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Por: Cesar Sanson | 08 Março 2016

"Lula é um pernambucano que saiu do sertão em um contexto bastante difícil, e que ascendeu ao patamar mais alto da política nacional jogando o jogo do sistema. Ele não veio para derrubar os muros, mas para abrir o portão do condomínio e colocar mais gente pra dentro". O comentário é de Pablo Capistrano, professor de Filosofia e Direito no Instituto Federal do Rio Grande do Norte - IFRN, em artigo publicado em seu blog, 07-03-2016.

Eis o artigo.

Na sua biografia sobre Luís Carlos Prestes, Daniel Aarão Reis conta da decepção do “Velho” em relação a Constituinte de 1988. Para ele, o Brasil ainda estava muito longe de conquistar uma democracia efetiva: “Sem democracia não pode haver revolução” dizia o antigo militante comunista na altura dos seus 90 anos.

Sobre o processo de transição e o cenário político após a queda do regime de 64, Prestes nutria poucas esperanças. A questão era que não havia lideranças genuínas de esquerda que pudessem renovar um ideário progressista. “Todos são de um período anterior a 1964 (…) com exceção do Lula”; comentou o velho líder do partidão. Mas o problema era que Lula “(…) não estuda e não quer estudar” em qualquer livro “não passa da página 17”.

Na verdade, o que Prestes chamava atenção sobre a nova liderança da esquerda, emersa das lutas sindicais do período final da ditadura, não era algum déficit cognitivo, ou alguma avaliação preconceituosa acerca da condição de classe que relaciona as massas populares à falta de “cultura”.

Quando Prestes falava “estudar” ele não queria dizer simplesmente “ter um diploma superior” ou adquirir uma reserva qualquer de erudição. Prestes apontava para um déficit teórico de “formação política”. Era a solidez doutrinária e a disciplina ideológica, tão caras à esquerda revolucionárias do século XX, construída por dois séculos de lutas operárias e militância clandestina, que faltava à Lula.

Lula nunca seria um revolucionário, nem mesmo um reformista. Sua ação política, marcada pelo pragmatismo de uma personalidade intuitiva, construída no cotidiano da luta sindical, apontava para o acordo e o consenso. A despeito da retórica inflamada dirigida às massas (ao menos nos primeiros vinte anos de sua atuação pública), a ação de Lula demonstrava que o campo de esquerda tinha um grave impasse a enfrentar: sua principal liderança emergente não havia sido preparada para revolucionar as estruturas políticas e econômicas do país. Sua função era bastante divergente dessa, a saber: patrocinar uma conciliação nacional entre o capital e o trabalho, com inclusão social e crescimento econômico e dar sobrevida a velha ordem política que, na visão de Prestes, deveria ter sido extirpada com o fim do regime de 64.

26 anos após a morte do “Velho”, Lula ainda é o personagem político mais importante do país. Tanto para os que o idolatram como um herói martirizado pela operação lava-jato, quanto para os que o odeiam, pintando-o como um bandido com camisa listrada, responsável por todas as desgraças e misérias morais que assolam a nação; só há uma certeza pairando no horizonte: sua figura não deve abandonar a arena política nos próximos anos, mesmo que o desfecho da operação do juiz Sérgio Moro seja sua condenação por corrupção. Lula nunca foi nem nunca será um líder como um dia foi Prestes, tão pouco repetirá a trajetória de Vargas, outro gaúcho que marcou a política brasileira no século passado.

Vargas era um caudilho dos pampas. Um homem do universo rural, treinado na disciplina militar, assim como Prestes. Um sujeito de um tempo diferente do nosso. Uma época em que a ação politica era revestida de uma urgência e uma dramaticidade que não combinam com o pragmatismo ululante dos dias atuais em que Cunhas, Renans, Dirceus e Delcídios se debatem freneticamente em um imenso reality show, marcado por uma narrativa que mais parece ter saído da mente do produtor executivo de House of Cards.

Lula é um pernambucano que saiu do sertão em um contexto bastante difícil, e que ascendeu ao patamar mais alto da política nacional jogando o jogo do sistema. Ele não veio para derrubar os muros, mas para abrir o portão do condomínio e colocar mais gente pra dentro. Em um discurso no ano passado, já sentindo que seria a “cereja do bolo” da operação Lava Jato, Lula disse que iria “sobreviver”.

Hoje, no cenário de crise econômica e de hegemonia absoluta de um ideário de mercado, “sobreviver” é a palavra de ordem. Para um garoto que fugiu da seca, “sobreviver” politicamente é um imperativo biológico.

Lula não fará como Vargas, que deixou a vida para entrar na história. Hoje, no cenário da política nacional, contaríamos nos dedos os agentes políticos que se prestariam a atitudes extremas como a que levou ao suicídio de um presidente em 1954. Nossa sociedade de consumidores liberais não suportaria esse tipo de anacronismo moderno.

Lula vai lutar (e muita gente vai lutar com ele) pela sobrevivência política e pela manutenção do que ainda sobrou de seu mito. Já Prestes, que lutou a vida inteira, vivendo a maior parte de seus 92 anos no exílio, na prisão ou na clandestinidade; disse o seguinte, por volta de 1985, interrompendo subitamente um almoço de Domingo com a família: “Quem sabe sou o último comunista do Brasil. Ninguém vai tirar de mim o direito de ser comunista (…) os que são frouxos que abram mão de seus ideais”.

E saiu da sala assobiando o Hino da Bandeira, que, segundo Maria, sua esposa, era o que ele mais gostava.

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