Peru. “Com Keiko a democracia está em perigo”

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Por: André | 05 Maio 2016

Indira Huilca é o rosto da nova esquerda do Peru. Quando ela tinha quatro anos o regime fujimorista assassinou o seu pai, um conhecido sindicalista. A parlamentar está preocupada com uma eventual vitória da filha de Fujimori.

A reportagem é de Carlos Noriega e publicada por Página/12, 04-05-2016. A tradução é de André Langer.

Seu pai, um reconhecido sindicalista, foi assassinado pelo governo de Alberto Fujimori quando ela tinha quatro anos. Agora, Indira Huilca está com 27 anos e foi eleita deputada pela Frente Ampla, de esquerda. Quando assumir como parlamentar, Indira o fará em um congresso dominado pelo fujimorismo, com um filho do ex-ditador Alberto Fujimori, responsável pelo assassinato de seu pai, sentado perto dela como congressista. E, provavelmente, com Keiko, a filha e herdeira política de Fujimori, como presidente do país.

Que sensações essa situação produz em você?

“No nível pessoal, pode haver muitas sensações”, responde, mas disse que a questão não passa do pessoal. “O que sinto, como cidadã, é uma grande preocupação com o que possa acontecer. Para além das pessoas, o fato de que haja quem reivindique o fujimorismo me parece pavoroso. Não se trata de que alguém seja julgado por ser filho de determinada pessoa, mas pelo que politicamente é capaz de assumir. Parece-me desconcertante e inexplicável que ainda haja quem reivindique o fujimorismo”.

Em 1992, ano do golpe de Alberto Fujimori, Pedro Huilca, o pai de Indira, era o secretário-geral da Confederação Geral de Trabalhadores do Peru (CGTP), a principal central sindical do país. O regime autoritário fujimorista impunha uma ferrenha política neoliberal que levou a uma drástica redução do poder aquisitivo dos trabalhadores e à eliminação de direitos trabalhistas. Huilca, um respeitado líder sindical, liderava os protestos.

Uma manhã de dezembro desse ano foi morto na frente da sua casa quando acabava de entrar no carro. Estava com dois de seus cinco filhos quando foi assassinado. O governo tentou culpar o grupo armado maoísta Sendero Luminoso pelo crime, mas todas as evidências conduziam ao esquadrão da morte Colina, formado pelo regime fujimorista com membros em atividade do Exército e que respondia às ordens do governo. Anos depois, testemunhos de alguns de seus membros confirmaram essa autoria.

“Desde o início, nós sabíamos muito bem que o assassinato do meu pai foi cometido pelo grupo Colina e que o governo era responsável por esse ato. Quem assumiu a luta pela justiça depois do assassinato do meu pai foi minha mãe e minha irmã maior, que, na época, tinha 18 anos e que, junto com meu irmão, presenciou o assassinato do meu pai. Eu cresci no marco dessa luta para que se faça justiça”, recorda Indira.

Fujimori e os membros do Colina foram sentenciados por outros assassinatos, mas o do sindicalista Huilca segue na impunidade. Indira enfatiza que essa impunidade é a de muitos casos de violações dos direitos humanos.

A jovem congressista eleita, graduada em Sociologia e que começou sua atividade política na universidade, fala da admiração que sente por seu pai, mas destaca as diferenças entre a atual esquerda, à qual ela pertence, e a chamada “esquerda tradicional”, da qual seu pai fez parte.

“Admiro muito o meu pai – disse Indira. Ele é uma das referências mais claras para mim, e acredito que para muita gente da esquerda na atualidade, porque a sua liderança foi muito forte, clara, aberta ao diálogo. Mas o caminho seguido por aqueles que estão na Frente Ampla é diferente. Soubemos ler a história de luta da esquerda e reconhecê-la, mas entendemos que se fazia necessário uma ruptura com essa esquerda tradicional. Na esquerda, houve uma mudança geracional, mas também uma renovação de práticas e ideias”.

Ela é um dos rostos mais notórios dessa mudança geracional da esquerda. Explica em que consiste essa ruptura com a esquerda tradicional. “A esquerda anterior centrou-se muito em debates auto-referenciais e que a impediram de ter um diálogo muito mais aberto com a sociedade. Nós buscamos abrir espaços democráticos nos quais as pessoas possam se sentir convocadas. Nasceu uma nova esquerda, recolhendo o melhor da esquerda histórica de nosso país, mas também ecoando as lutas recentes e incorporando demandas que tradicionalmente não fizeram parte da esquerda, como a luta pelos direitos da comunidade LGTBI, pelo meio ambiente, a defesa dos direitos indígenas e seus territórios. Nesta nova esquerda, atribuímos um peso principal aos processos de democracia interna”.

Indira Huilca revela que entre as suas principais preocupações como congressista estará a defesa dos direitos trabalhistas. “Sim e não”, responde, quando lhe é perguntado se levantar este tema tem a ver com uma continuação da luta de seu pai sindicalista. “Por um lado, evidentemente este tema dos direitos trabalhistas é próximo para mim, mas, por outro lado, nos parece que este é um tema sobre o qual devemos nos reencontrar, mudar seu enfoque tradicional. O debate dos direitos trabalhistas deve sair da discussão dos sindicatos para se dar no conjunto da sociedade”.

Sobre o fujimorismo, disse que “o seu principal objetivo é libertar o Fujimori e livrá-lo de todos os crimes que cometeu”. Assinala que a possível libertação do ex-ditador “seria um golpe muito duro para toda a população que durante anos lutou, deu a vida, para buscar justiça e ter uma resposta frente às graves violações dos direitos humanos ocorridas durante a ditadura fujimorista, muitos dos quais até agora não têm uma resposta”. “Ver o Fujimori livre – acrescenta – me daria uma sensação de rejeição, de sentir que estamos em grave perigo de voltar ao passado”.

Indira Huilca afirma com convicção que uma vitória eleitoral de Keiko Fujimori e um novo governo fujimorista “é o maior perigo para a democracia e o país”, e disse que na Frente Ampla estão em campanha para evitar a volta do fujimorismo ao poder “recordando o que significou e o que significa agora”. Mas esclarece que isso não implica um apoio ao rival de Keiko no segundo turno, o economista Pedro Pablo Kuczynski, de quem critica suas propostas econômicas neoliberais e por ter “uma proximidade com o fujimorismo”. “Essa possibilidade, reflete ao referir-se à possível eleição de Keiko Fujimori para presidente, não pode nos desanimar; pelo contrário, deve nos convocar a seguir lutando muito mais”.

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