O valor não está na posse, mas nas conexões: a geração efêmera impõe um ritmo frenético com o Snapchat

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Por: Jonas | 31 Março 2016

O auge de redes sociais como Snapchat é a antessala dos jovens post-millennials, amantes de um uso constante dos meios de comunicação, mas fugaz. Suas preferências nos dão pistas acerca de como a informação será valorizada no futuro.

A reportagem é de José Manuel Noguera, publicada por Bez, 28-03-2016. A tradução é do Cepat.

Em 2005, o sociólogo Zygmunt Bauman publicava a obra ‘Vida líquida’, onde descreve uma sociedade na qual tudo é permutável, nada permanece e o bem comum é menosprezado em favor de uma cultura do individual. Por exemplo, o autorretrato ou selfie dos lugares que visitamos ou as situações que vivemos passa a ter mais valor que o próprio lugar ou a situação, porque o fato perde importância, caso não seja valorizado pela comunidade. É a lógica do personalismo descrito pelo escritor Vicente Verdú, onde o valor já não se encontra na posse, mas no estado de nossas conexões, que são as que reconhecem a importância de cada mensagem.

Mais de dez anos depois do livro de Bauman e há algumas semanas, a rede social Snapchat anunciava, por meio de seu fundador Evan Spiegel, oito bilhões de visualizações de vídeo por dia, tantas como no Facebook. A principal característica da rede social Snapchat é seu caráter efêmero, já que o emissor pode decidir o tempo que o destinatário poderá ver o vídeo (até um máximo de dez segundos), antes que se autodestrua. Sem saber, Bauman estava descrevendo os jovens que mais desfrutariam destas redes efêmeras.

O Pew Research Center definiu como “adultos millennials” a geração nascida entre 1981 e 1996, quase a mesma faixa estabelecida por outras instituições, a entre 1980 e 1996. Assim, aqueles que em 2015 estavam a um par de anos na universidade e entrando na vintena, já representam esses jovens post-millennials, caracterizados por alguns consumos e mensagens efêmeros que os envolvem em tudo, como a informação, o ócio ou sua ideia do político.

As redes sociais de mensagem efêmera tiveram seu auge entre 2014 e 2015. Diante do êxito que a rede social Snapchat já começava a ter, o Facebook experimentou nos Estados Unidos, durante o verão de 2014, o aplicativo Slingshot, a partir do qual era possível emitir vídeos denominados ‘reações’ a usuários que só veriam corretamente a mensagem, caso respondessem ao emissor. Uma mensagem que, além disso, só estaria disponível por 24 horas. Com intenções semelhantes, o Twitter lançou o aplicativo Periscope, em março de 2015, para transmitir vídeos ao vivo. Houve outras tentativas semelhantes, mas é a comunidade dos snapchatters a que conquistou o espaço midiático.

A geração efêmera gosta de rapidez e a velocidade implica em não deixar rastros, ou deixar a menor quantidade possível. No mundo digital, isto é um problema, por exemplo, para as agências de comunicação que trabalham com publicidade contextual, já que esta se alimenta justamente desses rastros digitais. Um aplicativo como Snapchat é perfeito para todos aqueles que não querem se preocupar com os rastros que seus vídeos ou fotos deixam na rede.

Para esta geração, a velocidade não é uma sensação de segurança, mas, ao contrário, a segurança em si mesma. Os temas do momento no Twitter (trending topics) permitem estar a par do que é atualidade, mas, se por algum motivo não pudermos nos inteirar do que está sendo o mais comentado nas redes, isto não é um problema, porque logo haverá outro tema ao qual poderemos nos somar de imediato. A rede social Snapchat é o paradigma dessa velocidade, com uma vida máxima de dez segundos para cada mensagem.

O sistema dos meios de comunicação não só reforça a sensação de consumos efêmeros, como também começa a premiar. Um exemplo de como a indústria jornalística começa a estabelecer esta relação direta entre fugacidade e qualidade pode ser encontrado nas bases da primeira edição dos Prêmios Tilde de novas narrativas em jornalismo, criados pela Escola de Jornalismo de El País. Nestas bases, aponta-se que os relatos jornalísticos que forem apresentados para o concurso devem aproveitar as novas tecnologias, entre outras coisas, para que as peças informativas “possam ser consumidas em menos de dez minutos”.

Essa velocidade que agora os meios de comunicação também reivindicam para certos consumos possuem muitos paralelismos com o que a geração efêmera busca em suas redes sociais, como a multiplicação moderada do alcance de sua mensagem. Com a expansão das redes sociais, tornou-se popular o uso da chamada ‘botoneria (botões) social’. Uma abundância de botões para compartilhar, enviar ou enfatizar ‘curto’ começou a acompanhar qualquer conteúdo na Rede. No entanto, essa quantidade de botões para ampliar o impacto das mensagens acarreta de forma implícita uma perversão: seria, ao mesmo tempo, um reflexo do interesse suscitado entre a comunidade.

Aquele conteúdo sem nenhum interesse manteria esses marcadores zerados e colocaria em risco nosso prestígio on-line. É uma constante pressão social que se ativa no momento em que publicamos qualquer coisa, porque tudo está acompanhado de indicadores sobre favs, likes ou shared. Tudo é suscetível de nos posicionar como novos influencers ou de nos destacar como alguém cujo conteúdo não interessa a ninguém, literalmente. Não é descabido pensar que há jovens que já não querem essa pressão social. Para eles, as redes efêmeras são idôneas.

Os usos e hábitos desta geração efêmera são agora palpáveis em redes sociais como Snapchat ou Periscope, mas o importante é a marca tácita, paulatina e constante que está deixando nos futuros modos de consumir notícias ou de participar na política. Não deveríamos considerá-la uma moda efêmera.

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