O perfil da intolerância ideológica no Brasil

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30 Maio 2016

Para o professor Pablo Ortellado, a polarização do País impediu que grupos de diferentes posicionamentos enxergassem o outro lado.

Nos últimos meses, o Brasil tem sido palco de constantes confrontos políticos e ideológicos, não só entre partidos que disputam uma parte do poder no Governo Federal, mas também entre parcelas da sociedade. Manifestações pró e contra o impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff estouraram em todo o País, e agora, com o governo do presidente interino Michel Temer, novas mobilizações começam a surgir. O atrito entre esses dois grandes grupos que divergem em suas reivindicações, no entanto, permanece, e com ele os diversos atos de intolerância que vêm sendo praticados por ambas partes.

A reportagem é de Leticia Fuentes, publicada pelo Jornal da USP, 27-05-2016.

Pablo Ortellado, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, afirma que a polarização do País foi explorada pelas lideranças políticas com base em sentimentos muito fortes. “O engajamento impede que as pessoas enxerguem os argumentos do outro.

De um lado, havia uma sensação de corrupção generalizada, que via o Partido dos Trabalhadores claramente como o responsável; portanto, compactuar, ainda que minimamente, com ele significaria ser cúmplice da corrupção. Do outro, a afirmação de que houve ganhos sociais sem precedentes na história do Brasil e que os grupos que reagem a isso estão usando um pretexto qualquer para impedir, por meio do rompimento da democracia, um processo de avanço social”, diz.

Os sentimentos envolvidos são tão intensos que, lido da perspectiva de cada um, o outro parece completamente absurdo.

Segundo Ortellado, o perfil dos manifestantes de ambos grupos é muito parecido, e o recorte etário e de classe social é marcante. São, em sua maioria, pessoas com cerca de 45 anos e com curso superior. “A explicação para isso, ao meu ver, é que toda essa disputa em torno do impedimento da presidente mobilizou pessoas para as quais a experiência do PT tenha sido marcante em seu significado político, tanto como algo que deixou frutos positivos e avanços sociais quanto algo negativo e que significou o avanço da corrupção por todo o aparelho político”, afirma.

Dois dos casos mais emblemáticos que demonstram o atrito entre os grupos aconteceram na Avenida Paulista, em São Paulo. Um vídeo circulando nas redes sociais mostra uma manifestante fazendo suas necessidades fisiológicas em cima da foto do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), durante um ato contra o impeachment, logo após a aprovação do processo na Câmara dos Deputados.

Já o retrato do cantor e compositor Chico Buarque, exposto na Avenida durante a mostra Os Trabalhadores e os 100 Anos do Samba, promovida pela União Geral de Trabalhadores (UGT), foi depredado, também em sinal de protesto. Jogaram tinta na foto do cantor, que já tinha dado declarações em apoio ao Partido dos Trabalhadores (PT).

O professor afirma que além desses dois acontecimentos, muitos outros casos poderiam exemplificar o período conflituoso pelo qual o Brasil está passando. Ele conta que fez algumas pesquisas de opinião durante as manifestações tanto de grupos pró-impeachment quanto contra, apresentando frases para que os manifestantes indicassem se acreditavam que eram verdadeiras ou falsas.

O resultado obtido demonstrava que afirmações com pouco ou nenhum embasamento tinham altas taxas de adesão em ambos grupos. “Boatos com afirmações pouco razoáveis tinham adesão de parcelas muito expressivas, de ambos lados. Chegavam a cerca de 80% dos manifestantes, pois elas confirmavam as opiniões políticas”, explica Ortellado. Sobre isso, o professor ainda afirma que mesmo o jornalismo, quando não segue as opiniões políticas dos grupos, acaba sendo muito criticado, gerando um alto índice de descrença na imprensa.



Os horizontes, no entanto, não parecem apontar para um caminho diferente tão cedo. Ortellado diz que a polarização política não é exclusiva do Brasil, mas também acontece em toda a América Latina, nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, como França e Holanda.

No caso brasileiro, o professor afirma que os dois partidos políticos estão mobilizando a população em benefício de projetos próprios. “Se qualquer um dos lados ganhar, vai fazer com que o outro sinta que houve uma perda, uma ruptura inaceitável”, complementa. “Nós só vamos conseguir sair disso quando esses projetos forem esvaziados e as pessoas conseguirem, por meio da ação independente, criar outras alternativas políticas que escapem das narrativas desses dois grupos.”

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