Papa Francisco: o que restará desses três anos?

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15 Março 2016

O que restará desses três anos? Se amanhã tudo tivesse que acabar, o que restaria do pontificado do Papa Francisco? Nada esperam os inimigos curiais de Bergoglio na expectativa de poder prosseguir rapidamente à tão ansiada restauração com todos os símbolos do poder de uma Igreja renascentista: da cadeira gestatória à tiara, do beijo da "sacra pantufa" do sucessor de Pedro aos flabelos. Sinais hipócritas por trás dos quais a Igreja de Roma escondeu durante séculos atrocidades hediondas: orgias, homicídios, simonias, incestos, roubos.

A reportagem é de Francesco Antonio Grana, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 13-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Pouco importa, em vez disso, se restará algo desses três anos de pontificado para os adoradores, por mera conveniência, do soberano de plantão. Curiais treinados há séculos a se ajoelharem a papas extremamente diferentes entre si: do paterno Roncalli ao introvertido Montini, do tímido Luciani ao vulcânico Wojtyla, do manso Ratzinger ao ciclone Bergoglio. O importante é ostentar o sorriso na frente, para depois apunhalar pelas costas.

O que restará desse pontificado pouco importa também para aqueles que sabem que, na lógica da alternância que há muito tempo vigora também na Igreja Católica, a um "papa midiático" segue-se um menos vendável na mídia de massa. Foi assim com Roncalli e Montini, depois com Wojtyla e Ratzinger, e também será com Bergoglio e o seu sucessor.

Decepcionados, talvez, ficarão os chamados reformadores, aqueles que elegeram Francisco para demolir a Cúria Romana, o seu poder, o seu centralismo, as suas burocracias em detrimento de um catolicismo pulsante e em forte expansão na Ásia, na América Latina e na África.

Decepcionados como os judeus de 2.000 anos atrás, que se encontravam escolhendo entre o pacífico Jesus e o revolucionário Barrabás. No fim, diante da rendição impotente do primeiro diante dos conquistadores romanos e das calúnias farisaicas, a escolha recaiu sobre o segundo que, embora com a espada, assegurava que satisfazia os ideais revolucionários dos rebeldes.

O que restará de um pontificado nascido de um gesto, o da renúncia de Bento XVI, inédito para a história recente da Igreja Católica. Um "reino", o de Francisco, feito de humildade e serviço, de vida compartilhada com os últimos; ontem, com os descartados de Buenos Aires; hoje, com os de Roma e do mundo.

Um papa que almoça à mesa com os empregados vaticanos, no refeitório da sua espartana residência da Casa Santa Marta, com os mendigos que dormem ao redor da Praça de São Pedro, com os presos dos cárceres do mundo, com os toxicodependentes com os quais recentemente compartilhou uma pizza. É um papa que, com o seu estilo de vida mais do que com as suas palavras, põe em discussão continuamente 2.000 anos de catolicismo.

Francisco faz mal para a Igreja de Roma? Há aqueles que estão profundamente convencidos disso e não têm sequer o pudor de esconder o seu pensamento. Pior se vestem as batinas filetadas de bispos e cardeais. Viu-se isso no recente Sínodo sobre a família com a carta dos 13 purpurados contra as possíveis aberturas do papa sobre os divorciados recasados.

Francisco faz bem para o mundo com os seus apelos concretos em favor dos migrantes e com o extraordinário sucesso diplomático do degelo entre Cuba e Estados Unidos, reconhecido pelas chancelarias de ambos os países? Três anos são muito poucos para traçar uma avaliação de um pontificado voltado a levar a Igreja, com a autoridade que merece, novamente para o cenário da geopolítica mundial. Aquela Igreja "perita em humanidade", como diria o Bem-aventurado Paulo VI na ONU, primeiro pontífice a falar nesse encontro, no dia 4 de outubro de 1965.

Depois de três anos de pontificado, enquanto o mundo está apenas começando a aprender, a amar, mas também a odiar Bergoglio, não é possível avaliar plenamente a sua bastante acelerada obra de reforma, em dois setores em particular: economia e pedofilia. Também não é possível dizer se o fato de ele levar o papel do papa ao de um normal bispo do mundo é realmente bom ou mau para a Igreja. Sabe-se lá se esse seu desejo de normalidade, de ir a uma pizzaria, de continuar tendo intimidade com os amigos de antigamente não levará, depois, o sucessor de um amanhã distante a voltar a colocar a tiara sobre a cabeça.

Três anos são decisivamente poucos para dizer o quanto Francisco incidiu realmente na Igreja, talvez muito pouco, e, no mundo, talvez realmente muito. O quanto Francisco desequilibrou o poder curial a partir de dentro, talvez quase nada, e pôs em discussão os párocos de todo o mundo que continuam expondo do lado de fora das suas igrejas as listinhas de preços para missas e sacramentos.

Porém, para Albino Luciani, bastaram apenas 33 dias para afirmar a "revolução do sorriso" dentro da Igreja. Amado e odiado, Bergoglio rejeita a audiência, dentro e fora da Cúria Romana, e continua sendo um homem antes de ser papa.

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