Bento XVI, o fim do velho, o início do novo: a análise de Georg Gänswein

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25 Maio 2016

Publicamos aqui o discurso de Dom Georg Gänswein (na foto, à esquerda), na apresentação do livro de Roberto Regoli, Oltre la crisi della Chiesa. Il pontificato di Benedetto XVI [Além da crise da Igreja. O pontificado de Bento XVI]. A apresentação foi realizada na Pontifícia Universidade Gregoriana, no dia 20 de maio passado, em Roma. Também participou da apresentação o historiador italiano Andrea Riccardi (na foto, à direita), fundador da Comunidade de Santo Egídio.

O discurso foi publicado no sítio da agência ACI Stampa, 21-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os entretítulos são da IHU On-Line.

Eis o texto.

Em uma das últimas conversas que o biógrafo do papa, Peter Seewald, de Munique, pôde ter com Bento XVI, ao se despedir, perguntou-lhe: "O senhor é o fim do velho ou o início do novo?". A resposta do papa foi curta e segura: "Um e outro", respondeu.

O gravador já estava desligado. É por isso que essa última troca de palavras não se encontra em nenhum dos livros-entrevista de Peter Seewald, nem mesmo no famoso Luz do mundo. Elas se encontram apenas em uma entrevista, que ele concedeu ao Corriere della Sera no dia à declaração de renúncia de Bento XVI, na qual o biógrafo se lembrou daquelas palavras-chave que aparecem, de certo modo, como máxima no livro de Roberto Regoli.

Com efeito, devo admitir que, talvez, seja impossível resumir de modo mais conciso o pontificado de Bento XVI. E afirmam isso aqueles que, em todos esses anos, tiveram o privilégio de experimentar de perto esse papa como um clássico "homo historicus", o homem ocidental por excelência, que encarnou a riqueza da tradição católica como nenhum outro; e que – ao mesmo tempo – foi tão audaz a ponto de abrir a porta a uma nova fase, àquela virada histórica que ninguém, há cinco anos, podia imaginar. Desde então, vivemos em uma época histórica que, na bimilenar história da Igreja, é sem precedentes.

Como nos tempos de Pedro, também hoje a Igreja una, santa, católica e apostólica continua tendo um único papa legítimo. No entanto, há três anos, vivemos com dois sucessores de Pedro vivos entre nós – que não estão em relação de concorrência entre si e, mesmo assim, ambos com uma presença extraordinária!

Poderíamos acrescentar que o espírito de Joseph Ratzinger, precedentemente, já marcou de modo decisivo o longo pontificado de São João Paulo II, a quem ele serviu fielmente durante quase um quarto de século como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Muitos continuam percebendo ainda hoje essa situação nova como uma espécie de estado de exceção desejado pelo Céu.

Balanço do pontificado de Bento XVI?

Mas já é hora para fazer um balanço do pontificado de Bento XVI? Em geral, na história da Igreja, somente ex post os papas podem ser julgados e enquadrados corretamente. E, como prova disso, o próprio Regoli menciona o caso de Gregório VII, o grande papa reformador da Idade Média, que, no fim da sua vida, morreu no exílio em Salerno – como fracassado, na opinião de muitos dos seus contemporâneos.

No entanto, precisamente Gregório VII foi aquele que, em meio às controvérsias do seu tempo, moldou de forma decisiva o rosto da Igreja para as gerações que se seguiram. Por isso, ainda mais audaz parece ser, hoje, o professor Regoli ao tentar traçar já um balanço do pontificado de Bento XVI ainda vivo.

A quantidade de material crítico que ele reviu e analisou para esse fim é poderosa e impressionante. De fato, Bento XVI está e continua estando extraordinariamente presente também com os seus escritos: tanto aqueles produzidos como papa – os três livros sobre Jesus de Nazaré e os 16 (!) volumes de Ensinamentos que ele nos entregou no seu pontificado –, quanto como professor Ratzinger ou cardeal Ratzinger, cujas obras poderiam encher uma pequena biblioteca.

E, assim, esta obra de Regoli não sente falta de notas de rodapé, tão numerosas quantas as recordações que ela desperta em mim. Porque eu estava presente quando Bento XVI, no fim do seu mandato, depôs o anel do pescador, como é habitual no dia seguinte à morte de um papa, embora, neste caso, ele ainda estivesse vivo!

Eu estava presente quando ele decidiu não renunciar ao nome que tinha escolhido, como, ao contrário, tinha feito o Papa Celestino V no dia 13 de dezembro de 1294, quando, a poucos meses do início do seu ministério, tinha se tornado novamente Pietro da Morrone.

Por isso, desde o dia 11 de fevereiro de 2013 o ministério papal não é mais o mesmo de antes. Ele é e continua sendo o fundamento da Igreja Católica; no entanto, é um fundamento que Bento XVI transformou profunda e duradouramente no seu pontificado de exceção (Ausnahmepontifikat), em relação ao qual o sóbrio cardeal Sodano, reagindo com imediaticidade e simplicidade logo depois da surpreendente declaração de renúncia, profundamente emocionado e quase tomado pela confusão, exclamara que essa notícia tinha ecoado entre os cardeais reunidos "como um raio em céu sereno".

Foi na manhã daquele mesmo dia em que, à noite, um raio quilométrico, com um incrível trovão, atingiu a ponta da cúpula de São Pedro, posta acima do túmulo do Príncipe dos apóstolos (foto ao lado). Raramente o cosmos acompanhou de modo mais dramático uma reviravolta histórica.

Mas, na manhã daquele 11 de fevereiro, o decano do Colégio Cardinalício, Angelo Sodano, concluiu a sua réplica à declaração de Bento XVI com uma primeira e analogamente cósmica avaliação do pontificado, quando, no fim, disse: "Certamente, as estrelas no céu continuarão sempre a brilhar, e assim também sempre em nosso meio a estrela do seu pontificado".

Fases do pontificado

Igualmente brilhante e iluminadora é a exposição aprofundada e bem documentada do padre Regoli das diversas fases do pontificado. Sobretudo do início dele, no conclave de abril de 2005, a partir do qual Joseph Ratzinger, depois de uma das eleições mais breves da história da Igreja, saiu eleito depois de apenas quatro escrutínios, após uma dramática luta entre o chamado "Partido do sal da terra" ("Salt of Earth Party") em torno dos cardeais López Trujillo, Ruini, Herranz, Rouco Varela ou Medina, e o chamado "Grupo de St. Gallen", em torno dos cardeais Danneels, Martini, Silvestrini ou Murphy-O'Connor; grupo que, recentemente, o próprio cardeal Danneels, de Bruxelas, de modo divertido, definiu como "uma espécie de mafia-club".

A eleição era certamente o resultado também de um choque, cuja chave quase tinha sido fornecida pelo próprio cardeal Ratzinger, como cardeal decano, na histórica homilia do dia 18 de abril de 2005, em São Pedro; e precisamente lá onde a "uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades" ele tinha contraposto outra medida: "o Filho de Deus e verdadeiro homem" como "medida do verdadeiro humanismo".

Essa parte da inteligente análise de Regoli é lida hoje como um suspense empolgante de não muito tempo atrás; enquanto isso, ao invés, a "ditadura do relativismo" há muito tempo se expressa de modo avassalador através dos muitos canais dos novos meios de comunicação que, em 2005, mal se podiam imaginar.

O nome que o novo papa assumiu logo depois da sua eleição, por isso, já representava um programa. Joseph Ratzinger não se tornou João Paulo III, como talvez muitos teriam desejado. Em vez disso, se religou a Bento XV – o não ouvido e desventurado grande papa da paz dos anos terríveis da Primeira Guerra Mundial – e a São Bento de Núrsia, patriarca do monaquismo e patrono da Europa.

Eu poderia aparecer como superteste para testemunhar que, nos anos anteriores, o cardeal Ratzinger nunca tinha pressionado para subir ao mais alto ofício da Igreja Católica. Em vez disso, ele já sonhava vivamente com uma condição que lhe permitisse escrever em paz e tranquilidade alguns últimos livros. Todos sabem que as coisas ocorreram de forma diferente.

Durante a eleição, além disso, na Capela Sistina, eu fui testemunha de que ele viveu a eleição como um "verdadeiro choque" e sentiu "perturbação", e que sentiu "vertigem" assim que entendeu que "o machado" da eleição cairia sobre ele. Não revelo aqui nenhum segredo, porque foi o próprio Bento XVI que confessou tudo isso publicamente por ocasião da primeira audiência concedida aos peregrinos que vieram da Alemanha. E, assim, não surpreende que Bento XVI foi o primeiro papa que, logo depois da sua eleição, convidou os fiéis para rezarem por ele, fato este que, mais uma vez, este livro nos recorda.

Regoli traça os diversos anos de ministério de modo fascinante e comovente, reevocando a maestria e a segurança com que Bento XVI exerceu o seu mandato. E que vieram à tona desde que, poucos meses depois da sua eleição, ele convidou para uma conversa privada tanto o seu antigo e tenaz antagonista Hans Küng, quanto Oriana Fallaci, a agnóstica e combativa "rainha" da mídia laica italiana, de origem judaica; ou quando nomeou Werner Arber, evangélico suíço e prêmio Nobel, como primeiro presidente não católico da Pontifícia Academia das Ciências Sociais.

Regoli não silencia a acusação de falta de conhecimento dos homens que, muitas vezes, foi dirigida ao genial teólogo em vestes de pescador; capaz de avaliar de modo genial textos e livros difíceis, e que, apesar disso, em 2010, com franqueza, confidenciou a Peter Seewald como achava difíceis as decisões sobre as pessoas, porque "ninguém pode ler no coração do outro". Como é verdade!

2010, o "ano negro" do pontificado

Justamente Regoli define aquele 2010 como um "ano negro" para o papa e, precisamente, em relação ao trágico acidente fatal ocorrido com Manuela Camagni, uma das quatro Memores pertencentes à pequena "Família pontifícia". Eu certamente posso confirmar isso. Em relação a essa desgraça, os sensacionalismos midiáticos daqueles anos – do caso do bispo tradicionalista Williamson até uma série de ataques cada vez mais mal-intencionados contra o papa –, embora tendo um certo efeito, não atingiram o coração do papa tanto quanto a morte de Manuela, arrancada tão de repente do nosso meio.

Bento XVI não foi uma "papa ator", e muito menos um insensível "papa autômato"; também no trono de Pedro, ele foi e continuou sendo um homem; ou, como diria Conrad Ferdinand Meyer, não foi um "livro engenhoso", foi "um homem com as contradições". É assim que eu mesmo pude conhecê-lo e apreciá-lo cotidianamente. E assim ele permaneceu até hoje.

Regoli observa, porém, que, depois da última encíclica, Caritas in veritate, de 4 de dezembro de 2009, um pontificado dinâmico, inovador e com uma forte carga do ponto de vista litúrgico, ecumênico e canônico, é como se, de repente, aparecesse "desacelerado", bloqueado, atolado.

Embora seja verdade que, nos anos seguintes, o vento contrário aumentou, não posso confirmar esse juízo. As suas viagens ao Reino Unido (2010), à Alemanha e a Erfurt, a cidade de Lutero (2011), ou ao ardente Oriente Médio – ao encontro dos preocupados cristãos do Líbano (2012) – são todos marcos ecumênicos nesses anos recentes.

A sua conduta decisiva para a solução da questão dos abusos foi e continua sendo uma indicação decisiva sobre como proceder. E quando, antes dele, houve alguma vez um papa que – junto com a sua tarefa muito pesada – também escreveu livros sobre Jesus de Nazaré, que, talvez, também serão considerados como o seu legado mais importante?

Não é necessário aqui que eu me detenha sobre como ele, que foi tão atingido pela repentina morte de Manuela Camagni, mais tarde, também sofreu com a traição de Paolo Gabriele, também este membro da mesma "Família pontifícia". Entretanto, é bom que eu diga de uma vez por todas, com toda a clareza, que Bento XVI, no fim, não renunciou por causa do pobre e mal orientado ajudante de quarto, ou por causa das "guloseimas" provenientes do seu apartamento que, no assim chamado "caso Vatileaks", circularam em Roma como moeda falsa, mas foram comercializadas no resto do mundo como autênticas barras de ouro.

Nenhum traidor ou "corvo" ou qualquer jornalista poderia levá-lo a essa decisão. O escândalo era pequeno demais para uma coisa dessas, e era muito maior o passo bem ponderado de porte histórico milenar que Bento XVI deu.

A renúncia convinha, e Bento XVI a fez

A exposição desses acontecimentos por parte de Regoli merece consideração, até porque ele não levanta a pretensão de sondar e explicar completamente este último e misterioso passo; não enriquecendo, assim, ainda mais, aquele pulular de lendas com mais suposições que nada ou quase nada têm a ver com a realidade. E eu também, testemunha imediata daquele passo espetacular e inesperado de Bento XVI, devo admitir que, para mim, sempre volta à minha mente o conhecido e genial axioma com que, na Idade Média, João Duns Scotus justificou o decreto divino para a imaculada concepção da Mãe de Deus: "Decuit, potuit, fecit". Ou seja: era algo conveniente, porque era razoável. Deus podia, por isso fez.

Eu aplico o axioma à decisão da renúncia da seguinte forma: era conveniente, porque Bento XVI estava consciente de que ele estava perdendo a força necessária para o ofício muito pesado. Ele podia fazê-lo, porque há muito tempo ele já tinha refletido a fundo, do ponto de vista teológico, sobre a possibilidade de haver papas eméritos no futuro. Assim, fê-lo.

A renúncia epocal do papa teólogo representaram um passo à frente, essencialmente pelo fato de que, no dia 11 de fevereiro de 2013, falando em latim diante dos cardeais surpresos, ele introduziu na Igreja Católica a nova instituição do "papa emérito", declarando que as suas forças não eram mais suficientes "para exercer de modo adequado o ministério petrino".

A palavra-chave daquela declaração é munus petrinum, traduzido – como acontece na maioria das vezes – como "ministério petrino". No entanto, munus, em latim, tem uma multiplicidade de significados: pode significar serviço, tarefa, guia ou dom, até mesmo prodígio. Antes e depois da sua renúncia, Bento XVI entendeu e entende a sua tarefa como participação em um tal "ministério petrino". Ele deixou o Sólio pontifício, mas, com a passagem do dia 11 de fevereiro de 2013, não abandonou, de fato, esse ministério.

Em vez disso, ele integrou o ofício pessoal com uma dimensão colegial e sinodal, quase como um ministério em comum, como se, com isso, quisesse reiterar mais uma vez o convite contido naquele lema que, na época, Joseph Ratzinger se deu como arcebispo de Munique e Freising, e que, depois, naturalmente, manteve como bispo de Roma: "Cooperatores veritatis", que significa, justamente, "cooperadores da verdade". De fato, não é um singular, mas um plural, tomado da Terceira Carta de João, na qual está escrito no versículo 8: "Nós devemos acolher essas pessoas, para que sejamos cooperadores da Verdade".

A convivência de dois papas, um ativo e outro contemplativo

Desde a eleição do seu sucessor, Francisco, no dia 13 de março de 2013, portanto, não há dois papas, mas, de fato, um ministério ampliado – com um membro ativo e um membro contemplativo. Por isso, Bento XVI não renunciou nem ao seu nome, nem à batina branca. Por isso, o apelativo correto para se dirigir a ele ainda hoje é "Santidade"; e, por isso, também, ele não se retirou para um mosteiro isolado, mas dentro do Vaticano – como se tivesse dado apenas um passo para o lado para dar lugar para o seu sucessor e para uma nova etapa na história do papado, que ele, com esse passo, enriqueceu com a "central" da sua oração e da sua compaixão posta nos Jardins Vaticanos.

Foi "o passo menos esperado no catolicismo contemporâneo", escreve Regoli, mas uma possibilidade sobre a qual o cardeal Ratzinger tinha ponderado publicamente ainda no dia 10 de agosto de 1978, em Munique, em uma homilia por ocasião da morte de Paulo VI. Trinta e cinco anos depois, ele não abandonou o ofício de Pedro – o que lhe teria sido totalmente impossível, depois da sua aceitação irrevogável do ofício em abril de 2005.

Com um ato de extraordinária audácia, em vez disso, ele renovou esse ofício (mesmo contra a opinião de conselheiros bem-intencionados e, sem dúvida, competentes) e, com um último esforço, o potencializou (como eu espero). É claro, isso é unicamente a história que poderá demonstrar. Mas, na história da Igreja, permanecerá que, no ano de 2013, o célebre teólogo sobre o Sólio de Pedro se tornou o primeiro "papa emeritus" da história.

Desde então, o seu papel – permito-me repetir mais uma vez – é totalmente diferente daquele, por exemplo, do santo Papa Celestino, que, depois da sua renúncia em 1294, quis voltar a ser eremita, tornando-se, em vez disso, prisioneiro do seu sucessor Bonifácio VIII (a quem, hoje, na Igreja, devemos a instituição dos anos jubilares).

Um passo como o feito por Bento XVI até hoje nunca tinha existido. Por isso, não é surpreendente que ele seja percebido por alguns como revolucionário ou, ao contrário, como absolutamente conforme ao Evangelho; enquanto outros ainda veem o papado, desse modo, secularizado como nunca antes e, com isso, mais colegial e funcional, ou mesmo, simplesmente, mais humano e menos sacral. E outros ainda são da opinião de que Bento XVI, com esse passo, quase – falando em termos teológicos e histórico-críticos – desmitificou o papado.

Na sua panorâmica do pontificado, Regoli expõe tudo isso claramente como nunca antes. Talvez a parte mais comovente da leitura, para mim, foi a passagem em que, em uma longa citação, ele lembra a última audiência geral de Bento XVI, no dia 27 de fevereiro de 2013, quando, debaixo de um inesquecível céu límpido e claro, o papa, que dali a pouco renunciaria, resumiu o seu pontificado assim:

"Foi um trecho de caminho da Igreja que teve momentos de alegria e de luz, mas também momentos nada fáceis; senti-me como São Pedro com os Apóstolos no barco no lago da Galileia: o Senhor nos deu tantos dias de sol e de brisa leve, dias em que a pesca foi abundante; também houve momentos em que as águas estavam agitadas, e o vento, contrário, como em toda a história da Igreja, e o Senhor parecia dormir. Mas sempre soube que, naquele barco, está o Senhor e sempre soube que o barco da Igreja não é meu, não é nosso, mas é Seu. E o Senhor não vai deixá-lo afundar; é Ele quem o conduz, certamente também através dos homens que Ele escolheu, porque assim quis. Essa foi e é uma certeza, que nada pode ofuscar".

Devo admitir que, ao reler essas palavras, as lágrimas quase poderiam vir ainda aos meus olhos, e ainda mais por eu ter visto pessoalmente e de perto como foi incondicional, para si e para o seu ministério, a adesão do Papa Bento XVI às palavras de São Bento, para o qual "nada deve se antepor ao amor de Cristo", nihil amori Christi praeponere, como é dito na regra que nos foi transmitida pelo Papa Gregório Magno.

Na época, eu fui testemunha disso, mas ainda agora fico fascinado com a precisão daquela última análise na Praça de São Pedro, que soava tão poética, mas não era nada mais do que profética. De fato, são palavras que, hoje, o Papa Francisco imediatamente também poderia assinar embaixo, e certamente assinaria. Não aos papas, mas a Cristo, ao Senhor mesmo e a mais ninguém pertence a barca de Pedro, chicoteada pelas ondas do mar em tempestade, quando, sempre de novo, tememos que o Senhor esteja dormindo e que não se importe com as nossas necessidades, enquanto lhe basta apenas uma palavra para fazer cessar toda tempestade; quando, em vez disso, o que nos fazer cair continuamente em pânico, mais do que as ondas altas e os uivos do vento, são a nossa incredulidade, a nossa pouca fé e a nossa impaciência.

Assim, esse livro lança, mais uma vez, um olhar consolador sobre a pacífica imperturbalidade e serenidade de Bento XVI, no leme da barca de Pedro nos anos dramáticos de 2005 a 2013.

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