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27 Abril 2016

"Talvez a maior lição e recordação de Chernobyl é que devemos compartilhar o mundo com todas as pessoas. O que nós fazemos no mundo e para o mundo influi na vida das pessoas: na saúde (com o número inestimável de vítimas do câncer), na nutrição (com a contaminação inconcebível dos alimentos), e nas futuras gerações (seja com os defeitos insuportáveis de nascimento e o impacto indiscernível sobre os nossos filhos). Esta é a lição que, na Igreja, chamamos comunhão. É a definição mais importante de “Deus é amor” (1 João 4,8) e a expressão mais alta do amor humano", escreve Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico e Arcebispo de Constantinopla - Nova Roma, em mensagem publicada por The Ecumenical Patriarchate of Constantinople, 26-04-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis a mensagem.

Sua Santidade Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico

O poder da memória

Chernobyl, trinta anos depois

Trinta anos atrás, no início da manhã de 26 de abril de 1968, quando a Igreja Ortodoxa estava prestes a embarcar em suas semanas mais sagradas que levam à alegria da Páscoa, a central nuclear de Chernobyl na Ucrânia explodia, criando o pior desastre nuclear que o mundo havia visto até aquele momento.

As consequências do desastre foram sentidas em toda parte: a ponto de partículas radiativas contaminadoras entrarem na Rússia, na Bielorrússia, assim como em países do norte e do leste, provocando uma deserção humana e grande destruição ecológica de amplas áreas ao redor, e causando um dano duradouro e permanente à saúde e a perda de vida humana estimada em um milhão de mortes prematuras.

Com este pano de fundo doloroso de experiência e conhecimento, o que podemos concluir enquanto cidadãos conscientes? O que podemos aprender enquanto fiéis comprometidos? E o que podemos professar enquanto líderes responsáveis?

Em primeiro lugar, jamais devemos esquecer. Para sempre devemos lembrar. Devemos recordar os nomes de todos aqueles, conhecidos e desconhecidos, que perderam suas vidas em consequência de nossas ações, da mesma forma como devemos reter vívidas em nossos corações e mentes as consequências trágicas das nossas falhas. A memória é um atributo poderoso na religião, e em particular no cristianismo, onde ela se torna numa força transformadora. É a forma como nos relacionamos com o passado, mudamos a nossa atitude e nos conduzimos no presente, assumindo a responsabilidade pelo futuro.

Em segundo lugar, chegamos a um ponto no desenvolvimento tecnológico em que devemos aprender a dizer “Não!” a tecnologias com efeitos colaterais destrutivos. Estamos extremamente necessitados de uma ética da tecnologia. Na Igreja Ortodoxa, nós professamos e confessamos que o espírito de Deus “está presente em todos os lugares e preenche todas as coisas” (trecho da Oração ao Espírito Santo). No entanto, devemos também começar a acolher uma visão de mundo que declare e demonstre a convicção bíblica de que “A Javé pertence a terra e tudo o que ela contém” (Salmo 23.1) de forma que possamos nos abster de prejudicar a terra ou de destruir a vida nela. Fomos dotados com recursos únicos de um planeta belo. Entretanto, estes recursos de carbono retirados do subsolo não são ilimitados: quer seja o petróleo do Ártico, quer sejam as areias betuminosas do Canadá, o carvão da Austrália ou o gás da Europa oriental. Mais do que isso, com respeito à energia nuclear especificamente, nós não podemos avaliar o sucesso ou a sustentabilidade em termos puramente de lucros financeiros: os desastres em Three Mile Island (1979), Chernobyl (1986) e Fukushima (2011) demonstraram amplamente o custo humano, financeiro e ecológico. Tampouco, aliás, podemos ignorar os outros problemas advindos da energia nuclear, tais como a eliminação dos resíduos atômicos e a vulnerabilidade a ataques terroristas.

Em terceiro lugar, chegamos a um ponto no nosso desenvolvimento econômico em que devemos aprender a dizer “Basta!” à mentalidade consumista e à competição da economia de mercado. É o momento de sermos honestos com nós mesmos e com Deus, reconhecendo que o evangelho cristão nem sempre é, de fato ou prontamente, compatível com os caminhos do mundo; com efeito, a mensagem de Jesus Cristo e dos Padres da Igreja visa restringir as paixões brutas da ganância e da avareza.

Finalmente, chegamos a um ponto em nossa civilização global em que devemos aprender a dizer “Sim!” a uma outra realidade além de nós mesmos, ao Criador de toda a criação, diante de quem devemos nos ajoelhar em humildade e nos rendermos em oração, reconhecendo que Ele e tudo o que criou é para todos, não somente para os nossos próprios desejos egoístas.

Talvez a maior lição e recordação de Chernobyl é que devemos compartilhar o mundo com todas as pessoas. O que nós fazemos no mundo e para o mundo influi na vida das pessoas: na saúde (com o número inestimável de vítimas do câncer), na nutrição (com a contaminação inconcebível dos alimentos), e nas futuras gerações (seja com os defeitos insuportáveis de nascimento e o impacto indiscernível sobre os nossos filhos). Esta é a lição que, na Igreja, chamamos comunhão. É a definição mais importante de “Deus é amor” (1 João 4,8) e a expressão mais alta do amor humano.

Este novo jeito de pensar – esta nova ética que aspira a um “novo céu e a uma nova terra” (Ap 21,1) – é o que deveria ser ensinado em cada paróquia e em todos os cantos do mundo. Chernobyl deveria ser uma lição sobre contenção e partilha. Devemos mostrar compaixão; devemos demonstrar respeito; e devemos promover a paz, não só com o próximo, mas também com toda a criação.

Na qualidade de Igreja Mãe da Ucrânia, nós oramos com fervor para que a memória de Chernobyl seja eterna e não em vão.

No Patriarcado Ecumênico, 26 de abril de 2016
Bartolomeu
Arcebispo de Constantinopla-Nova Roma
e Patriarca Ecumênico

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