19 Mai 2016
Se o célebre Santo Antônio, o Egípcio, que nasceu em 251 e morreu talvez aos 105 anos, tinha sido o pai do monaquismo eremítico, Pacômio se tornou o progenitor do monaquismo comunitário.
A opinião é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 15-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
O seu nome na língua copta significava "falcão real": Pacômio, o pai do "mosteiro", uma das tipologias de vida espiritual que permanece até hoje, ainda que através de um arco-íris de morfologias diferentes, nasceu no Alto Egito em 292.
Aos 20 anos, foi alistado no exército romano por um ano. Despedido, foi batizado e começou um itinerário de dura ascese sob a orientação de um anacoreta, em uma solidão e em um regime de vida muito duro.
Duas misteriosas revelações revolucionaram a sua vida. Um dia, enquanto coletava lenha, ouviu uma voz: "Pacômio, lute, fique neste lugar e erga um mosteiro!". Outra vez, em uma pequena ilha do Nilo onde tinha aportado para recolher juncos, durante uma vigília noturna de oração, um anjo o advertira por três vezes: "Pacômio, a vontade de Deus para você é servir a estirpe dos homens para uni-los a Ele".
Essas duas visões são o gérmen de uma reviravolta radical que, como se fosse uma sineta tocada por ele, convocou muitos eremitas e anacoretas, que viviam nos ensolarados pântanos solitários do deserto egípcio, isolados do resto da humanidade, para se reunirem no "mosteiro cenobítico".
Essa expressão é, substancialmente, um oxímoro, porque, em grego, mónos é "sozinho, único", enquanto koinós (daí "cenóbio"), no entanto, é "comum, solidário". Pacômio foi, portanto, se não o inventor, certamente o pioneiro de uma nova experiência espiritual, na qual, às horas de solidão contemplativa e aos espaços de isolamento, associavam-se, como contraponto, fases de oração comum, de catequese, de encontros cotidianos naquela que, com um termo grego, era definida como a "sinaxe", isto é, a assembleia, o reunir-se juntos.
Havia até o esboço de uma veste comum: túnica de linho sem mangas, cinto, uma pele de cabra sobre os ombros, um capuz com a insígnia do mosteiro, sandálias, um manto para a noite, para as assembleias e as viagens.
Uma comunidade, portanto, de iguais, no rastro do retrato que São Lucas tinha esboçado sobre a Igreja de Jerusalém: "A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum entre eles" (Atos dos Apóstolos 4, 32).
Na base, no entanto, havia uma estrutura bem codificada por Pacômio em "regras" pontuais e destinadas a se ramificar em uma verdadeira federação, no dia 9 de maio de 346, sob a fúria da peste, quando ele morria, no Egito, estendia-se uma koinonia, isto é, uma rede comunitária de nada menos do que nove mosteiros masculinos e dois femininos, com centenas e talvez milhares de monges (São Jerônimo, exagerando, falava de 50 mil!).
Se o célebre Santo Antônio, o Egípcio, que nasceu em 251 e morreu talvez aos 105 anos, tinha sido o pai do monaquismo eremítico, Pacômio se tornou, em vez disso, o progenitor do monaquismo comunitário.
Ora, para reconstruir o retrato que apenas esboçamos, os historiadores têm à disposição, além das Regras e das Cartas (curiosamente compostas de acordo com um cifrário secreto), muitas fontes biográficas que chegaram até nós em um leque linguístico múltiplo, do copta agrego, do árabe ao latim.
Luigi d'Ayala Valva, membro da comunidade monástica de Bose (Biella), apresenta, pela primeira vez em versão italiana, os quatro textos hagiográficos mais antigos dedicados à figura de Pacômio: o relato contínuo e coerente da primeira vida grega do santo e do seu principal discípulo, Teodoro, que o estudioso acompanha com um imponente e exemplar aparato exegético e hermenêutico; os Paralipômenos, isto é, "as coisas ignoradas", omitidas pela própria obra anterior, uma coleção de narrativas independentes de vários gêneros e conteúdos; a Epístola de Amon, um bispo não muito conhecido que informa um colega seu sobretudo sobre o citado discípulo Teodoro e sobre a comunidade pacomiana onde ele também tinha passado períodos da sua vida; por fim, um extrato da História Lausíaca composta entre 419 e 420 por Paládio, um bispo que delineou uma galeria de perfis de 71 ascetas, dentre eles também Pacômio.
A esse mergulho na antiga e fascinante espiritualidade do árido e ardente deserto do Egito, associamos outra experiência, colocada, no entanto, em um horizonte místico imerso nas névoas britânicas, mais próximos de nós também cronologicamente.
Também neste caso, é a primeira versão italiana editada por Domenico Pezzini, das Praeces privatae do bispo anglicano Lancelot Andrewes, nascido em Londres em 1555, que deteve cargos pastorais, acadêmicos e até mesmo políticos, e que morreu em 1626, enquanto exercia o episcopado de Winchester.
Essas suas orações, na realidade, se transformam em um manual oferecido para aqueles que querem ascender nos caminhos de altura da espiritualidade profunda, mas sem decolar definitivamente das ruas empoeiradas do vale da cotidianidade.
Basta apenas percorrer o arco temático dessas orações, que vão da profissão de fé à súplica penitencial, da invocação ao louvor, do agradecimento ao pedido de intercessão, do abandono confiante ao lamento implorante, para compreender essa unitariedade entre espiritualidade e história.
Nesses textos, a sobriedade estilística se entrelaça com a intensidade do coração; a evocação direta ou alusiva aos textos bíblicos e patrísticos se cruza com o frescor dos sentimentos pessoais; a essencialidade não elimina nunca as cores múltiplas da realidade humana; a contemplação não perde nos céus o realismo da existência; a variedade dos exemplos oferecidos é acompanhada por uma série de notas pedagógicas para aprender a rezar seriamente, em tempos e espaços (até mesmo a "praia"!) definidos.
Essa riqueza nunca tinha fugido de um grande poeta como Eliot, que, no início da sua Viagem dos Magos (1927), tinha colocado justamente algumas frases de Andrewes. O editor italiano prefere acenar, em vez disso, ao ano jubilar atual e, na quarta capa, cita esta invocação: "Graças à tua misericórdia, ó Deus, não somos aniquilados; a tua misericórdia vem ao nosso encontro, nos segue, nos cerca, nos perdoa, nos coroa".
Como salientamos, a mística autêntica não é espiritualismo esotérico e alienante, mas é semente deposta no terreno das vicissitudes humanas. Precisamente por isso, gostaria de citar uma passagem do ensaio La fede dei demoni [A fé dos demônios] (traduzido pela editora Marietti 1820, em 2010), do filósofo francês Fabrice Hadjadj, de origem judaica, convertido do ateísmo ao catolicismo:
"Satanás é muito espiritual. A sua natureza é a mesma que um espírito puro. Nele, não há nem mesmo uma onça de matéria. Ele não tem propensão para o materialismo banal. E portanto – pode-se apostar – a espiritualidade é o seu estratagema."
Certamente, Satanás prefere uma espiritualidade individualista, egoísta, intimista e detesta a "carnalidade" cristã que une fé e caridade. Precisamente por isso, não só o materialismo duro é antitético à autêntica mística, mas também o espiritismo etéreo, mágico, esnobe, embebido em exotismo, à la "Nova Era", em que mensagem e massagem, ioga e iogurte, jejum e dieta, ascese e fitness se abraçam e se confundem.
- Luigi d’Ayala Valva (org.). Pacomio, servo di Dio e degli uomini. Introdução de William Harmless. Bose (Biella): Qiqajon, 602 páginas.
- Lancelot Andrewes. Una guida alla preghiera. Edição de Domenico Pezzini. Bose (Biella): Qiqajon, 359 páginas.