e mãe, assim que eles chegam, ama esses filhos e os cria assim como e mais do que os outros.

Como se concilia a presença de movimentos, muitas vezes fortemente identitários, com um pontificado que pede o abandono da autorreferencialidade?

É possível deslocar para fora de si mesmo o próprio centro de gravidade e amar, se não se tem uma identidade forte e bem delineada? Certamente, isso deve ocorrer não com arrogância e com respeito aos interlocutores. Enquanto uma certa incapacidade ao diálogo sincero nasce justamente de uma fraqueza identitária e cultural... Ter a própria identidade clara dá o gosto do diálogo autêntico. Até porque o verdadeiro diálogo sempre começa com uma troca de dons entre duas identidades. Caso contrário, é apenas uma série de monólogos, temperada talvez por muita cortesia...

A autorreferencialidade, em vez disso, é a incapacidade de sair de si mesmo e de descobrir que o próprio sucesso se beneficia do encontro do outro em relação a nós. Mas é necessário sair de nós mesmos, porque a realidade é maior do que o nosso pensamento, como Francisco diz muitas vezes. Mas, atenção, porém, porque o contrário da autorreferencialidade não é o servilismo de quem executa e ponto final.

Algumas realidades da Igreja parecem estar sempre correndo atrás em relação ao magistério "em saída" de Francisco. Por quê?

É difícil manter o ritmo da profecia. Por outro lado, não é a velocidade do ritmo que importa. O importante é que todo o povo de Deus e todas as realidades da Igreja, pouco a pouco, cada uma com o seu ritmo e os seus dons, até mesmo com as suas fraquezas, se encaminhem na direção certa. E isso não é feito de forma eficaz senão com um certo trabalho e esforço, senão com uma obediência dialógica, e muitas vezes até mesmo de modo dialético...

Além disso, só no tempo a própria profecia amadurece a sua verdade e se revela no seu porte. Também por isso, não é fácil compreendê-la logo e, muitas vezes, envolve um aspecto de "cruz", tanto para quem a porta consigo, quanto para quem a recebe. "Sair" realmente de si mesmo, além disso, sempre envolve o esforço de sair dos próprios planos e âmbitos tranquilizadores.

A abordagem que João Paulo II e Bento XVI tinham às novas realidades da Igreja é diferente da de Francisco?

Cada papa tem os seus dons e as suas preferências. Eu acho que Francisco está profundamente unido a João Paulo II e Bento XVI no desejo de valorizar todas as novidades que o Espírito suscita na Igreja. O olho do papa é o olho vigilante e afetuoso de um pai que não só sustenta, mas também, quando necessário, corrige. E o faz pelo bem dos seus filhos e em seu benefício, acima de tudo.

Como devem viver os movimentos para não caírem na tentação de enjaular o Espírito dentro dos seus próprios esquemas?

São os santos que nos ensinam isso. Os santos, na história da Igreja, foram aqueles que souberam conjugar, de modo cada vez mais fecundo, continuidade e novidade. Fidelidade à tradição e abertura ao que Deus pedia de novo. E fizeram isso pondo-se a serviço da Igreja e do bem autêntico de tantos irmãos e irmãs do seu tempo. Amando-os e acompanhando-os realmente, isto é, cultivando no seu coração um amor cada vez maior pelo bom destino dos seus companheiros de estrada. E também reconhecendo sinceramente os próprios erros e deixando-se corrigir pela verdade e pelo bem. Em todo o caso, acho que pôr-se a serviço de um projeto e de necessidades maiores do que as próprias é a melhor forma para sair da tentação da autorreferencialidade. E isso vale tanto para quem é chamado na Igreja a servir na hierarquia, quanto para os simples fiéis, sem exceção.

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