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01 Junho 2016

“Quando uma pessoa que ostenta, a sério ou de brincadeira, ter estuprado uma mulher, chamando-a reiteradamente pelo nome de "mãe de santo", é recebida com pompa e circunstância pelo novo ministro da Educação, apresentando ao governo propostas retrógradas e inúteis, algo de sinistro paira no ar’, constata Noemi Jaffe, escritora e professora, em artigo publicado por Folha de S. Paulo, 01-06-2016.

Segundo ela, “não há mais ar, e o que era sinistro se anuncia como a própria morte: da educação, dos direitos humanos e da tolerância, das reivindicações mais básicas do feminismo e do que há de humano em nós”.

Eis o artigo.

O novo ministro da Educação, Mendonça Filho, recebeu, no dia 25 de maio, visita do ator Alexandre Frota, que apresentou na ocasião propostas para a educação brasileira. Diante da repercussão que o encontro atingiu nas redes sociais, o ministro justificou que o ministério está aberto a quem o requisitar.

Não há, contudo, como desconsiderar o caráter simbólico da visita e o fato de ser uma das primeiras da nova administração.

Em 2014, Alexandre Frota apareceu num programa de entrevistas, alardeando ter "comido" uma mãe de santo e praticamente tê-la esganado, tudo sem o consentimento dela. Em outras palavras, estupro.

Na sequência, o ator se justificou, dizendo que não passou de uma brincadeira, que serviria para divulgar um stand-up. A alegação à "brincadeira" em nada diminui a violência e a falta de educação. O vídeo está aí para quem quiser assistir: https://goo.gl/UJmBFc. Que o decidam os espectadores.

As propostas de Frota estão vinculadas ao movimento Escola sem Partido. Esse grupo, como se esperaria de quem defende reformas na educação, não propõe acesso de todos à sala de aula, independente de classe e etnia; não propõe escolas mais equipadas, com classes minimamente habitáveis; não propõe garantia de uniformes, material escolar e merenda a todos; não propõe interação entre funcionários, educadores, alunos, pais e comunidades; não propõe vinculação de esportes, cultura e ações sociais, para agregar jovens e pais; não propõe a escola em período integral; não propõe melhores salários para os professores e nem o ensino da tolerância, da cidadania e da igualdade. Nada disso.

A salvação da educação, para o Escola sem Partido, é que os professores cessem de fazer doutrinação política, de "defender os direitos humanos" e de ensinar, entre outras coisas, o darwinismo.

Em seu site, diferenciam os direitos humanos defendidos pela Revolução Francesa, que adviriam dos "direitos naturais", daqueles defendidos pelas Nações Unidas, que estariam eivados de doutrinação de esquerda. Sim, os direitos humanos que garantem que "todos nascem iguais em dignidade e direitos e devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade", além de afirmar que "todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal".

Estes dois últimos, segundo o Escola sem Partido, se citados por um professor ou cobrados numa avaliação, podem ser considerados doutrinários e devem ser passíveis de reclamação, com a possível punição do professor.

Poucos dias antes da visita de Frota, uma jovem, no Rio, foi estuprada por 30 homens, que se sentiram à vontade para postar a agressão na internet, com tiradas sarcásticas sobre o ato. Compondo esse cenário tenebroso, tramita pela Câmara dos Deputados um projeto de lei que dificulta o acesso de mulheres estupradas ao aborto.

Qual a relação entre os fatos?

Quando uma pessoa que ostenta, a sério ou de brincadeira, ter estuprado uma mulher, chamando-a reiteradamente pelo nome de "mãe de santo", é recebida com pompa e circunstância pelo novo ministro da Educação, apresentando ao governo propostas retrógradas e inúteis, algo de sinistro paira no ar.

E quando uma menina é estuprada por mais de 30 homens que se orgulham de fazê-lo, então não há mais algo de sinistro no ar.

Não há mais ar, e o que era sinistro se anuncia como a própria morte: da educação, dos direitos humanos e da tolerância, das reivindicações mais básicas do feminismo e do que há de humano em nós.

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