Um fantasma ronda a terra da democracia: o homem (ou mulher) forte. Artigo de Zygmunt Bauman

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01 Junho 2016

As sociedades em declínio voltam todas as suas esperanças a um salvador, a um homem (ou a uma mulher) da providência, e estão em busca de um nacionalista resoluto, militante e combativo: qualquer um que prometa desligar o interruptor do planeta globalizado, barrar aquelas portas que, há muito tempo, já perderam – ou das quais foram quebradas – as dobradiças, tornando-as inutilizáveis.

A opinião é do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 27-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Um fantasma ronda a terra da democracia: o fantasma de um homem (ou mulher) forte. Como sugere Robert Reich, no seu "Donald Trump e a revolta da classe ansiosa", esse fantasma (que, no caso em questão, usa as vestes de Donald Trump, embora não despreze usar muitas e variadas fantasias, tanto populares, quanto nacionais) nasce (justamente como Afrodite que emergiu das ondas espumantes do Mar Egeu) da ansiedade que, nestes tempos, está tomando "a grande classe média estadunidense", hoje assustada com as "elevadíssimas probabilidades de acabar na miséria".

Dois terços dos cidadãos estadunidenses vivem hoje com o dinheiro contado, e a grande maioria corre o risco de perder o posto de trabalho de uma hora para a outra. Muitos engrossam as filas da mão de obra "por demanda" – ou seja, trabalham quando são necessários, contentam-se com as compensações que lhes são oferecidas, a critério do empregador.

Porém, essas mesmas pessoas, quando não conseguem mais pagar o aluguel ou a hipoteca da casa, correm o risco de cair no abismo. Esses "dois terços dos estadunidenses" são forçados a caminhar sobre a água, sacudidos por ventos de tempestade não menos impetuosos do que aqueles que agitavam o Mar da Galileia, descritos no Evangelho de Mateus.

Nas palavras do evangelista, caminhar sobre as águas era uma questão de fé: mas hoje a "classe ansiosa" de Reich não sabe mais em que colocar a sua confiança. "As redes de segurança estão repletas de buracos. A maioria daqueles que perdem o trabalho nem sequer têm direito ao desemprego. O governo não faz nada para proteger o trabalho, impedindo que as empresas deslocalizem para a Ásia ou que os postos de trabalho sejam tomados por imigrantes clandestinos dispostos a trabalhar por menos."

"Truques de impostor"

No entanto, observa Reich, confiar-se à onipotência do homem forte representa um "sonho impossível", e, se Trump conseguiu conquistar a confiança do eleitorado, ele fez isso recorrendo a "truques de impostor". Porém, a convocação da "classe ansiosa" para se reunir em torno do mago, que os engana fazendo brilhar aos seus olhos aquele sonho impossível, não representa necessariamente uma reação óbvia e inevitável.

A resposta à pergunta feita recentemente por Joseph M. Schwartz, professor de ciências políticas na Temple University – "A classe média e os trabalhadores brancos, hoje em dificuldades econômicas, estão prontos para seguir a política racista e nacionalista de Trump e do Tea Party (convencidos de que o jogo está todo predisposto em favor das camadas mais pobres da população negra), ou vão se reunir para fazer a batalha contra as elites empresariais, que sancionaram a aniquilação da classe operária?" – não é nada óbvia.

Como sugere Schwartz, uma pesquisa feita pelo New York Times/CBC News, "pouco antes do discurso do senador Bernie Sanders na Georgetown University sobre o socialismo democrático no dia 19 de novembro de 2015", revela que 56% dos eleitores históricos do Partido Democrata eram a favor do socialismo, contra 29% dos contrários, e isso nos permite supor que "a maioria dos entrevistados associa o capitalismo com a desigualdade, o excessivo endividamento para os estudos universitários e um mercado de trabalho estagnado. Em vez disso, eles veem no socialismo uma sociedade mais justa e igualitária".

A partir das atuais dificuldades em que se debate a "classe ansiosa" (ou as camadas cada vez mais lotadas do "precariado"), surgem múltiplas escolhas políticas. Uma destas apela a um homem forte; a outra, a um povo forte.

O medo cósmico

Nas palavras do grande filósofo russo Mikhail Bakhtin, todos os poderes terrestres se alimentam e prosperar na difusão de "temores cósmicos", que podem ser inatos ou endêmicos para os seres humanos: isso significa o temor diante de tudo o que é ilimitado e poderoso; diante do céu estrelado, a quantidade material das montanhas, o mar, o medo dos abalos cósmicos e das catástrofes naturais incutido por antigas mitologias, crenças, imaginações, até mesmo o medo das línguas e dos modos de pensar conaturais a eles... Esse terror cósmico, em sentido estrito em vez de místico (tratando-se de temor de tudo o que é materialmente grande e representa um poder difícil de ser definido), é explorado por todas as grandes religiões para suprimir a pessoa e a sua consciência, transformando-a em uma variante artificial e deliberadamente "oficial".

No seu estudo das complexas relações entre os gestores terrestres do "medo oficial" e os sujeitos nos quais se induzem esses temores, recorrendo à ajuda de O processo e de O castelo, os dois célebres romances de Franz Kafka, Roberto Calasso demonstra que a ação do "medo oficial" não é nada simples e imediata.

"Se os cidadãos tivessem ouvido os exegetas de O castelo se delongarem sobre Deus e divindade e sobre como eles interferem na sua vida, eles teriam reagido com desdém", sugere Calasso. Eles teriam se ressentido das tentativas cultas de comparar os ocupantes do Castelo a Deus ou a outras divindades bem conhecidas por eles pelos ensinamentos religiosos recebidos.

"Como seria fácil tratar com os habitantes do Castelo se, como no caso de Deus, bastasse estudar um pouco de teologia e confiar-se à devoção – eles poderiam pensar. Mas os funcionários do Castelo são muito mais complexos. Não existe ciência nem disciplina que possa nos ajudar a tratar com eles."

De fato, os sistemas religiosos – que, segundo Bakhtin, representam as primeiras tentativas para reciclar o temor "cósmico" em um temor "oficial" (em outras palavras, fabricar o "medo oficial" nos moldes do "cósmico" e, ao mesmo tempo, capitalizar sobre os fundamentos já predispostos pelas fontes primordiais e originais do medo) – tendiam a assegurar a submissão e a obediência dos sujeitos com a promessa (muitas vezes desatendida em quantidade e qualidade em comparação com o que foi estipulado) de receitas infalíveis para atrair a graça e os favores divinos, ou para aplacar a Sua cólera quando todos os esforços para respeitar os Seus ditames ao pé da letra se tivessem demonstrado, no ato prático, difíceis e onerosos demais.

Sem perder nada da sua temibilidade, era possível falar com Deus – ao contrário das fontes mudas e obtusas do medo cósmico. Deus podia ser rezado, implorado, esconjurado, mediante palavras e ações, para implorar o perdão dos pecados e a recompensa das virtudes. E, ao contrário da Natureza surda e cega, Deus talvez podia escutar e cumprir os votos dos pecadores contritos.

As igrejas, plenipotenciárias terrenas da autoridade divina, explicavam meticulosamente, até o mais ínfimo detalhe, o código de conduta indispensável para induzir Deus, com um jogo simultâneo de bênçãos e tribulações, a atender o crente. Doídos sob os golpes do destino, as vítimas da ira divina sabiam exatamente o que fazer para merecer a redenção. Quando a redenção tardava a chegar, ele se convenciam de ter faltado ao zelo e, portanto, se consideravam culpados por uma falta fácil de corrigir.

Poder e "delegação" à sociedade

Mas esse é exatamente o dispositivo que o medo oficial, na sua forma moderna, alistada e desenrolada novamente em campo pelos poderes políticos seculares, rejeita, na prática – embora bem raramente escape à tentação hipócrita de exaltar em palavras os seus preceitos.

Em uma aberta violação da intenção e promessa modernas de substituir os cegos jogos do destino (isto é, aquela lacuna irritante e confusa entre as ações humanas e as suas consequências, tanto para aqueles que as realizam, quanto para aqueles que as sofrem) mediante uma ordem de coisas coerentes e relativamente inequívoca, guiada pelos princípios morais de justiça e responsabilidade – portanto, assegurando uma estreita correspondência entre a situação em que os seres humanos se encontram e as suas escolhas de comportamento –, os homens de hoje se veem novamente expostos a uma sociedade transbordante de riscos e, ao mesmo tempo, vazia de certezas e de garantias.

Duas novas circunstâncias nos convidam a repensar e, se não a corrigir, ao menos a integrar o modelo de Bakhtin.

A primeira é a "individualização" em grande escala – um nome em código que vê no poder constituído uma imagem global da "sociedade" que visa a "delegar" a tarefa de enfrentar os problemas desencadeados pela incerteza existencial sobre os indivíduos e os seus recursos totalmente inadequados. Nas palavras do falecido Ulrich Beck, hoje, imputa-se aos indivíduos a responsabilidade irrealizável de encontrar, sozinhos, as soluções para os problemas gerados pela sociedade. O fantasma que ronda uma sociedade de atores-por-decreto encarna o horror que se sente ao se encontrar inaptos e ineficazes; assim como o terror dos seus efeitos imediatos, a perda de autoestima e as suas prováveis consequências: a marginalização e a exclusão.

Como geradores de medo oficiais, os detentores do poder se esforçam por agigantar as incertezas existenciais que deram forma ao fantasma e o recriam perenemente; os detentores do poder visam a fazer qualquer coisa para tornar esse fantasma o mais tangível e credível – o mais "realista" – possível.

Afinal, o medo oficial dos seus sujeitos é aquilo que, em última análise, os mantém no poder. No entanto, em uma sociedade desagregada e reduzida a um amontoado de atores individuais (forçados a fingir a sua autossuficiência), os detentores do poder também poderiam ser tentados a se apoiar cada vez mais sobre nós, os seus estagiários inseguros, precários, não remunerados e não protegidos, que vivem a sua vida fragmentada em uma sociedade cuja fragmentação é por eles desejada, alimentada e reproduzida diariamente.

Tendo atravessado as encarnações religiosas e políticas do "medo oficial" da "sociedade disciplinada", o medo cósmico que emana da dolorosa fragilidade e da finitude das capacidades cognitivas e pragmáticas caiu sobre a "sociedade de atores" na arena da "política da vida" (definição de Anthony Giddens) e aterrissou sobre os ombros dos praticantes individuais daquela vida.

Espremidos entre a infinidade de opções e tentações presumivelmente acessíveis, assim como os intermináveis pedidos feitos ao indivíduo que se pressupõe "autônomo, capaz e resoluto", estimulado a "se esforçar incessantemente a melhorar", por um lado, e, por outro, a escassez de recursos à disposição, desnudada tristemente pela grandiosidade pura e simples daquele desafio, aos atores-por-decreto, atormentados pela consciência da própria inadequação, não resta outra escolha senão a de invocar a salvação da iminente depressão voltando-se "à sua divindade". Nas palavras memoráveis de Ulrich Beck, "às divindades por eles escolhidas".

Mas essa troca de pertença fez muito pouco para mitigar tanto a irritante ansiedade gerada pela precariedade óbvia do seu estado existencial, quanto a dor da autocensura e da autocondenação por não ter conseguido nem mesmo frear – e muito menos inverter – o seu progressivo agravamento.

Imigração e racismo

A segunda circunstância nova é a erosão da soberania territorial das atuais unidades políticas, provocada pelo processo hoje em curso da globalização do poder (ou seja, a capacidade de realizar certas coisas), à qual não se seguiu a globalização da política (ou seja, a capacidade de decidir quais coisas devem ser realizadas), obtendo como resultado uma discrepância irritante entre os objetivos e os meios à disposição para uma ação eficaz.

O resultado é o desaparecimento das causas do "medo oficial" do modelo traçado por Bakhtin: invisíveis e inacessíveis para todos os efeitos, elas são – assim como as fontes do "medo cósmico" – mudas e obtusas. A uma grande distância dos requerentes, elas permanecem surdas às suas reivindicações genéricas, se falar dos seus pedidos específicos.

A maioria dos seus sujeitos são cortados fora das comunicações – e cada vez em maior número que perderam ou estão perdendo rapidamente toda esperança de diálogo sensato com as instituições. Eric Hobsbawm, um dos historiadores mais afiados da era moderna, já intuía, há um quarto de século (bem antes da atual "crise imigratória" e ainda antes que se difundisse a atual consciência da nova "globalidade" da condição humana) que "a urbanização e a industrialização, por se fundamentarem em movimentos maciços e variados, migrações e deslocamentos de populações, corroem o conceito nacionalista de base pelo qual um território é habitado essencialmente por uma população homogênea em etnicidade, língua e cultura. Xenofobia e racismo são o sintoma, não a cura. As comunidades e os grupos étnicos nas sociedades modernas estão destinados a coexistir, qualquer que seja a retórica que faz oscilar o sonho do retorno a uma nação pura".

"Todas as vezes – continua Hobsbawm – os movimentos de identidade étnica parecem surgir de reações de fraqueza e de medo, tentativas de levantar barricadas destinadas a adiar as forças do mundo moderno... O que alimenta essas reações defensivas, contra ameaças reais ou imaginárias, são os deslocamentos de populações internacionais que são acompanhados por dramáticas transformações socioeconômicas, sem precedentes e ultravelozes", transformações que estão sob os olhos de todos nos nossos dias.

"Onde quer que vivamos, em uma sociedade urbanizada, encontramos estrangeiros: homens e mulheres arrancados dos seus países, que nos trazem à mente a fragilidade e a decadência das nossas próprias raízes familiares."

"Eles, os estrangeiros – lembra-nos Hobsbawm do além –, serão acusados de todas as atrocidades, incertezas, desorientações e confusões que muitos de nós sentimos depois de 40 anos de turbulências tão rápidas e profundas a ponto de serem sem precedentes na história humana."

Como diziam os nossos antepassados, "a história é mestra de vida", um ensinamento, este, que estamos esquecendo por nossa conta e risco. Para assegurar a nossa sobrevivência, escutemos essa mestra; leiamos e releiamos a obra principal de HobsbawmNações e nacionalismos desde 1780, na qual ele nos ensina que as sociedades em declínio voltam todas as suas esperanças a um salvador, a um homem (ou a uma mulher) da providência, e estão em busca de um nacionalista resoluto, militante e combativo: qualquer um que prometa desligar o interruptor do planeta globalizado, barrar aquelas portas que, há muito tempo, já perderam – ou das quais foram quebradas – as dobradiças, tornando-as inutilizáveis.

A verdade é que os atalhos sugeridos pelos homens e pelas mulheres fortes que aspiram ao governo são bastante sedutores, embora enganosos. Traçam uma visão de retomada e de reapropriação de tudo aquilo de que um número crescente dos nossos contemporâneos sentem a falta na política de hoje, marcada por uma carência progressiva de poder, incapaz, portanto, de impedir os danos causados por elementos que escapam do seu controle, pronta para ignorar ou para destruir desde o nascimento, toda tentativa implementada pelos políticos liberal-democráticos para reconquistar as suas autoridades cada vez mais fracas.

O pecado imperdoável da democracia, aos olhos de um número cada vez mais crescente daqueles que deveriam se beneficiar dela, é a sua incapacidade de implementar aquilo que promete. O papel de homem ou mulher forte, que tanto seduz os candidatos eleitorais, está justamente na promessa de agir.

Em última análise, a atratividade do homem ou da mulher forte se baseia em uma série de pretensões e promessas que ainda devem ser totalmente demonstradas.

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