Quando julgamos a vítima do estupro, agimos como o estuprador

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01 Junho 2016

Para a filósofa Márcia Tiburi, autora de vários livros, entre os quais As Mulheres e a Filosofia e Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero, as pessoas precisam se manifestar e exigir posicionamento das instituições quanto a casos de violência e barbárie, como o da jovem vítima de estupro coletivo no Rio de Janeiro. “Mas o que está em jogo para nós, hoje, que é muito mais sério, é pensar essa sociedade, a cultura que cria esse tipo de contexto. Temos de enxergar o estupro como uma questão cultural, e não simplesmente como um caso de polícia”, pondera, em entrevista à Rádio Brasil Atual, 31-05-2016.

“Até porque, se a gente for estudar as estatísticas e verificar o que vem acontecendo entre as leis e a prática do estupro, a gente vai ver que apenas 10% dos casos são noticiados. E as leis são bem severas em relação aos estupradores”, diz.

Segundo a estudiosa, casos como esses promovem uma comoção nacional importante que precisa ser levada a sério, e com profundidade. “Porque está aparecendo na sociedade esse estupro que é situado no nível da cultura das pessoas, praticamente uma metáfora social do Brasil contemporâneo”, analisa. “Mas do meu ponto de vista a questão não é a gente se voltar para a esperança punitivista acreditando que cadeia para o estuprador vai resolver esse problema no Brasil.

Eis a entrevista.

 Você escreveu um artigo em que diz que a lógica do estupro é a lógica do poder.

Isso que a gente chama de cultura do estupro tem a ver com a lógica do estupro. A cultura na qual a outra pessoa é tratada como uma coisa que ela pode ser usada, pode ser descartada e que pode ser violentada. Na base dessa cultura, existe justamente um modo de pensar, de ver o outro e tratar o outro como se fosse justamente uma coisa. Como um homem estuprador trata uma mulher estuprada? Uma característica importante desse tipo de lógica, de pensamento, é que você não consegue se colocar no lugar do outro.

Agora, tem um problema super sério que aparece aí: cada vez que as pessoas que não são estupradoras, as pessoas comuns, como eu, você, as que estão ao nosso redor, seja homem ou mulher, não interessa, quando essas pessoas começam a julgar a vítima do estupro elas agem como se fosse estupradoras também, começam a agir segundo a lógica do estupro, essa de quem não consegue se colocar no lugar da vítima, e trata essa vítima ou qualquer pessoa como se fosse uma coisa – e como se ela fosse mesmo a culpada daquilo que ela viveu. E aí – com as pessoas falando mal, julgando, especulando sobre o comportamento, a sexualidade, o que a pessoa estava vestindo, o que aquela mulher estuprada estava fazendo, ou como ela é –, quando as pessoas fazem isso, elas contribuem com o estupro. É como se a mulher que viveu um estupro fisicamente passasse também a viver uma espécie de estupro por meio das palavras, por meio da verbalidade agressiva e estupradora das pessoas. Isso tudo faz parte do que a gente chama de cultura do estupro.

Ao recair a culpa sobre a vítima, e com o estuprador não sendo responsabilizado pelo seu ato, ele não conseguiu isso sozinho, não é isso?

Aquela pessoa que pratica a violência e se sente autorizada a isso só faz isso porque tem o aval de uma estrutura, um contexto em que isso é permitido. Uma pergunta que devemos nos fazer é como nós estamos criando os homens. Como os homens, e as mulheres, e a sociedade como um todo produzem a subjetividade masculina, que é infelizmente há muito tempo ligada à violência. A gente acredita que um homem pode ser violento. E as pessoas, as instituições, as escolas, as famílias – enfim, a cultura, de um modo geral – tratam o garoto, o homem que cresce, como se ele estivesse autorizado à violência. E quando a gente fala “ah, ela foi estuprada porque estava com uma minissaia”, ou “porque ela é sensual, erotizada, porque queria sexo”, a gente está fomentando esse gesto que pertence a essa lógica do estupro.

Você também diz que essa lógica é a mesma do regime nazista…

A gente vive, dentro de nossa cultura, um fascismo em potencial – a gente poderia dizer até num extremo que vivemos num sistema de governo que poderia se transformar em um fascismo de verdade, e acho até que no Brasil a gente já está vivendo esse fascismo. Mas o fascismo em potencial está colocado na cultura, no dia a dia, e o estuprador em potencial é análogo a esse fascista em potencial. Você lembra do caso do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) agredindo a deputada Maria do Rosário (PT-RS)? Esse é um ótimo exemplo para a gente pensar no estuprador em potencial. Muitas pessoas acharam engraçadinho o que o Bolsonaro disse, inocente, ou bobo. Mas o que ele estava dizendo: que ele poderia estuprá-la, se “ele” quisesse. Ele a ameaça. Há um subtexto no que ele falou, que é “eu só não vou estuprar você porque eu não quero; se eu quisesse, estuprava”. Nessa hora, ele avaliza o comportamento de muitos homens. Ele está praticamente dizendo que todos os homens podem fazer isso.

E isso é muito grave. Isso sim é o estuprador em potencial. Isso é o fundamento profundo disso que a gente chama de cultura do estupro. Essa autorização conferida, que um homem dá a sim mesmo. O que a gente encontra na ameaça é “eu farei isso a qualquer momento, assim que eu deseje”. E aí você tem um casamento desse tipo de pensamento com as atitudes fascistas de um modo geral.

Essa é mesma atitude que diz que o outro não vale nada, por exemplo, se for diferente do padrão homem-branco-europeu, se for trabalhador, mulheres, negro, indígena, pertencer a classe social não abastada, enfim, se for diferente do que o outro diz que pode ser aceito. Não é de espantar que numa cultura autoritária como a brasileira exista ao mesmo tempo, funcionando junto, analogamente, uma cultura do estupro. É lógico que o autoritarismo e o estupro andem juntos. O machismo é um tipo de autoritarismo – específico, contra as mulheres – que fomenta, dá base para o estupro.

Como é se pode mudar essa cultura?

Tem que mudar a educação. E você não vai mudar a educação, nesse sentido específico, se você não falar em questões de gênero, por exemplo.

E os meios de comunicação são então peça-chave para essa lógica cultural.

Eles atravessam a cultura. Eles fazem a cultura. As pessoas acreditam no que os meios de comunicação dizem. E as pessoas não têm uma ferramenta de mediação. Não aprenderam a entender como funcionam os meios, uma televisão, uma rádio, um jornal, como funciona o discurso dos jornalistas. As pessoas não sabem disso.

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