"A fé, para Francisco, não é um grande farol, mas uma pequena lanterna que ilumina um passo após o outro". Entrevista com Walter Kasper

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25 Abril 2016

Quando, há mais de dois anos, o Papa Francisco começou a procurar tornar menos forte a enorme contradição entre, de um lado, a moral sexual e a pastoral familiar católica e, do outro, a vida cotidiana dos fiéis, pediu ao cardeal emérito Walter Kasper que se ocupasse da coisa e abrisse aos seus coirmãos os olhos e os ouvidos.

A entrevista é de Peter Pappert e Bernd Matheiu, publicada por Aachener Zeitung, Alemanha, 22-04-2016.  A tradução é de Benno Dischinger.

O cardeal alemão é considerado em Roma “o homem para os casos problemáticos” e ele desenvolveu antes e durante o Sínodo sobre a família um papel de grande relevo. Para a sagacidade e o talento de Kasper apontam também os responsáveis do Prêmio Carlos Magno para convencer o Papa a aceitar – excepcionalmente – esta honorificência. Os nossos redatores falaram com Kasper de Francisco e de suas linhas guia, bem como da resistência que Francisco encontra na Igreja.

Eis a entrevista.

Francisco segue um programa ambicioso. Qual é sua ressonância na Igreja e na Cúria vaticana?

A grande maioria das pessoas, bem além da Igreja católica, é entusiasta deste Papa. Na Cúria existe também resistência. Mas, em qual ambiente não existe? Se na vossa redação tudo fosse completamente mudado, haveria resistência.

O Papa quer mudar tudo na Cúria?

Já está mudando tudo, mas não só do ponto de vista estrutural. A ele interessa acima de tudo a mentalidade. Quando se muda a mentalidade, as reformas estruturais produzem algo útil. E para fazer isto, é preciso tempo. Francisco está trabalhando nisso. Francisco proclamou o Ano da misericórdia. Misericórdia é o conceito central do seu pontificado.

Há quatro anos você escreveu um livro sobre a misericórdia e o presenteou ao cardeal Jorge Bergoglio em março de 2013, durante o conclave no Vaticano. Como sucedeu isto?

Alguns dias antes do início do conclave fora publicada a edição em espanhol do livro. Dei-o então de presente ao cardeal Bergoglio, quando o vi ante a porta do quarto na residência “Santa Marta”. Os quartos são sempre sorteados entre os cardeais antes do conclave e ele estava hospedado precisamente na minha frente. Ficou fascinado pelo título “Misericórdia” e, evidentemente, leu o livro durante o conclave.

No primeiro domingo após sua eleição, Francisco citou expressamente o seu livro na Praça São Pedro e aconselhou sua leitura. O que pensou naquele momento?

Eu o vi na televisão e pensei (ri): “Mas o que vem em mente ao Papa?“. Mais arde ele me disse: “Fiz propaganda para você”.

Para você, Bergoglio era alguém que já antes do conclave devia ou podia tornar-se Papa?

Seguramente ele era também para mim um potencial candidato. Mas a coisa verdadeira ocorreu no conclave; teve-se a impressão de que algo se movesse. Me confirmaram isso também outros cardeais. Bergoglio era seguramente alguém a quem se olhava. A Cúria andava em crise; devia chegar alguém de fora. Ele havia falado muito bem nas fases precedentes ao conclave.

No conclave havia uma forte maioria que considerava serem necessários ares novos de fora, ou precisou fazer grande trabalho de convencimento?

Nisto sou muito reservado. Uma escolha semelhante é uma decisão de consciência. Não se deve procurar exercer demasiada influência.

Formam-se grupos contrapostos em conclave?

Não deveriam existir. Alguns estão naturalmente mais em sintonia, é a coisa mais normal do mundo. Alguns entram em acordo, não é proibido. Mas, não direi que haja verdadeiras e próprias facções. Cada um deve regular-se com base na própria consciência.

Você falou de uma “revolução da ternura e do amor”. É esta ternura que tão raramente existe nos líderes mundiais em política, igreja e economia que faz com que todos os corações sejam conquistados pelo Papa?

Ele é antes de tudo uma pessoa. A gente o sente. E sente que é crível, que vive aquilo que diz. Fala numa língua muito concreta, rica de imagens, que a gente entende. Francisco não é alguém do establishment. Ele quer encontrar as pessoas. Necessita disto. Por isso não habita nos apartamentos papais. Quando lhe foi perguntando por que não se transfere ao palácio, ele disse: “Para mim é um problema patológico. Ali não posso viver. Estarei demasiadamente isolado. Ele deve estar entre o povo”.

Falou-se muito do ar fresco que se respira na Igreja católica, de transparência no Vaticano, de uma virada epocal franciscana. Isso é correto ou exagerado?

Estes conceitos são sempre um pouco exagerados. Mas, é verdade que Francisco quer mudar a fisionomia da Igreja – não a sua essência. Quer uma face humana, misericordiosa, desta Igreja. Quer uma Igreja não com o dedo indicador apontado contra, mas com a mão estendida a acolher. Tem uma grande experiência pastoral de comunidades rurais e de quarteirões miseráveis na Argentina.

O Papa está com os pés no chão, não é de casa num mundo clerical distanciado. Para alguns, na Igreja católica, as coisas não procedem bastante depressa na virada franciscana, para outros já se vai demasiado além... Os críticos e os titubeantes freiam, outros querem mudar todos muito depressa. O Papa não pode fazer isto. Francisco procede em passo a passo; ele quer deixar o menos possível gente para trás. O seu ministério é o ministério da unidade.

Quem freia?

Pessoas que tendem à conservação, que pensam principalmente baseados em princípios que querem ver mantidos; assim perdem em parte o contato com a realidade. Também têm medo de demasiadas mudanças. A cúria é uma instituição antiga na qual se está atento a carreiras e costumes. Certos críticos no interior da Igreja censuram ao Papa o fato de ele já ter abatido muitos muros, mas de não ter nenhum plano para a reconstrução. Dizem que há mais ideias do que substância. Que ele é demasiado espontâneo. Ser espontâneo não é coisa negativa. Francisco se deixa guiar pelo Espírito Santo.

Para ele a fé não é um grande farol, mas uma pequena lanterna que ilumina um passo após o outro, que dá luz para o passo subsequente. Reflete com atenção sobre aquilo que é possível.

Vê-se isso agora também no documento “Amoris laetitia” após o Sínodo sobre a família. O Papa tem acentos novos, mas não deve rachar a Igreja. Ele já constatou há meses que o sínodo abriu a porta para a admissão aos sacramentos, em casos individuais, dos divorciados recasados.

Quão grande é hoje a sua esperança?

A porta está aberta. Mas Francisco não prescreve como ela deva ser atravessada. Não repete declarações tendencialmente negativas de precedentes Papas em mérito ao que é possível ou ao que não é permitido. Portanto dá espaço de liberdade a cada bispo e às conferências episcopais. O sínodo sobre a família mostrou que não existem somente progressistas e conservadores, mas culturas diversas na única Igreja. A autonomia das culturas se evidencia agora claramente. Isto o Papa pretende tomar em conta. Nem todos os católicos pensam como os alemães.

Francisco visa, portanto firmemente o objetivo ao qual acenou por diversas vezes: sinodalidade, descentramento, maiores competências às Igrejas locais. Em “Amoris laetitia” diz nas primeiras duas páginas que não é tarefa do magistério assumir decisões para cada situação particular.

Em segundo lugar diz que a Igreja deve inculturar-se. As culturas são, todavia, muito diversas. Isto significa: junto a nós não pode ser correto o que na África é considerado errado. O Papa deixa, portanto, espaço livre para situações diversas e desenvolvimentos futuros. A Igreja está em movimento. Sim. Francisco não quer deixar tudo como era antes. Fala de paixão e da beleza do amor passional. Não é mais um discurso abstrato como outrora, ou caracterizado pela desconfiança. Há um tom novo. Sim, um tom novo. E vento favorável para a Conferência episcopal alemã. Seguramente.

Será mais fácil para os párocos enfrentarem os problemas da pastoral familiar?

Mais fácil e mais difícil ao mesmo tempo. A práxis junto a nós está há tempo mais aberta. Quando eu era bispo de Rottenburg, um pároco me contou sobre uma mãe que era divorciada e depois redesposada e que havia preparado sua filha à primeira comunhão muito melhor do que outras, uma mulher que também era muito ativa na paróquia e na Caritas. Naquela altura, não podia dizer nada à menina, no dia de sua primeira comunhão: “Tu podes, mas a tua mamãe não”. O pároco tinha plenamente razão. Contei isto ao Papa e Francisco confirmou a minha conduta: “Ali é o pároco que deve tomar uma decisão”. E eu disse: “Decidiu ele”.

Resolver de maneira humana estas situações, neste sentido há vento favorável. De outro lado, não há uma solução pré-estabelecida. O pároco deve ter muito tato e sensibilidade. Não sei se estamos todos adequadamente preparados. É preciso fazer muito na preparação, para que não suceda que cada um faça aquilo que quer. Alguns correm na frente, outros devem ser impelidos à força. Seria melhor haver critérios comuns, não indicações precisas, mas critérios.

O motivo, na base de tudo, continua sendo a misericórdia. Francisco definiria como misericordiosa a conduta da UE com os prófugos do Oriente Médio e da África? Os Estados da UE escutam a sua mensagem?

A mensagem não é acolhida por todos. Também um Papa se choca com uma oposição. De outro lado, a sua visita à ilha de Lampedusa teve consequências. Antes era expressamente vedado aos pescadores italianos deixar que crianças, recém-nascidos, idosos permaneçam no lodo e na sujeira.

Por certo a Europa não pode acolher todos. Mas as fronteiras não resolvem o problema e não podem abolir o direito de asilo individual. Se nos comportássemos como o pequeno Líbano, deveríamos acolher milhões de pessoas. Francisco se expressa muito claramente, asperamente, quando fala da política europeia para com os prófugos. Pede clara e firmemente à Europa que mude o estilo de vida. Mostra-se impaciente.

Que não podemos continuar como agora, é evidente. O que deixamos às próximas gerações?

O Papa se exprime de maneira profética – não só princípios abstratos, mas tarefas concretas. É necessário, tanto mais que alguns atiçam o medo falando de islamização da Europa! A chancelaria tem perfeitamente razão quando diz: podemos impedir a islamização indo mais à igreja no domingo!

Espera-se que dia seis de maio, por ocasião do conferimento do prêmio Carlos Magno, o Papa faça uma filípica à Europa?

Nenhuma filípica, não é do seu estilo. Mas dirá com clareza a sua opinião, se os valores fundantes da Europa coincidem com a política da UE.

Sempre se diz que um Papa geralmente não aceita honorificências e prêmios. Por que Francisco faz uma exceção com o prêmio Carlos Magno?

O diretório do Prêmio Carlos Magno me havia solicitado fazer de mediador. Fui ao Papa e lhe expliquei o motivo desta honorificência. A Europa está numa situação crítica, por isso se procura alguém que seja uma autoridade autêntica, crível, moral. Existem poucas: talvez Francisco seja realmente o único. Considera esta honorificência não como uma honra pessoal perante eles, mas como uma boa ocasião de dizer algo à Europa, um continente que, a seu ver, se tornou velho.

O senhor foi o mais importante mensageiro do Prêmio Carlos Magno de Aquisgrana?

Isto eu não sei, eu fui somente o carteiro.

Foi difícil convencer o Papa?

É preciso ser prudente na argumentação. Pouco tempo após, à pergunta de um jornalista sobre por que aceitava o prêmio, ele disse: “Pela obstinação do cardeal Kasper”.

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