Alguma esperança, mas não muita alegria para os católicos LGBTs na exortação “A Alegria do Amor”

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12 Abril 2016

"Os dois últimos Sínodos dos Bispos, assim com as amplas consultas aos leigos que os precederam, serviram com uma pesquisa para este novo documento papal", escreve Francis DeBernardo, diretor executivo do New Ways Ministry (1), em resposta à exortação apostólica do Papa Francisco sobre o matrimônio e a família, publicada por Bondings 2.0, 08-04-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Eis a nota

Ainda que o mais recente documento do Papa Francisco, Amoris Laetitia (A Alegria do Amor), contenha passagens cheias de esperança, ele não inspira alegria aos fiéis católicos LGBTs e seus apoiadores. Quanto a questões de orientação sexual e identidade de gênero, esta exortação apostólica reitera fórmulas eclesiásticas que mostram que o Vaticano precisa ainda aprender com as experiências e a vida de fé de tantos membros católicos LGBTs.

Embora haja um convite aos bispos e ministros para serem menos julgadores e respeitarem as consciências individuais, o papa não apresentou nenhum caminho pastoral novo para as questões LGBTs na Igreja.

Sobre outros tópicos relacionados à família, tais como o divórcio e a coabitação, Amoris Laetitia dá alguns conselhos esperançosos. Se estes fossem simplesmente aplicados às questões LGBTs, o que não seria incompatível fazer, este documento teria sido muito mais positivo. O Papa Francisco convida a um acompanhamento pastoral não julgador, auxiliando as pessoas no desenvolvimento de suas consciências, encorajando repostas pastorais diversas com base na cultura local e chamando os bispos a serem mais autocríticos. Todas estas coisas, se aplicadas às pessoas e questões LGBTs, poderiam produzir uma mudança positiva enorme na Igreja.

Em vez de escutar a vozes mais progressistas nos Sínodos que pediram por uma maior compreensão e diálogo com a comunidade LGBT, o papa simplesmente repetiu as condenações católicas às uniões homoafetivas, à adoção por parte das pessoas lésbicas e gays e as complexidades da identidade de gênero.

A mais notória é a sua repetição da falsa alegação de que a cooperação internacional aos países em desenvolvimento depende da abertura a igualdade matrimonial. Não existe nenhuma prova para uma tal afirmação. Randy Berry, enviado especial dos EUA à Human Rights of LGBTI People negou categoricamente esta declaração em novembro passado durante alguns encontros com líderes eclesiásticos no Vaticano onde se discutia a perseguição a pessoas LGBTs no mundo.

Além disso, a afirmação do Papa Francisco na discussão do acompanhamento pastoral às famílias com membros lésbicas e gays está incluída em uma seção intitulada “Iluminar crises, angústias e dificuldades”. Uma tal classificação revela a pressuposição de que os tópicos LGBTs são simplesmente problemas a serem superados; ela não reconhece o talento e a graça que ocorrem quando uma família aceita e ama os seus membros LGBTs.

Enquanto o Papa Francisco repete o magistério da Igreja que condena a discriminação e a violência contra as pessoas LGBTs, o fato de não haver nenhuma elaboração nesse sentido concernente aos países que estão criminalizando as minorias sexuais e de gênero torna estas palavras ineficazes.

Muitos na comunidade LGBT católica tinham grandes, porém realistas, esperanças com este documento. Embora não esperavam uma bênção para o casamento entre pessoas do mesmo sexo, muitos pensavam que Francisco traria uma mensagem afirmativa a eles, e não os mesmos comentários mal informados. Muitos esperavam algo mais pastoral por parte deste papa, famoso por gestos e declarações cheios de calor humano. Onde está o Papa Francisco que abraçou o seu ex-aluno gay durante a visita que fez aos EUA? Onde está o Papa Francisco que convidou um espanhol transgênero para uma reunião privada no Vaticano? Está difícil encontrar este Papa Francisco neste seu mais recente documento.

Os dois últimos Sínodos dos Bispos, assim com as amplas consultas aos leigos que os precederam, serviram com uma pesquisa para este novo documento papal. Infelizmente, no que diz respeito a questões LGBTs, nada há em Amoris Laetitia que indique um grande chamado a novas abordagens, novos caminhos para estes temas que vieram à tona durante as discussões.

Talvez haja uma esperança na sugestão feita por alguns bispos no Sínodo de 2015 de que o Vaticano realize um debate sinodal em separado inteiramente dedicado a temas em torno da sexualidade e gênero. Ainda que este documento tenha muito a oferecer e conte com uma variedade de tópicos importantes relacionados à família, ele não deu uma atenção adequada a questões da família LGBT que merecem um exame sério por parte dos líderes eclesiásticos.

Dada a nova orientação pastoral geral deste documento, há certo potencial para um desenvolvimento posterior no tocante a temas LGBTs. Um maior testemunho de católicos LGBTs e seus apoiadores, bem como passos continuados em direção ao diálogo com os bispos e demais religiosos, irá promover este objetivo.

Em uma das partes mais esperançosas do documento, a conclusão do Capítulo VIII, o Papa Francisco convida para a continuação de um tal diálogo:

“Convido os fiéis, que vivem situações complexas, a aproximar-se com confiança para falar com os seus pastores ou com leigos que vivem entregues ao Senhor. Nem sempre encontrarão neles uma confirmação das próprias ideias ou desejos, mas seguramente receberão uma luz que lhes permita compreender melhor o que está a acontecer e poderão descobrir um caminho de amadurecimento pessoal. E convido os pastores a escutar, com carinho e serenidade, com o desejo sincero de entrar no coração do drama das pessoas e compreender o seu ponto de vista, para ajudá-las a viver melhor e reconhecer o seu lugar na Igreja”.

Tais diálogos podem transformar aquelas pessoas que se encontram nas chamadas “situações complexas”, mas eles podem também transformar os ministros e bispos da Igreja. Esse processo é um método comprovado para o desenvolvimento da doutrina na Igreja Católica.

Nota:

1.- O New Ways Ministry é um grupo de defesa e justiça voltado à comunidade católica LGBT e que busca a reconciliação deste grupo com as comunidades cristã e civil mais amplas. O blog Bondings 2.0, um dos projetos do New Ways Ministry.

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