Sobre como é difícil criar um filho não machista em um mundo machista

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02 Junho 2016

“Dia desses ele não quis colocar uma camisa rosa linda que ganhou do padrinho. “Rosa é cor de menina, mamãe!”. Até então o rosa era apenas uma cor dentre várias lá em casa. Mas, aos 6 anos, o mundo o contaminou. E não teve jeito. Eu expliquei que meninos e meninas podiam usar todas as cores. Ele entendeu. Mas me disse que gostava “muito, muito” da camisa azul. E colocou a azul. Depois ouvi ele comentando ao assistir a um desenho na tv: “Claro que ninguém vai casar com ela. É tão gorda!”

O depoimento é de Rita Lisauskas, jornalista, publicado por Estadão, 31-05-2016.

Eis o depoimento.

Eu já tinha dois enteados quando fiquei grávida. E quando descobri que o bebê que esperava também era um menino, achei que estava preparada para o desafio de colocar mais um garoto nesse mundo.

Mas não estava.

E só descobri isso depois de ouvir o primeiro comentário machista, quando ainda contávamos sobre a gravidez e o sexo do bebê: “Mais um macho na família ! Amarrem as cabras porque os bodes estarão soltos!”

Achei de péssimo gosto. E a ficha caiu. O machismo não oprime apenas as meninas. Também atinge os meninos em cheio.

O guri nasceu, mal falava gugu dadá e já era cobrado: “QUANTAS namoradinhas arrumou na escola, hein?” Eu, a mãe sempre chata e problematizadora, respondia com a voz tatibitati: “Nenhuma, né, tio! Eu sou uma criança! E criança não namora, brinca.”

Ou então: “Esse aí vai destruir o coração de muitas menininhas!”.

“Não, não vou não. Sou um menino legal e vou respeitar todas as garotas!”

A luta é inglória e diária. Os meninos sempre ouvem que precisam namorar várias, transar com todas. Têm sempre que “chegar junto” para provar que são homens. Bater para provar que são machos … e não brincar de casinha para não virar gay. Pois é.

“Você deixa ele brincar de boneca?”, perguntaram-me uma vez no playground, quando viram meu filho feliz da vida empurrando um carrinho de boneca de uma amiguinha do prédio.

“Cuidado, hein? Desse jeito ele vai virar viado!”, comentaram depois de ver que meu filho tinha uma pia de brinquedo. Saía água de verdade e ele adorava lavar todos os pratinhos e xícaras que vieram com ela.

Nas duas situações respirei fundo e argumentei:

“Você não acha que se os meninos brincassem de boneca não teríamos pais mais participativos na criação dos filhos?”

“Você não acha que se todas as crianças do mundo aprendessem a brincar de casinha desde pequenas os homens não descobririam que cuidar da casa também é responsabilidade deles?”

E a cereja do bolo: “Se meu filho for gay não será porque brincou de boneca ou de lavar a louça. E continuará a ser amado e respeitado como sempre foi.”

Só ouvi silêncio.

Pois é.

O silêncio chega quando os argumentos faltam. E nós, mães de menino, assim como as mães de menina, não podemos nos silenciar nunca.

“Para de chorar, Samuel! Meninos não choram!”

Choram sim, filho. Todo mundo chora. Inclusive meninos.

Dia desses ele não quis colocar uma camisa rosa linda que ganhou do padrinho. “Rosa é cor de menina, mamãe!”. Até então o rosa era apenas uma cor dentre várias lá em casa. Mas, aos 6 anos, o mundo o contaminou. E não teve jeito. Eu expliquei que meninos e meninas podiam usar todas as cores. Ele entendeu. Mas me disse que gostava “muito, muito” da camisa azul. E colocou a azul.

Depois ouvi ele comentando ao assistir a um desenho na tv: “Claro que ninguém vai casar com ela. É tão gorda!”

Infelizmente não conseguir ver qual era a animação que ele acabara de assistir. Mas expliquei que as pessoas podem ser magras e gordas. Que cada um é de um jeito, mas que a gente gosta é da pessoa, independentemente do peso. E que ele nunca, nunca, nunca, poderia dizer que uma pessoa é gorda como forma de xingamento. Era feio. Ofensivo. E que as pessoas ficam muito chateadas se a gente faz algo do tipo.

“Nunca faça isso, filho.”

“Tá bom! Mas você já viu que o Cebolinha fala isso pra Mônica o tempo todo, mamãe?”

Fiquei muda.

Tá vendo como é difícil?

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