Os três anos de Francisco. Artigo de Alberto Melloni

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15 Março 2016

Esse papa cristão não acredita em um uso imperioso do governo. Talvez também assume como óbvio que, depois dele, pode chegar um Pio XIII, que pode reorganizar todo o jogo. Ele vive as suas convicções sobre a sinodalidade como um modo de ser da Igreja, e sobre o Evangelho como anúncio que fala para todos, e sobre o pobre como sacramento do Cristo pobre.

A opinião é de Alberto Melloni, historiador da Igreja italiano, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII de Bolonha. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 14-03-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Mesmo hoje, quando se olha para o conclave de 2013, percebe-se a dificuldade que Francisco produziu em todos. A fim de não se defrontar com o cristianismo do papa – porque este papa é um cristão que diz que o Evangelho basta –, debruça-se sobre uma leitura adocicada do conclave, como se o bispo de Roma, um dos pouquíssimos que, na Igreja Católica, ainda é indicado com o antigo método da eleição, fosse feito pelo Espírito, em grande segredo. Em vez disso, o direito canônico é minucioso ao dizer que o bispo de Roma funciona ao contrário: são homens de carne e osso que carregam a responsabilidade da sua escolha diante de Deus.

O segredo era uma cautela antiressurgimental; e as regras querem, acima de tudo, que a designação não dê origem a desconfortos e contestações.

Isso é tão verdade que até mesmo Bergoglio, há três anos, quando se assomou à sacada, usou uma fórmula bastante tradicional: "O dever do conclave é de dar um bispo a Roma. Parece que os meus irmãos cardeais foram buscá-lo quase no fim do mundo". Mas aquela eleição de um papa cristão do Sul – como se no Norte do mundo tivessem acabado – pôs as mãos em uma desordem sistêmica por causa da qual a Igreja estava se debatendo e que tinha pouquíssimos precedentes nos cinco séculos passados.

Não era uma questão de escândalos da Cúria: porque o mais recente dos seus vícios tem cerca de 500 anos. Não era uma questão de dinheiro: porque, se os únicos ladrões de Roma estivessem dentro dos muros vaticanos, Roma seria o Éden. Não era o problema de antagonismos virulentos entre pequenos homens e pequenos mundos do poder eclesiástico italiano que tinha contraído doenças terríveis, ao ter relações desprotegidas com a direita mais opaca da Europa. Não era nem mesmo a questão dos escândalos de fundo sexual: estes também estão muito longe de serem específicos. Não era a existência de uma engrenagem depreciativa em que, de vez em quando, até mesmo algum maquinista esmagava o dedo. E muito menos a abertura de lojas onde se compram e vendem cartas pessoais do papa para alimentar rumores e fortunas à sombra de moralismos muito falsos.

O sentido da decadência decorria da sensação de que um erro radical no diagnóstico desses males tinha feito a Igreja entrar em um impasse implacável, diante do qual Ratzinger tinha se retraído, esperando, assim, abrir o caminho para alguém que, com maior força, pudesse usar aquele desastre para imputá-lo ao Concílio, ao pós-Concílio, às aberturas e às esperanças que tinham percorrido a Igreja nos 50 anos anteriores.

O pré-conclave, como todos já sabem, amadureceu um diagnóstico oposto, até mesmo desfocado: não eram as Conferências Episcopais, as teologias da libertação, as aspirações de diálogo que tinham feito mal para a Igreja, mas "os italianos". E, portanto, era preciso buscar um papa que excluísse "os italianos" da corrida, das capitulações do conclave, do amanhã de uma Igreja que, na dureza límpida do elóquio de Bergoglio, na sua austera simplicidade, pudesse fazer uma reviravolta.

E a reviravolta chegou pontualmente, letalmente: pondo diante dos olhos de 1,2 bilhão de fiéis e de alguns outros bilhões de curiosos a simplicidade de um cristão, de um papa cristão. Que, com o seu cristianismo, seduz e desloca, orienta e desorienta os três "partidos", se assim se pode dizer, que na Igreja Católica se consolidaram no início do século XIX e que – se se pudesse brincar com coisas tão sérias – poderíamos chamar de PRP, PNF, PCI e MPB.

Ele desorientou o Partido Reclamão Progressista: aquele que, graças à contínua produção de conservadorismos estranhos por parte da autoridade, que culminaram com o retorno das rendas e das bijuterias barrocas de uma liturgia narcisista, podia ficar parado diante da moviola e denunciar a sua inutilidade com preciosismos dolentes.

Ele desorientou o Partido das Nostalgias Febris, atravessado por lamentos que se passam por "Tradição" e que, durante décadas, se contentou com esconder as próprias tibiezas doutrinais e morais em um rigorismo cujo exagero levantava suspeitas em cada pessoa sábia.

Desorientou o Partido dos Cínicos Impunes: aquele cujos expoentes vociferantes se sentem parte de um "poder eterno" e olham de forma dissimulada para Francisco, que, como dizem alguns, "até pode ser cristão, como você diz, mas não é nada imortal".

Mas o papa também desorientou o Movimento dos Papagaios Bergoglianos: aqueles que, até 40 meses atrás, faziam tudo "in veritate", e agora veem "misericórdia" até mesmo nas borras de café, bebidos estritamente "nas periferias". Desorientados pelo fato de que "Deus teve piedade da Igreja". Não porque a "escolha" de Bergoglio venha de Deus de modo diferente daquela que levou todos os outros bispos – que são todos vigários de Cristo para as Igrejas locais "nas quais e a partir das quais" se gera a comunhão universal – às cátedras da catolicidade: tomar esse caminho um pouco espiritualista obrigaria, de fato, a se perguntar sobre como é possível que, para um "assim", Ele escolheu tantos "assado".

É melhor, então, como ele fez naquela noite, se limitar a dizer que a escolha de Francisco foi feita pelos cardeais. Alguns, sabendo que "o homem é assim", como dizia o mais importante e hábil dos seus eleitores; alguns, deixando-se levar pela onda de um consenso que, em 2005, não pôde ser medido até o fim, porque o cardeal Martini em pessoa temia que, se, com a retirada de Ratzinger, se fosse rumo a um duelo Ruini-Bergoglio, o papado se tornaria novamente italiano.

Esse papa cristão, portanto, não acredita em um uso imperioso do governo. Talvez também assume como óbvio que, depois dele, pode chegar um Pio XIII, que pode reorganizar todo o jogo. Ele vive as suas convicções sobre a sinodalidade como um modo de ser da Igreja (explicava isso muito bem um dos seus teólogos de confiança, Dom Marcello Semeraro, no L'Osservatore Romano do dia 11 de março), e sobre o Evangelho como anúncio que fala para todos, e sobre o pobre como sacramento do Cristo pobre, como uma possibilidade que coloca cada um diante de um dilema: se ele fizer os bispos "cristãos" e mostrar que os bispos também podem se tornar cristãos, se ele fizer os cristãos "cristãos" e mostrar que os cristãos mornos também podem se tornar cristãos, ele terá cumprido a sua vocação de pastor.

Se não conseguir, tanto faz: a única ovelha que permaneceu no rebanho, olhando do redil as 99 que vagam entre sórdidas mesquinhezes, poderá vê-las voltarem com os seus pastores cheios de ambições frustradas para as margens do cercado, invejosas por verem lá dentro uma ovelha com um pastor que cheira ao odor cristão do Bom Pastor.

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