O monoteísmo sob acusação

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06 Mai 2016

Uma diatribe de interesse considerável se acendeu nas páginas do caderno dominical "culto" do jornal Corriere della Sera, La Lettura, nas bancas nesta semana. A questão da discórdia está explícita já no título: "Processo ao monoteísmo".

O comentário é de Fabio Della Pergola, em artigo publicado no sítio Agora Vox, 05-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Como em todo processo juridicamente sensato, aqui também há um acusador, nas vestes do historiador da antiguidade Luciano Canfora, e um defensor personificado pela filósofa romana Donatella Di Cesare.

O artigo transcorre, na realidade, em dois níveis: um evidente – avaliar se o monoteísmo em si é portador de violência e intolerância, ou se é um processo evolutivo da história humana – e um latente, que se articula na acusação (ou na defesa) do judaísmo considerado, assim como uma opinião difusa urbi et orbi, como o verdadeiro "inventor" do monoteísmo.

A acusação de Canfora se desenvolve, como de praxe, insistindo na intolerância monoteísta, embora – com acadêmica elegância – ele reconheça que nem a violência, nem a intolerância foram, na história, uma exclusividade do monoteísmo; por exemplo, ele cita a condenação que os atenienses impuseram a Sócrates acusado de "não crer nos deuses da cidade".

Bastaria pensar na violenta e cruel expansão do Império Romano, eu acrescentaria, ou na intolerância hindu dentro (as castas) ou fora (as relações com os muçulmanos) da sua própria cultura. Ou ainda lembrar uma passagem em que Tucídides relata a motivação com que os atenienses – de novo eles! – se dirigiram aos melianos que não queriam ser submetidos: "Aquilo que fazemos, aquilo que pretendemos, de fato, não se coloca fora da concepção que os homens têm do mundo divino nem da sua recíproca disposição. Não só entre os homens, como se sabe, mas, pelo que se sabe, também entre os deuses, um necessário e natural impulso leva a dominar aquele que você pode subjugar". Na cara da "tolerância" politeísta.

Mas Canfora nos recorda justamente que, onde há "o livro 'único' e 'o único detentor da verdade'", não pode existir aquela proliferação de reinterpretações dos mitos típicos da tradição grega, mas se determina, no máximo, a proliferação das acusações de heresia; com tudo o que se segue.

No fim, porém – e aqui nos aproximamos decididamente de um interesses mais moderno, que pode dizer respeito de perto também a um ateu racionalista –, o ponto é que o monoteísmo também se veste da "evolução em sentido deísta, isto é, de veneração a uma entidade divina abstrata (to theion) que caracteriza o politeísmo pagão (...) por influência do pensamento filosófico".

Uma entidade divina abstrata que, portanto, também pode dizer respeito de perto à cultura nominalmente politeísta greco-romana ou ao racionalismo não religioso: devemos lembrar a Deusa da Razão sobre a qual se fundamenta a modernidade do Ocidente iluminista?

Ainda mais – lembra-nos Canfora – que "esse fenômeno sincrético, de depuração das rigidezes teológicas, é inexorável" em uma época em que o ecumenismo não é senão "deísmo inconfessado".

Em torno da "entidade divina abstrata", se encontrariam, no fim, todos de acordo. A negatividade, violenta e intolerante, monoteísta seria, portanto, um legado do passado, mais do que a essência do presente; um legado que ainda ressoa em um Islã que "reflete, no seu desenvolvimento histórico, uma fase que corresponde à do cristianismo nos séculos XVI e XVII, cujo símbolo é a Noite de São Bartolomeu". O massacre dos huguenotes.

Do banco da defesa, ergue-se em contraponto a filósofa Di Cesare, que lembra a drástica acusação de Michel Onfray (conhecido pelo seu "Tratado de ateologia", publicado na Itália pela editora Fazi), não só ao monoteísmo, mas também àqueles que o inventaram: "os judeus".

Necessariamente mais articulada é o chamado no banco dos imputados de outro estudioso das religiões, o egiptólogo alemão Jan Assmann, que introduziu nas reflexões sobre o monoteísmo o conceito de "distinção mosaica". Ou seja, aquela particularidade da religião de Moisés pela qual o Deus verdadeiro seria o de Israel, enquanto os outros deuses seriam "falsos". Não inexistentes – realmente seria problemático dizer isso –, mas falsos.

E essa "distinção", que nega verdade aos deuses dos outros, seria o fundamento real do monoteísmo bíblico e a sua originalidade. Uma pena que justamente Assman recentemente entregou à editora o seu último livro (Il disagio dei monoteismi [O desconforto dos monoteísmos), em que se diz que a "distinção" entre deus verdadeiro e deuses falsos nos textos mosaicos da Bíblia hebraica, pois bem, não existe. No máximo, em relação aos israelitas, há um premente convite de fidelidade, bastante óbvio, ao Deus de Israel (daí o "ciúme" d'Ele).

Desmontada a origem bíblica do monoteísmo (que Assman agora remete a uma influência do zoroastrismo persa), a pergunta, neste ponto, se torna: por que o monoteísmo é considerado, pelos seus defensores de ofício, uma passagem evolutiva na história humana?

Di Cesare tem a sua resposta: "para sair do mundo" em que os pagãos politeístas estavam confinados, saltando "de uma estrela que é uma deusa a um rio que é um deus". A imanência dos deuses do politeísmo – espíritos que vivem no meio dos homens, intervindo nos seus assuntos para favorecer, aconselhar, sugerir, impor, dificultar ou simplesmente para "encher o saco" sic et simpliciter – fecha os homens em um mundo "sem saída".

O Deus único de "Israel dessacraliza o mundo – escreve a filósofa –, tira a magia, rompe com a idolatria (...) Por isso, o judaísmo poderia até se assemelhar ao ateísmo. E corre esse risco. Porque o monoteísmo judaico requer que nos relacionemos com o infinitamente Outro a partir da separação". O homem está aqui, Deus está lá, em um transcendente "fora do mundo".

Aqui o sentido "evolutiva" do monoteísmo judaico.

Mas, depois, cai o ponto pesado: "Segundo uma etimologia antiga, Israel significa 'que Deus reine' e pode ser traduzida em grego como teocracia, poder de Deus. Nessa forma política, 'ninguém está assujeitado a um igual'". A teocracia seria condição essencial da democracia, justamente porque, "na experiência da libertação da escravidão, na igualdade de todos, que exclui toda domínio, senão o do absolutamente Outro, emerge, pela primeira vez, a democracia".

Uma pena que o Outro seja, para Di Cesare, a Ausência, aquele nada que, ao que parece, era a realidade interna do Templo de Jerusalém quando os romanos nele entraram para saqueá-lo, sem encontrar coisa alguma.

Consequentemente, a democracia não seria nada mais do que o assujeitamento – de todos... democraticamente – ao Outro que é Ausente, ao supremo Nada. Tema caro a Di Cesare, capaz de denunciar por flagrante nazismo e antissemitismo o nume moderno do Nada, Martin Heidegger, mas também de descrever a sua filosofia como "o pensamento mais elevado emprestado ao horror mais abissal". Sic.

E também é uma pena que a etimologia de Israel seja ainda hoje muito mais controversa do que o que é por ela afirmado; de acordo com o Online Etymology Dictionary, significa "aquele que se confrontou com Deus", mas, de acordo com Giovanni Semerano, que entendia de etimologia, ao contrário, vale um mais plausível "justo é El". Afirmação que, de fato, não indica um supino assujeitamento ao absoluto, mas a afirmação óbvia de que o Elohim de Israel era considerado "justo" pelo próprio Israel. Teria sido estranho o contrário, eu diria.

E aqui entra em jogo outra consideração que nos deriva de um biblista de calibre excepcional (e, por isso, relegado pelo poder eclesiástico ao mundo dos párias, onde, no entanto, é possível estar longe dos delírios desse mesmo poder). Eu falo daquele Carlo Enzo, que, nas páginas do jornal La Repubblica, disse: "O que é o Elohim da Torá, senão o próprio povo que deu a si mesmo a sua constituição, as suas leis, os seus imperativos morais?".

Portanto, ele fala de "espírito do povo", não de Deus; "'Mas isso – pergunta o entrevistador – não significa limitar o seu absoluto? A objeção – responde o biblista – teria sentido se traduzíssemos 'Elohim' como 'Theos', já que 'Theos' é o absoluto. Mas o 'Elohim' não é o absoluto".

O bonito é que Assman também, em um ensaio de 2006, Gewalt, Gesetz und Monotheismus [Violência, lei e monoteísmo], se perguntava "onde está escrito que no Monte Sinai assistimos à fundação de uma 'religião'? (...) O conceito de 'revelação' em relação ao evento sinaítico parece inadequado e, em todo o caso, não bíblico. A Torá não é 'revelada', mas 'dada'. O que é 'revelado' é uma verdade escondida, não uma lei. Uma lei é decretada, promulgada, declarada vigente, em suma, é 'dada', como diz a letra da expressão hebraica".

Com a Torá, forma-se uma lei, uma Constituição, um estado de direito, se quisermos, não uma religião, muito menos uma religião monoteísta assujeitada a um Nada. O "deus" da Bíblia hebraica não é um Deus (Theos) absoluto; é discutível, portanto, o uso de termos como teo-cracia, teo-logia ou mono-teísmo, como Assman – contradizendo a si mesmo – continua fazendo. E como fizeram Onfray, Di Cesare e tantos outros antes deles, ao falar de "monoteísmo bíblico". Com todo o respeito a todas as teo-logias (judaicas, cristãs ou muçulmanas que sejam).

A democracia bíblica se funda na sua ética: ela rejeita os sacrifícios humanos e pede que se ame o próximo como a si mesmo (Levítico 19, 18); isto é, que se reconheça aos outros a mesma dignidade humana que se afirma para si mesmo. E convida a considerar como "próximo a amar" até mesmo o estrangeiro que vive em paz no meio do próprio povo (Levítico 19, 34). Razão pela qual existe uma única lei para o judeu e para o não judeu (Êxodo 12, 49). Nem suprematismo étnico, nem discriminação jurídica, nem privilégios de casta: fruto de um povo que, escreve Enzo, tenta "fazer-se moralmente alto".

São passagens da Torá que, de vez em quando, deveriam ser lembradas, até mesmo para alguns judeus.

Depois, esclarecido tudo isso, se poderá ir em busca das verdadeiras origens do monoteísmo, que é a religião do Absoluto, lá onde a humanidade realmente se assujeitou ao Nada, e em que o humano Elohim, "espírito do povo", por fim, foi substituído pelo Deus da teologia e do deísmo da filosofia, até o moderno Volksgeist, em torno do qual, depois, se articulou o suprematismo nazista com o seu resultado de aterrorizantes devastações.

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