A aposta russa do Papa Francisco

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Por: Jonas | 15 Fevereiro 2016

Nada de igrejas, mosteiros, palácios apostólicos, cúrias patriarcais. O Papa Francisco e o Patriarca russo Kirill se encontrarão nas salas de espera de um aeroporto. “Mas, o aeroporto”, fez notar Alexander Shchipkov, um dos colaboradores mais próximos de Kirill, “é um cruzamento simbólico. E quando as pessoas se encontram em um cruzamento, seus encontros são breves, mas sinceros e profundos”. Ali, normalmente, fala-se com “franqueza” sobre as coisas “que são mais importantes”.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 11-02-2016. A tradução é do Cepat.

A unidade dos cristãos, e não só, encontra um cruzamento inédito e cheio de futuro no breve encontro cubano entre o Bispo de Roma e o Patriarca de Moscou. Contudo, já desde a preparação e dos dias que o precedem, são apreciados muitos sinais e implicações muito eloquentes, desmascarando as conjecturas que procuram desqualificar o evento ao classificá-lo como uma mera questão de “alta política” eclesiástica.

Sem condições

Com a finalidade de abraçar Kirill, o Papa Francisco não impôs nenhuma condição. “Disse-lhe (a Kirill): eu vou onde você quiser. Você me chama e eu vou”. Foi o que disse o próprio Papa, durante o voo de retorno da cidade de Istambul a Roma, no dia 30 de novembro de 2014. O Papa Francisco se integrou às propostas que chegavam de Moscou a respeito do local e das modalidades do encontro, assim como às propostas sobre os conteúdos da declaração comum que será assinada por ambos. Neste texto, segundo referências do dominicano Hyacinthe Destivelle, do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, há temas e argumentos a respeito dos quais as intervenções públicas e “políticas” de expoentes de relevo do Patriarcado de Moscou se concentram há tempo: alarmas pela secularização e a direção que a ética está assumindo na modernidade, a defesa da vida, da família e do matrimônio heterossexual, a denúncia das perseguições contra os cristãos no Oriente Médio.

Nos últimos anos, os porta-vozes oficiais da Ortodoxia russa condenaram insistentemente a “decadência moral” ocidental, identificada em fenômenos como a legalização das convivências homossexuais, e propuseram as batalhas éticas como um terreno privilegiado para a “aliança” com a Igreja católica. Ao mesmo tempo, os insistentes chamados dos líderes ortodoxos russos à defesa dos cristãos dos países árabes seguiram perfeitamente o ritmo da agenda de Putin sobre a região, que pretende reivindicar o papel (de caráter neo-czarista) de protetor dos cristãos do Oriente.

A Sé Apostólica de Roma, por sua parte, não segue os tons de cruzada antimoderna forrados de homofobia que são utilizados por alguns líderes russos em seus discursos. E, em relação ao Oriente Médio, a visão realista da Santa Sé sobre o conflito sírio sabotou nos fatos o “cordão sanitário” que alguns círculos ocidentais quiseram instaurar ao redor da Rússia de Putin. No entanto, na constante pregação do Papa Francisco sobre o martírio dos cristãos do Oriente Médio não há marca da linguagem de “Guerra Santa” que é utilizada por expoentes do Patriarcado de Moscou para abençoar as bombas russas contra o “mal” jihadista.

A declaração comum será um documento do encontro em Cuba, mas não se deve interpretá-la como chave do encontro histórico. Sem dúvidas, o Papa Francisco se somou à perspectiva de assinar um texto de acordo com a sensibilidade de Moscou, com a finalidade de favorecer o abraço com o Patriarca Kirill. Para ele, o que interessa é o encontro e o que dele pode nascer. O restante (o país escolhido para o encontro, o “anômalo cenário” do aeroporto, a declaração comum) é secundário.

A bússola da unidade

Em várias oportunidades, o Bispo de Roma disse, com palavras que deixam poucas dúvidas, quais são as esperanças que o animam a respeito dos irmãos das Igrejas ortodoxas. No dia 30 de novembro de 2014, falando em Fanar, diante do Patriarca ecumênico Bartolomeu, o Papa Francisco disse que para chegar à plena unidade com os cristãos ortodoxos, a Igreja católica “não pretende impor nenhuma exigência, a não ser a da profissão da fé comum”. Também no ano passado, na mensagem enviada ao Patriarca ecumênico em razão da festa patronal de Santo André, o Papa repetiu que entre católicos e ortodoxos “já não há nenhum obstáculo para a comunhão eucarística que não possa ser superado mediante a oração, a purificação dos corações, o diálogo e a afirmação da verdade”.

A plena unidade sacramental, e não só a sustentação de “santas alianças” contra os inimigos comuns, representa o horizonte para o qual os cristãos devem se dirigir. E somente caminhando juntos, segundo o Papa, desaparecerão as hostilidades e os equívocos, para que surja a certeza, mais cedo ou mais tarde, de que já existe a unidade. “A unidade – disse o Bispo de Roma, no dia 25 de janeiro de 2014 – não virá como um milagre ao final: a unidade vem na caminhada, é feita pelo Espírito Santo na caminhada... Ela se faz neste caminho, em cada passo, e não somos nós que a fazemos, quem a faz é o Espírito Santo, que vê nossa boa vontade”.

O “Ut unum sint” na prática

Para facilitar o caminho, o Papa Francisco coloca em prática, nos fatos, a “forma de exercício do primado” aberta a “uma situação nova” que era evocada na encíclica wojtyliana “Ut unum sint”, como mudança ecumênica exigida no presente, após o Concílio Vaticano II. O atual sucessor de Pedro não impõe a própria “linha” de pensamento, deixa cair qualquer condição teológica e qualquer reivindicação de preeminência jurisdicional em relação aos Primazes das Igrejas do Oriente. Já foram arquivadas as preocupações em “administrar” as diferenças e as rivalidades entre as diferentes realidades da Ortodoxia. Há tempo, a Igreja de Roma renunciou a política “dos dois fornos” em relação ao Patriarcado de Moscou e a Igreja mãe de Constantinopla. O Papa Francisco quis advertir com uma carta ao “Irmão Bartolomeu” a respeito do encontro com o “Irmão Kirill”, poucos dias antes do anúncio oficial. A mesma presteza dedica a todos os chefes das Igrejas do Oriente, sem importar seu “peso” político, seguindo os critérios dessa eclesiologia sinodal que o Pontífice argentino também quer favorecer dentro da Igreja católica.

Para o Papa Bergoglio, a rede de amizades que se vai estendendo com os chefes das demais Igrejas não se mede segundo as relações de poder. O encontro com Kirill será muito mais que o encontro com o líder da maior entidade da Ortodoxia, será o abraço com o líder de uma Igreja de santos e de mártires, que guardou a fé nas décadas do ateísmo forçado, que ofereceu a toda a cristandade tesouros de fé e de espiritualidade de valor inestimável. E que agora, apesar das ambiguidades e sombras, está vivendo um inegável florescimento, que não pode a não ser alegrar o Bispo de Roma e todos os demais cristãos.

O tempo e o espaço da unidade

O Papa Francisco abraça os irmãos ortodoxos do jeito que eles são, com seus limites, suas riquezas, seus conflitos e inclinações nem sempre compartilhadas. Não possui nenhuma “linha”. Sabe bem que a unidade não chegará como efeito de negociações doutrinais e, ao mesmo tempo, anima o diálogo teológico, tão importante para Ioannis Zizioulas, o Metropolita do Patriarcado ecumênico (não muito bem visto pelos russos), que, segundo o Papa, é “o maior teólogo vivo”. Também sabe que a unidade entre os cristãos não se pode reduzir a uma “aliança neorigorista” contra a modernidade. No entanto, apoia tudo o que compartilha das denúncias dos líderes ortodoxos russos, preocupados com a direção que a secularização está assumindo. Segundo Bergoglio, a unidade com os irmãos em Cristo não é nenhuma homogeneização, mas, ao contrário, uma “diversidade reconciliada”, realizada pelo Espírito Santo, e que deve ser descoberta fazendo a caminhada. Para isto, servirá o encontro em Cuba, fora das lógicas dos ‘megaeventos’ que acabam apagando a si mesmos. Para ele, o importante é se reunir com Kirill, para caminhar juntos com o olhar fixo no futuro. Todo o restante é secundário. Por isso, está bom um aeroporto cubano, como estaria bom qualquer outro lugar. Porque para a unidade entre os cristãos vale o princípio bergogliano de que o tempo é superior ao espaço. E que o importante é “colocar em andamento processos, mais que ocupar espaços”.

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