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Por: André | 29 Fevereiro 2016

O processo contra a Operação Condor que está sendo levado a cabo em Roma desde o ano passado teve na quinta-feira uma nova audiência na qual foram tratados casos chilenos e na qual um médico que passou pela mesma prisão que um dos desaparecidos, Omar Venturelli, contou como eram tratados e quando viu Venturelli pela última vez. Este processo Condor contra militares e civis da Bolívia, Chile, Peru e Uruguai, tem na lista de acusados 11 chilenos que devem responder pelo desaparecimento ou morte de pelo menos quatro cidadãos ítalo-chilenos. Na audiência da quinta-feira, a última dos casos chilenos, testemunharam, além do médico Jorge Barduy Labrin, também Pablo Berchenko, chileno, professor universitário que mora em Avignón, na França, e Mireya García, vice-presidente da Associação de Familiares de Detidos-Desaparecidos do Chile, que trabalha atualmente na Suécia.

A reportagem é de Elena Llorente e publicada por Página/12, 28-02-2016. A tradução é de André Langer.

O relato do médico chileno Barudy – que agora mora em Barcelona –, que conseguiu salvar-se da morte, mas não das torturas da ditadura chilena de Augusto Pinochet, foi angustiante e emocionou profundamente mais de uma pessoa na sala de audiências judiciais da prisão de Rebibbia, nos arredores de Roma, onde acontece o processo.

Venturelli, militante do MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária) e ex-padre, foi preso em setembro de 1973, ou seja, menos de um mês após o golpe de Estado de 11 de setembro. Como padre, liderou as lutas mapuches contra a ocupação de terras no sul do Chile e foi por isso suspenso “a divinis” (isto é, foi impedido de exercer suas funções sacerdotais) pelo bispo local. Mas depois deixou os hábitos e casou-se com Fresia Villalobos, com quem teve uma filha, María Paz, que atualmente mora na cidade italiana de Bolonha.

Barudy também foi preso em setembro de 1973. Foi levado à prisão de Temuco – ao sul de Santiago – trazido de Puerto Saavedra, onde trabalhava em um hospital. Foi torturado e testemunha das torturas que muitos de seus companheiros de prisão sofreram, entre eles Venturelli, que foi tirado desta prisão em 4 de outubro de 1973. Nunca mais se teve notícias dele. Venturelli tinha 31 anos. Barudy contou, entre outras coisas, que viu Venturelli pela primeira vez em 17 de setembro, cheio de hematomas e que caminhava com dificuldade. Contou-lhe que o torturaram com energia elétrica. “Quando Venturelli tirou os sapatos, olhei seus pés. Vi que lhe arrancaram as unhas. Estava com os pés machucados. Com as poucas coisas que tínhamos – eu consegui fazer chegar à prisão alguns ansiolíticos e remédios contra a dor –, tratei de curar suas feridas e o convidei para compartilhar o colchão que eu tinha. Eu era o único que tinha um colchão, que meu pai, que era jurista, conseguiu fazer chegar à prisão. Depois, com ele organizamos um pequeno comitê para ajudar os presos, para dar-lhes apoio psicológico, com cerimônias coletivas de oração e de leitura dos Evangelhos. Cultivamos uma intensa amizade”, contou.

Disse também que “Omar me contou seus medos e me disse que ele reconheceu uma pessoa que tinha responsabilidade na repressão de nome Podlech. Eu não o conhecia e ele me contou que Podlech pertencia a um grupo de extrema direita chamado Pátria e Liberdade. Podlech era o procurador militar de Temuco nessa época. Foi preso na Espanha em 2011 e extraditado para a Itália. Mas na península, após vários meses, foi deixado em liberdade por falta de provas. Foi acusado e em alguns casos processado em seu país por vários delitos, entre eles pelo assassinato de sete pessoas no chamado “Assalto ao paiol do regimento”, pela morte de um médico e de um advogado. Todos estes fatos ocorreram em 1973”.

Omar e ele, contou além disso o médico testemunha, fizeram um pacto: se um deles morresse, o outro trataria de dar uma mão à família. Ambas as famílias tinham crianças pequenas. “Estávamos, geralmente, acordados até uma ou duas da manhã. Então apagávamos a luz certos de que não viriam para nos buscar. Mas, uma noite, pouco antes das duas, chegaram, acenderam todas as luzes e disseram a Venturelli para que pegasse suas coisas porque estaria de saída. Todos sabíamos que se alguém saísse não voltava mais”, disse Barudy embargado pela emoção, apesar de transcorridos mais de 40 anos.

Pouco depois da saída de Venturelli chegou à prisão de Temuco um prisioneiro que esteve na Base Aérea de Maquehue, usada como lugar de torturas e de onde partiam as expedições militares chamadas de Caravana da Morte – dirigidas pelo general Nelson Arellano Stark, um dos 11 acusados neste juízo – para aniquilar opositores de todo o Chile. A Caravana da Morte assassinou mais de 100 pessoas em diversas localidades chilenas. O homem contou que, enquanto estava com os olhos vendados, escutou outro homem que gritava: “Sou Omar Venturelli. Estou muito mal. Eles me matarão”.

Deixando de lado as emoções, María Paz Venturelli declarou ao Página/12 que a audiência da quinta-feira lhe pareceu muito boa. “Conseguimos juntar vários pedacinhos que se necessitavam para uma maior precisão. Para o caso dos chilenos, temos agora muitos antecedentes. Os testemunhos foram muito claros e precisos, sobretudo os testemunhos de Barudy e Mireya. O de Barudy, porque foi quem esteve junto com meu pai na prisão e tem as recordações muito claras. O de Mireya foi muito importante para reconstruir os cargos que certos acusados tinham no momento dos desaparecimentos ou assassinatos dos quatro chilenos. Eu espero que possamos ter uma sentença ainda antes do verão (europeu)”.

A família de María Paz viveu dois anos de juízo em Roma, a partir de 2009, contra o ex-juiz militar Oscar Alfonso Podlech pelo desaparecimento de seu pai. E tudo deu em nada. Foi deixado em liberdade pela falta de provas. A mãe de María Paz e esposa de Venturelli faleceu em Bolonha pouco depois do fracassado julgamento de Podlech. Seu avô havia iniciado um processo no Chile e outro na década de 1980, mas os dois foram encerrados porque os culpados foram anistiados. “Espero que na Itália ao menos sejam condenados”, concluiu.

Mas, segue sendo válida a pergunta que se faz o jornalista italiano Paolo Brogi em seu blog que publica muitas coisas sobre o julgamento Condor: “Conseguirá este processo restituir um mínimo de justiça a estas vítimas, condenando personagens como Arellano Stark que vivem tranquilamente no país que uma vez devastaram profundamente?”

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