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Três anos de Francisco: o Papa narrado por seu porta-voz

Quando ouvi o anúncio do Cardeal Tauran, do Balcão Central da Basílica de São Pedro, fiquei sem palavras. Sabia que o anúncio do nome do novo Papa teria me emocionado, mas não daquele jeito. Era um jesuíta, um coirmão, mas não o conhecia, senão indiretamente, a parte um rápido encontro nos dias precedentes, nos corredores das Congregações gerais dos cardeais, antes do Conclave. Mesmo que seu nome tenha aparecido algumas vezes entre os papáveis, nunca o considerei, porque se para um jesuíta está fora do previsto ser nomeado bispo ou cardeal, imagina Papa. Depois do anúncio, quem colocasse o nariz no meu gabinete pensando encontrar-me exultante, porque o Papa era um coirmão, ficava surpreso com minha perplexidade. Mas eu não estava nem feliz, nem triste, simplesmente, boquiaberto.

O relato é de Federico Lombardi, padre jesuíta, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, publicado por Famiglia Cristiana, 10-03-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

O nome, e que nome!
    
Eu estava no meu gabinete na Santa Sé, e meus colegas me esperavam na sala de conferências para um primeiro comentário. Sentia-me emudecido... Aos poucos fui criando coragem e disse duas coisas que me pareciam claras, e que achava importante colocar em relevo, como duas grandes novidades: o nome Francisco – pela primeira vez – e o fato de que era latino-americano.

Tomar um nome que ninguém tinha escolhido ainda – e que nome! – indicava liberdade, coragem e clareza formidáveis. Pobres, cuidado da criação, paz, como teria explicado, poucos dias depois, o próprio Papa. Sua proveniência do “fim do mundo” trazia naturalmente uma perspectiva nova, um ponto de vista diferente sobre as situações e as perguntas da humanidade e da Igreja, que não teriam deixado de se fazer presentes. Parece que não me enganei.

Confesso que as outras novidades naquela tarde ou dos dias sucessivos – veste, modo de apesentar-se ao povo, deslocamento em ônibus junto com os outros, automóveis utilitários... – não me pareciam tão perturbadores: fortes, mas espontâneos. Nestas coisas era relativamente fácil reconhecer um coirmão jesuíta.

Nos dias seguintes, porém, as novidades não faltaram e também eu compreendi melhor, pouco a pouco, a personalidade do novo Papa. Por exemplo, por um certo tempo continuei a pensar que, na medida que o papa tomaria maior consciência do novo cargo e das exigências práticas, ele mesmo teria decidido de voltar a usar o apartamento papal, ou de qualquer forma, buscaria uma solução diferente da Santa Marta. Mas não foi assim.

A determinação de mudar, não só o lugar, mas também os equilíbrios consolidados do sistema organizativo da vida do Papa, das relações com os colaboradores, estava, desde o início mais firme e clara do que eu poderia ter imaginado. Não foi fácil aprender a converter-se ao seu novo estilo, à sua liberdade de expressão espontânea, às suas anotações pessoais e aos seus telefonemas...; mas, aos poucos, fomos compreendendo e apreciando seus motivos e seu grande valor. Muitos “de longe” o compreenderam mais rapidamente do que nós, “próximos”.

Santa Marta e as outras novidades
    
Novidade era também o estilo da sua relação pessoal  de pastor com os outros, e com o povo. A novidade da Missa matinal na Santa Marta, com um bom grupo de fiéis, sua homilia, que logo aprendemos a esperar com grande interesse cada dia, seu contato pessoal, no final da missa, com todos os presentes. A capacidade de envolver o povo no Ângelus ou nas celebrações, interpelando-o diretamente e convidando-o a responder ou a rezar junto... A liberdade dos gestos e a concretude das expressões tocavam imediatamente, mas em profundidade, o coração das pessoas.

Neste sentido, uma das primeiras experiências importantes que fiz pessoalmente foi aquela da Missa da Santa Ceia, na primeira Quinta-feira Santa, no cárcere juvenil de Casal Marmo. Segundo o uso litúrgico habitual, estava previsto que o lava-pés seria feito somente com rapazes. Permiti-me de fazer chegar ao Papa um discreto recado sobre o desconforto dos jovens e do capelão, e a resposta foi praticamente imediata. Como todos sabemos lavou também os pés de meninas e de muçulmanos, como já tinha feito em Buenos Aires...

Pessoalmente, como sacerdote, o aspecto que mais me tocou, no novo pontificado, é o fato que o Papa Francisco conseguiu em tempo brevíssimo fazer entender a muitíssima gente – seja dentro, que “fora” da Igreja – que Deus os ama, deseja e perdoa sempre, sem nunca cansar. Disse e repetiu infinitas vezes desde os primeiros dias. Todos tínhamos sofrido muito com a imagem de uma Igreja severa, do “não”, antes que do “sim”, fortificada sobre preceitos prevalentemente negativos e fora do tempo. Sabíamos perfeitamente que era uma imagem injusta, completamente diferente daquela que procurávamos dizer e testemunhar; mas o clima cultural dominante ia num sentido e nós não conseguíamos muda-lo.  

Sinodalidade: caminhar juntos

Não há dúvidas de que o papa Francisco conseguiu isto de modo bem eficaz, o que me deu grande e profunda alegria. E não se trata de algum aspecto secundário do serviço: o Jubileu da Misericórdia alarga e aprofunda a mensagem de amor, de perdão, de reconciliação: confirma-o e o faz passar através de inúmeras portas em todos os ângulos da Terra, a começar não de Roma, mas de Bangui, das periferias levada ao centro espiritual do mundo...

Papa Francisco fala de “Sinodalidade”, vive em primeira pessoa a condição de crente em caminho, e coloca a Igreja em caminho, para que saia de si para o encontro das periferias, porque somos “discípulos missionários”. Renovou profundamente os métodos e o espírito das assembleias do Sínodo dos Bispos, pôs em caminho uma “reforma” da Cúria romana, que não se sabem bem quando terminará... Mas isto não é problema, o mais importante é que se ponha em caminho, confiando-se ao Espírito do Senhor, sem sermos nós a querer prefigurar onde e quando devemos chegar.

Francisco certamente é corajoso e confiante, caminha na fé e na esperança. Para viver serena e alegremente com ele, seu pontificado deve procurar participar das suas posturas, caso contrário se sentira turbado e amedrontado, ou se sentirá bloqueado e incapaz de percorrer as vias e territórios novos nas relações pastorais, sobretudo quando se trata de temas delicados e complexos como aqueles da família ou das relações ecumênicas...

Cultura do encontro

Uma das palavras de Francisco que me soaram novas, e levei algum tempo para compreender, foi aquela da “cultura do encontro”. Compreendi, então, que para ele o encontro concreto entre as pessoas é fundamental. Encontro com Deus, encontro pessoal com Jesus Cristo acima de tudo, mas também encontro com seus colaboradores, com líderes religiosos, com responsáveis das nações, e o encontro com indivíduos quem procuram de uma palavra de conforto e de proximidade (seus telefonemas! Obviamente uma gota na miríade de pessoas que gostariam, mas, em todos os casos, uma mensagem exemplar para todos).

Fiz mais vezes, sempre na ousadia de ser compreendido, um pequeno paralelo entre o mundo do papa Bento e o do papa Francisco, quando relatavam seus encontros e colóquios com chefes de Estado. Bento XVI: a concisa, precisa e excepcionalmente lúcida indicação dos temas tratados. Francisco: as características da personalidade humana e das atitudes do interlocutor. Ambas aproximações de extraordinária profundidade. Em Francisco, o encontro com outra pessoa concreta aparece em plena e prioritária evidência.

Certamente os encontros do Papa Francisco são uma das vias mestras da presença dinâmica da Igreja, também em nível ecumênico, inter-religioso e internacional. Basta pensar aos já múltiplos encontros do Papa com o patriarca ecumênico Bartolomeu, ao recentíssimo encontro com o patriarca de Moscou Kirill, ou a nova linha de relações ecumênicas com o mundo evangélico pentecostal representado, por exemplo, pelo seu amigo pastor Traettino de Caserta, ou a participação  à anunciada celebração dos 500 anos da Reforma, em Lund, na Suécia... À celebre amizade com o rabino Abraham Skorka e o muçulmano Omar Abboud, e ao tríplice abraço diante do Muro das Lamentações: um sinal destemido e novo.

Em nível internacional, a clamorosa reaproximação entre Cuba e Estados Unidos foi, certo, ao menos em parte, propiciado pelo carisma de Francisco e do seu impulso na direção da reconciliação entre os povos. O evidente, e já mais vezes mencionado, desejo de conseguir um encontro com a China, poderia enfim tornar-se uma realidade? Certamente Francisco não faz mistério que incita nesta direção. Ele crê na força dos encontros ainda mais que nas mesas de negociação. Ele serve, assim, pessoalmente, ao diálogo e à paz.

Uma referencia para todos

Em três anos de pontificado, papa Francisco viajou para todos os continentes, à exceção da Oceania (Ásia, Europa, África, América Latina e Caribe, América do Norte), respondendo às expectativas de povos muito diferentes, mas sempre desejosos e atentos aos seus gestos e palavras. Já tinha falado no Parlamento Europeu, em 2015 falou aos Movimentos Populares, como também ao Congresso Americano e às Nações Unidas em Nova Iorque e em Nairóbi. Publicou a Encíclica Laudato si’,  na qual interceptou com grande largueza de horizontes e equilíbrio as grandes perguntas da humanidade, sobre a cuidado da “casa comum”, criticando radicalmente a “cultura do descartável”, em contexto de responsabilidade e de reflexão global, atenta à ciência, à religião humana, à visão religiosa da pessoa e do mundo. Sua autoridade assumiu dimensão de fato “global”, respeitada universalmente e capaz de oferecer um verdadeiro serviço de orientação à humanidade em caminho.

Muitas coisas aconteceram em três anos. Um caminho de escuta do Espírito, mais do que na atuação de projetos e estratégias humanas. Não esqueçamos, portanto, de rezar pelo papa Francisco, como ele nos pede todos os dias.

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