O confronto aberto dentro da Igreja: os temores da "base" do mundo católico. Artigo de Massimo Franco

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20 Mai 2016

Os verdadeiros espinhos da Igreja florescem em uma indistinta "base católica". Trazem à tona uma nebulosa que se sente pouco representada pela própria hierarquia. Mas que, mesmo assim, está pronta para acertar as contas com um mundo acusado de legislar sem legitimação popular; de ser hostil à ética religiosa e ao "direito natural"; e, portanto, de destruir as bases da família tradicional.

A opinião é do jornalista italiano Massimo Franco, colunista político do jornal Corriere della Sera, 18-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

É uma Igreja italiana enfraquecida aquela que deve enfrentar o desafio das uniões civis. Enfraquecida pelos contrastes internos; por algumas incompreensões com o papado argentino; e pela realidade de interlocutores voláteis no mundo político, para além da correção das relações institucionais.

A distância do governo de Matteo Renzi está se tornando quase sideral: prova disso é a dureza de um expoente católico moderado como o ministro do Interior, Angelino Alfano, irritado com as palavras do cardeal Angelo Bagnasco sobre uma lei que levaria, de fato, ao "útero de aluguel" para os casais homossexuais. "O pensamento de Bagnasco", reagiu, "não corresponde à lei."

Esse pano de fundo de incerteza expõe a Conferência Episcopal Italiana (CEI) não só aos ataques externos. É verdade que o Partido Democrático e a esquerda tendem a reencontrar a sua compacidade quase apenas sobre temas caros antigamente sobretudo aos radicais.

Mas a exposição é dupla: as críticas chegam, mais ou menos explicitamente, também de dentro do mundo católico; e, talvez, são as mais embaraçosas e corrosivas para o episcopado. Casos como as normas sobre as uniões civis mostram como a fidelidade partidária dos "católicos do Partido Democrático" valoriza a pertença religiosa, confirmando uma laicização irreversível da política.

Mas, paralelamente, testemunha como os componentes mais tradicionalistas do catolicismo tendem a levar a Igreja rumo ao confronto com governos e setores culturais considerados hostis e "minoritários": por mais que o assunto deva ser totalmente demonstrado.

O resultado é de apresentar um Vaticano desafiado à esquerda por um primeiro-ministro que diz ter jurado "sobre a Constituição e não sobre o Evangelho", nas palavras surpreendentes de Renzi; e à direita por componentes xenófobos que tentam reduzir as distâncias do Vaticano no plano dos "valores", não podendo fazer isso em matéria de imigração.

Os verdadeiros espinhos, no entanto, são extraparlamentares e extrapolíticos: florescem em uma indistinta "base católica". Trazem à tona uma nebulosa que se sente pouco representada pela própria hierarquia. Mas que, mesmo assim, está pronta para acertar as contas com um mundo acusado de legislar sem legitimação popular; de ser hostil à ética religiosa e ao "direito natural"; e, portanto, de destruir as bases da família tradicional.

Em grande parte, é o mesmo mundo que organizou o Family Day, apesar da frieza de grande parte da CEI e do silêncio do Papa Francisco, intencionado a ficar longe das polêmicas italianas entre política e bispos. E é um mundo que não despreza nem mesmo o recurso ao instrumento do referendo, passando por cima de temores e cautelas compreensíveis do Vaticano.

Os referendos do passado, sobre o divórcio em 1974 e sobre o aborto em 1981, não trouxeram sorte para a Igreja. Ao contrário, sancionaram a sua condição de minoria na Itália, desencorajando-a de se engajar em novos testes de força com uma sociedade que eles não controlam mais, como nos anos 1950.

Dentre outras coisas, os casos de pedofilia, embora raros, de alguns sacerdotes poderiam se tornar pesados em uma campanha em que, pela sua dinâmica interna, prevalecem as tendências mais extremistas e divisivas.

Portanto, quando o presidente da CEI ataca a lei da senadora Monica Cirinnà, do Partido Democrático, ele tenta levar em conta o que aconteceu com o Family Day. Oficializa a ruptura com o governo, ao custo de deslocar um ministro como Alfano, criticado há alguns meses pelo Vaticano porque tinha pensado em um referendo contra as uniões civis.

E supera as posições do secretário-geral, Dom Nunzio Galantino, que, até o fim, tinha confiado em uma mediação com o Palazzo Chigi: para se encontrar, no fim, com o pedido de confiança sobre o procedimento.

Nas entrelinhas, entreveem-se as tensões persistentes na CEI entre presidente e secretário dos bispos: o primeiro, mais assertivo em relação ao governo; o segundo, mais dialogante, fortalecido também pela atitude de Jorge Mario Bergoglio.

Com efeito, mesmo agora, o pontífice fica em segundo plano. Ele se mostra atento e, ao mesmo tempo, distante dos assuntos italianos. A sua pastoral europeia, já controversa, em relação à Itália, é ainda mais atormentada. As palavras ao jornal católico francês La Croix sobre o direito à objeção de consciência no tema das uniões civis não podem ser referidas automaticamente à Itália, como consentimento papal às posições mais extremistas.

Por isso, o fantasma de um referendo parece ser uma questão que não diz respeito apenas às relações Igreja-política, mas ao modelo de Igreja italiana em incubação. Não se deve excluir que, no fim, tanto Francisco quanto a CEI poderão sofrer a estratégia do confronto: uma estratégia que não puderam frear, antes ainda de querer freá-la. E podemos ter certeza de que alguns vão tirar proveito disso, usando instrumentalmente a nobre bandeira da religião.

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