Mães para sempre

Revista ihu on-line

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Mais Lidos

  • Opositores do papa: continuem assim

    LER MAIS
  • Papa Francisco condena perseguição antigay e está preocupado com “cura gay”

    LER MAIS
  • Católicos e anglicanos - Trabalhar juntos para bem da humanidade, diz secretário do Vaticano

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

02 Junho 2016

Tudo começou com as rondas das Mães da Praça de Maio. Em plena ditadura Argentina, em 1976, algumas mulheres, com a cabeça coberta por um lencinho branco, marchavam cada quinta-feira diante da sede do Governo para exigir notícias sobre os seus filhos desaparecidos. Os militares as chamavam de “as loucas”. Eram muito sós, mas cada vez eram mais numerosas. No giro de poucos meses, algumas começaram a reunir-se num canto da praça: muitas das suas filhas estavam grávidas quando tinham sido sequestradas. Procuravam não só filhos, mas também netos. “No primeiro dia éramos um grupinho quase invisível”.

A reportagem é publicada por Osservatore Romano - Mulheres, igreja, mundo - 01-06- 2016. A tradução é de Benno Dischinger.

“Tínhamos diversas necessidades, não bastava solicitar o habeas corpus à justiça, ir ao Ministério do Interior, do Exército. Nós o fazíamos pelos nossos filhos. Mas íamos também aos tribunais dos menores aos orfanatos”, conta Mirta Acuña de Baravalle, uma das fundadoras das Avós da Praça de Maio, que aos 92 anos ainda não cessou de procurar o neto. Chegavam cada vez mais avós e mães.

Elas se encontravam nos bares em torno da praça. Tinham somente a si mesmas. Até os familiares, incluídos aqueles de Mirta, lhes solicitavam que se rendessem. Era demasiado perigoso. Um carro estacionado por demasiado tempo à porta da casa, um rumor, tudo as apavorava. Mas insistiam. A ditadura matou a primeira líder das mães, Azucena Villaflor, cujo cadáver foi encontrado no Rio da Prata. Foi vítima dos assim chamados voos da morte.

O terror era a norma, mas não cessaram de encontrar-se toda quinta-feira na praça. No início estavam firmes, mas lho proibiram e por isso começaram a andar em círculo. “Na época ninguém as ajudava, havia muito medo. Com a democracia [1983] começaram a fortalecer-se mais. O povo acorria toda quinta-feira. Muitos eram curiosos, queriam saber o que sucedera naqueles anos terríveis”, conta Mirta. Como todas as manhãs, também hoje que tem 92 anos começa o dia com a leitura dos jornais cotidianos, como parte de um empenho que, assegura, “é tanto do corpo como da alma”.

A jornada prossegue com leituras e discussões, porque “há mães e avós que têm opiniões diversas”, e por fim, às cinco da tarde, volta para casa com um ônibus preparado para inábeis “para terminar, se consigo, algumas tarefas de casa”.

Surpreende-se quando lhe é perguntado se continuará a marchar com as Mães em torno da Pirâmide da Praça de Maio, como há 40 anos. “Nem me peçam isso”, graceja. “Cada aspecto da minha vida tem a ver com o ir à praça”, afirma com o seu tom quieto, convencida de que o movimento das Mães tenha “nascido de uma caminhada silenciosa que se transformou no clamor mais forte de todos os tempos”.

“É verdade que a batalha contra o tempo, contra o passar dos anos, contra o corpo que envelhece e não te pertence mais é o aspecto mais duro a combater, mas, não obstante tudo somos ainda mães!” Mirta jamais se rendeu e não pretende fazê-lo agora. Lamenta-se “pelos pés que tantas mães gastaram caminhando na Praça, mas hoje vamos em frente, algumas em cadeiras de rodas e outros com um evidente declínio físico, mas vamos em frente”. 

O sequestro de sua filha, Ana Maria, ocorrido aos 28 de agosto de 1976m foi o ponto de ruptura que impeliu uma mãe “para longe da política e ocupada em cuidar da família”, dedicando sua vida a uma busca compartilhada. As mães socializaram a maternidade. Foi somente por amor, um amor infinito, que “passamos da luta pelo filho de uma à luta pelos filhos de todas”, construindo pouco a pouco uma consciência de gênero fundada sobre a passagem da maternidade biológica àquela associativa. Os filhos reclamados ultrapassavam o elo com os próprios progenitores porque eram considerados filhos desaparecidos de uma determinada comunidade social e política. Mirta sustenta que estas mães, que hoje têm uma idade entre os 85 e os 95 anos, diversamente de quarenta anos atrás, foram “geradas pelos próprios filhos”.

Que dor maior pode ter uma mãe – acrescenta Mirta – do que perder o próprio filho? Talvez aquela de vê-lo desaparecer, no nada, sem saber o que lhe sucedeu e onde jaz o seu corpo. “Ainda devemos recuperar 350 netos sequestrados, mas vejo a luta com renovada esperança. Enquanto estivermos vivas, nós mães e avós continuaremos a lutar. Além disso, agora os nossos netos nos ajudam a levar em frene a organização, que não cessa de crescer. Estamos abrindo uma rede na França”. Mirta é plena de energia e otimismo.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Mães para sempre - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV