Um monge que morreu de Aids e o futuro de um pecador

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15 Abril 2016

"Uma vez eu ouvi um belo ditado: não há santo sem passado, e não há pecador sem futuro." Assim disse o Papa Francisco aos fiéis durante a audiência geral dessa quarta-feira. Gostaria de saber se o papa conhece a história de Paolo, toxicodependente, soropositivo e monge.

O comentário é de Simone M. Varisco, publicada no blog Caffè Storia, 14-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Todos somos pecadores – continuou o pontífice na habitual audiência da quarta-feira –, todos temos pecados", mas "Jesus não olha para o passado, para a convenção social, mas lhes abre um futuro novo. Basta responder ao convite com um coração humilde e sincero." Parece o retrato de Paolo Caccone.

Era 1992, quando os jornais, buscando o furo jornalístico, traziam a manchete: "Um monge morreu de Aids". E Paolo realmente morreu de Aids. Uma parte da história da sua vida foi a dos muitos jovens seduzidos por sonhos de falsas liberdades que logo se revelam como pesadelos.

Paolo nasceu em 1948 na Modena operária, distante da Igreja e imersa na política mais aguerrida. Assim também foi a vida de Paolo: em 1968, ele tinha 20 anos, era membro da Federação Juvenil Comunista Italiana (FGCI) e de um grupo pró-maoísta, vivia em uma república e estudava biologia na universidade.

O fascínio exótico do budismo o levou para a Índia e o Paquistão, mas, em vez de um guru, naqueles países, ele encontrou as drogas, que, em vez da sabedoria, lhe deram dois anos de prisão, em Roma, por tráfico.

De viagem em viagem – viagens que parecem fugas, talvez até de si mesmo, primeiro na França, depois na Inglaterra – Paolo rompeu com a família de origem. Deixou de traficar, mas a sua vida de toxicodependente sem dinheiro foi à deriva entre as dívidas e os espancamentos dos traficantes, aos quais ele não conseguia pagar a dose.

Voltou a Modena, mas a sua nova casa foi o hospital, depois que, em vez de uma cólica renal, foi diagnosticado com Aids. Era janeiro de 1986. A Aids provavelmente era o presente de uma seringa usada.

Foi entre os corredores que começou a amadurecer a conversão em Paolo. "Eu ouvi nesta manhã os médicos falarem entre si assim: 'O que queremos é a qualidade da vida, o sentir-se bem, ser eficiente – queriam dizer – e não a sua duração'. A meu ver, esse discurso é perigoso e pode levar direto à escolha da eutanásia. E, além disso, no nível mais profundo da verdade e do mistério, a vida capaz de escolhas definitivas e da acolhida de valores supremos pode coexistir com a dissolução do corpo. Como foi o caso do meu amigo Domenico, que, já reduzido a uma larva, pôde se confessar muito bem".

Restavam seis anos para Paolo, antes que a Aids o levasse embora. Um dia, no elevador do hospital de Bazzano, quando já ninguém o queria e estava passando fome, como ele mesmo escreveu, encontrou dois monges da Pequena Família da Anunciação de Monteveglio.

Ele lhes abriu as misérias da sua existência, até mesmo de ateu. "Quero rezar, mas a quem eu podia rezar? Eu não acreditava em ninguém. A quem podia contar a minha pena? A quem podia confiar o meu desespero?", escreveria Paolo.

"Venha nos encontrar", responderam-lhe, então. Paolo foi, se converteu – "através do silêncio e da escuta", escreveria –, confessou-se e, no outono de 1989, entrou na comunidade monástica do Pe. Umberto Neri e do Pe. Giuseppe Dossetti, sacerdotes controversos, ontem como hoje. Na comunidade de Monteveglio, Paolo viveu três anos como noviço, para morrer como monge in articulo mortis, à beira da morte.

A conversão de Paolo é chamado de amor. "Deus é visceralmente apaixonado pela sua criatura – escreveria ele a Dossetti em uma carta de 1990 – e o seu grande deleite consiste em ouvi-la e, por isso, ele a mantém na sua grande mão (Jesus), e a nossa alegria íntima consiste em nos sentirmos apertados com força nele, perto, perto, perto."

"Eu entendi que Jesus é Deus porque apenas se Jesus é Deus se explica a vida de vocês", diria ele aos monges da sua comunidade. "Vocês são humildes, pobres e extremamente felizes. Vocês são ricos do maior amor com que me acolheram."

Consciente dos próprios limites e dos da humanidade da Igreja, pouco antes de morrer, Paolo confidenciou: "Na Igreja, há muito pecado. Antes, eu via isso de longe, agora eu vejo de perto. Mas, na Igreja, existe Deus, a Igreja é o berço de Deus, e eu quero estar nesta Igreja".

A história de Paolo foi a história de um "viandante fatigado", como Dossetti o definiu na sua missa de exéquias, "que percorreu todas as estradas do mundo na sua inquietação, na sua busca, na sua rebelião, às vezes".

"Diante de Jesus, nenhum pecador deve ser excluído – nenhum pecador deve ser excluído!", é a urgência do Papa Francisco, várias vezes repetida neste Ano Jubilar. É a urgência dos nossos dias, para que não se disperse nenhuma dessas histórias de vida, dessas histórias de Evangelho e de Jubileu.

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