O Papa enfrenta no México os seus maiores problemas

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10 Fevereiro 2016

A violência, a migração, a pobreza. O Papa apagou a cor rosa do mapa do México. A visita de cinco dias que iniciará nesta sexta-feira ao maior país católico de fala espanhola será marcada por uma agenda de alta voltagem. O Pontífice, em seu percurso pelos buracos negros do México, desde Chiapas até Ciudad Juárez, encontrar-se-á com um episcopado que ainda destila os modos patrícios de Ratzinger e um povo onde o catolicismo corre em retirada, mas que colocou nas qualidades de Francisco uma imensa esperança.

A reportagem é de Jan Martínez Ahrens, publicada por El País, 09-02-2016.

Uma viagem pelos problemas. Isso o Papa escolheu para sua visita. Ecatepec, Chiapas, Michoacán, Ciudad Juárez. Cada parada é puro dinamite. Desde a ultraviolência dos cartéis até a tragédia das costas molhadas; desde a miséria dos arrabaldes até os feminicídios em massa.

Diversamente dos suaves percursos de João Paulo II e Bento XVI, a entrada em terras mexicanas de Jorge Mario Bergoglio está chamada a traçar uma divisória histórica. “As últimas visitas de Karol Wojtyla, cansado e enfermo, foram muito manipuladas, mas agora será completamente distinto. Francisco pode dar a surpresa, não tem papas na língua e vem com vontade de dizer muitas coisas”, explica a professora do Colégio de México Soledad Loaeza.

A expectativa ante esta sétima visita papal é imensa. Cada lado do tabuleiro espera um gesto do Pontífice a seu favor. Inclusive o Governo. Embora qualquer crítica papal identificar-se-á imediatamente com uma varada no Executivo, alguns peritos consideram que sua mera chegada já é um triunfo para o Presidente Enrique Peña Nieto. “O Governo dá por descontadas as críticas. Para eles o melhor cenário é que venha, e isso é um êxito que vão atribuir-se”, indica Alejandro Díaz, professor da Escola de Governo do Instituto Tecnológico de Monterrey.

Mas o êxito, bem como o fracasso, é uma arma de dois gumes. As esperanças são muito altas. Esperamos que ele se reúna com os pais dos desaparecidos, que receba as vítimas da pederastia, que se pronuncie em torno à migração, aos direitos humanos...  “Cabe o risco de desencanto em alguns setores, porque Francisco falará em termos gerais e será preciso lê-lo entre linhas e saber tomá-lo como estímulo”, assinala o padre jesuíta David Fernández, reitor da prestigiosa Universidade Ibero--americana.

Hierarquia deslocada

Consciente deste risco, a agenda o Papa carregou suas visitas de mensagens simbólicas. Uma arma que Bergoglio maneja com extrema habilidade. Em Chiapas, por exemplo, apresentará um decreto para autorizar o uso de línguas indígenas na missa. Inclusive ele mesmo utilizará três idiomas nativos.

E, em Ciudad Juárez, outro dos grandes pontos quentes, ele se dirigirá à vala que separa os Estados Unidos do México e ali, num gesto que seguramente ficará nos anais, estenderá a mão ao outro lado. Será um murro direto na mandíbula de Donald Trump e nas correntes xenófobas que se infiltraram nas fileiras republicanas. Mas também será um emotivo abraço a um povo, o mexicano, que em luta constante contra a pobreza nunca baixou a cabeça ante seu orgulhoso vizinho do norte.

Neste jogo de referências, suas palavras para o episcopado mexicano serão lidas com enorme atenção. Embora já tenha elegido uma dezena de bispos e um cardeal, a hierarquia mantém um alto componente conservador. Trata-se de um coro afeito aos usos das cortes de João Paulo II e Bento XVI, ao que a irrupção do vendaval Francisco e sua narrativa desambientaram por completo.

“O projeto do Papa não trata tanto de modificar a agenda moral da Igreja, senão de impulsionar uma nova, mais pastoral e aberta. Mas, é uma reforma de cima para baixo, e para culminá-la necessita do apoio das igrejas locais. Fará críticas e questionará as atitudes principescas dos bispos, sua acomodação ao poder, mas não vem para ralhar, senão para seduzir”, explica o especialista eclesiástico Bernardo Barranco.

Esta aliança é considerada um fator imprescindível para obter um dos objetivos fundamentais da visita: reativar a lânguida fé romana. No México, 83% da população se declara hoje católica, face aos 95% de 1970. Entre as causas deste declive figura a secularização das grandes urbes, mas também o incessante avanço das igrejas evangélicas e pentecostais. “Grande parte do clero se despreocupou com a situação do país, e deu pouco papel ao laicato, diversamente de outros movimentos religiosos”, detalha o reitor Fernández.

Neste angustiante cenário de desafios, o Papa terá somente cinco dias para jogar a partida. Em sua equipe se destacam excelentes conhecedores do terreno, como o secretário de Estado, Pietro Parolin, que passou pela nunciatura do México de 1989 a 1992. Um elemento chave que permitiu evitar as pressões externas na conferência da agenda. Mas, sobretudo conta Francisco com seu instinto e capacidade para não decepcionar uma nação que o espera com as mais altas expectativas.

Cinco missas e muitos quilômetros

Durante sua visita, de 12 a 17 de fevereiro, o Papa oficiará missas em Chihuahua, Michoacán, Chiapas, Estado do México e Cidade do México.

A primeira parada será a capital mexicana, onde percorrerá 222 quilômetros e se reunirá com Enrique Peña Nieto, entre outros.

Francisco visitará nos dias seguintes Ecatepec, um dos municípios mais violentos, e logo viajará ao Estado de Chiapas, o mais pobre do país. Seu giro levá-lo-á também a Michoacán, na fronteiriça Ciudad Juárez.

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